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domingo, 24 de julho de 2011

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

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O imenso contraste entre, por um lado os números preocupantes do desemprego de Junho revelados há pouco pelo governo americano e, por outro lado, os números recordes de desempenho da Apple, as fabulosas operações de IPO da LinkedIn e da Zillow (levando o emblemático investidor Frank Quattrone a chamar a LinkedIn de “a Netscape da era atual”), traz de volta a discussão em torno do papel da inovação tecnológica na geração de riqueza. Nunca é demais lembrar que através do conceito absolutamente inovador de “internet browser” (“navegador da internet”), a Netscape abriu caminho para uma onda multi-bilionária de criatividade na internet que transformaria praticamente todas as indústrias e vidas de bilhões de pessoas online atualmente. Em 1995 o IPO da Netscape, então uma empresa de 18 meses de idade que ainda não dava lucro, incendiou os mercados financeiros gerando uma das maiores valorizações de ações no primeiro dia de oferta em toda a história das bolsas de valores.
Com sorte de campeã, a Netscape teve seu IPO num momento em que estava se processando uma maior democratização do investimento em bolsa de valores, e, como disse Sarah Lacy em “How We All Missed Web 2.0's "Netscape Moment"” (Techcrunch, 03/04/2011), não foram os bancos de investimento os responsáveis pelo estrondoso sucesso da oferta inicial da Netscape, mas sim os investidores individuais invadindo as corretoras para comprar um exemplar do produto que desejavam e que experimentou valorização tão rápida e dramática no mercado de ações. E o co-fundador da Netscape, Marc Andreessen, hoje investidor anjo e capitalista de ventura, “foi um sinal para todo hacker ou geek de que você poderia mudar para o Vale do Silício e construir algo enorme (e ficar rico) em questão de meses – algo que nunca tinha sido possível antes.”
Aparecendo como um bastião de esperança no cenário econômico dos Estados Unidos, e, como diz Jon Bischke em seu artigo “A Tale Of Two Countries: The Growing Divide Between Silicon Valley And Unemployed America” (Techcrunch, 16/07/2011), uma das poucas coisas que ainda mantêm a expectativa de não deixar que o país perca a posição de uma das maiores superpotências econômicas mundiais, o efervescente setor de tecnologia parece ter retomado o ritmo alucinante de crescimento que se viu nos anos que antecederam o estouro da bolha da internet em 2000. Empresas de crescimento rápido como Facebook, Groupon e Twitter,cujas valorações de mercado atingem níveis estratosféricos, não apenas criam empregos, mas também atraem investimentos estrangeiros e geram enorme riqueza para seus empregados e acionistas que acaba circulando na economia do país. Até o mercado de automóveis de luxo se beneficia da efervescência do setor de tecnologia: em artigo publicado no Wall Street Journal (“Tech Boom Revs Up Demand for Luxury Cars”, 21/07/11), Shayindi Raice relata que no Vale do Silício as concessionárias de carros de luxo experimentam um aumento significativo nas vendas desde o final de Junho.
Muito já se falou dos impactos econômicos da internet, e, entre os fatores apontados por vários estudiosos está o fenômeno da generatividade analisado por Jonathan Zittrain em seu artigo “The Generative Internet” publicado no Harvard Law Review em 2006. Em poucas palavras, Zittrain oferece três razões fundamentais: (1) generatividade é o que faz uma rede global de PC’s interconectados se constituir numa tecnologia tão transformadora; (2) generatividade não é uma característica inerente ou imutável da rede de PC’s que forma a internet, mas sim o resultado de um certo número de decisões de projeto implementadas em código executável, que podem ser modificadas posteriormente; (3) vulnerabilidades de segurança servirão de balizadores cruciais na manutenção de um equilíbrio entre as demandas por maior segurança por parte de consumidores e órgãos governamentais reguladores e as necessidades de abertura fundamentais para manter a plataforma propícia à criatividade e à inovação.
Mais recentemente, Barbara van Schewick em seu livro “Internet architecture and innovation”  (The MIT Press,  Junho 2010) faz uma análise pormenorizada dos princípios que estão por trás das referidas decisões de projeto que têm feito da arquitetura da internet um terreno fértil para a inovação. Em destaque a advertência apontando os impactos econômicos que poderiam advir associados a mudanças na estrutura da internet de uma arquitetura aberta permitindo a qualquer inovador desenhar uma aplicação ou compartilhar um conteúdo para uma estrutura na qual os intermediários (i.e., os provedores de serviço de internet) têm que autorizar o acesso a conteúdo e desenhar as aplicações principais eles próprios. Valendo-se de uma retrospectiva da história da internet, van Schewick vai buscar na teoria econômica o apoio necessário à sua afirmação de que uma internet altamente controlada não apenas constituiria um desvio de sua característica convidativa à inovação, mas também, e infelizmente, resultaria em grandes prejuízos aos interesses econômicos, culturais e políticos da sociedade.
A bem da verdade, acrescenta van Schewick, a arquitetura original da Internet foi baseada em quatro princípios de desenho – modularidade, hierarquia em camadas, e duas versões do muito celebrado porém muito mal-entendido “argumento fim-a-fim” (i.e., o intermediário não decide, apenas repassa). Van Schewick demonstra que esse desenho tem servido de terreno fértil para a inovação em aplicações e permitiu que aplicações e serviços como e-mail, World Wide Web, eBay, Google, Skype, Flickr, Blogger e Facebook emergissem e fossem bem sucedidos. Em última análise, a capacidade da internet de propiciar maior liberdade ao indivíduo, devido à sua característica de plataforma apropriada a uma maior participação democrática, e sua capacidade de alimentar uma cultura mais crítica e auto-reflexiva estão fortemente associadas a características resultantes da versão mais ampla dos chamados argumentos fim-a-fim.
Um dos empreendedores de internet em maior evidência no momento, Reid Hoffman, co-fundador e Executive Chairman da LinkedIn, dá seu testemunho em palestra intitulada “Entrepreneurs Will Create The Future” no encontro “Endeavor Entrepreneur Summit” organizado em San Francisco de 28 a 30 de Junho de 2011. Chamando a atenção para o fato de que o empreendedor hoje tem o papel de criar o futuro, Hoffman sugere alguns princípios básicos que devem ser seguidos por aqueles que almejam navegar pelo processo de empreendedorismo e criação de startups de inovação tecnológica. Para se tornar um empreendedor eficaz, Hoffman recomenda seguir alguns princípios fundamentais: ( 1) buscar sempre por mudanças disruptoras; (2) almejar alto; (3) construir uma rede em torno de seu empreendimento; (4) planejar para a boa e a má sorte; (5) manter uma persistência flexível; (6) lembrar que essas regras são apenas guias e não leis.
Nesse pormenor Hofmann lembra que quase todas as startups bem sucedidas passarão por momentos críticos, os chamados momentos de
“vale da sombra”, quando todos na equipe inicial passam a se perguntar “por que é que essa é uma boa idéia?”. E aí é preciso entender como lidar com o processo de agir com “persistência flexível”, ou seja, adotar uma postura “pivotante” (i.e., girando em torno de um pivô): além de um plano A e um plano B, é preciso vislumbrar um plano Z na eventual necessidade de vender ou mesmo fechar a empresa.
Seja lá qual for o plano adotado, o fato é que, como diz Hoffman, empreendedores devem assumir o papel dos pioneiros modernos da era atual, no sentido de que devem estar procurando enxergar oportunidades e trazer produtos e serviços que permitam a sociedade inventar e se adaptar ao futuro, especialmente num momento de grandes mudanças como o aquecimento global, mudanças no mercado financeiro, e globalização.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Incentivo a Novos Empreendimentos de Alto Potencial de Crescimento


O Incentivo a Novos Empreendimentos de Alto Potencial de Crescimento

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Inúmeras são as evidências do papel fundamental da inovação tecnológica como propulsora do crescimento econômico. Com efeito, sobretudo desde os anos 1950’s, economistas e especialistas em políticas públicas têm demonstrado o quão estreita é a relação entre os aumentos em prosperidade econômica e a inovação, seja através de novas descobertas científicas, seja por meio de mudanças incrementais na forma pela qual as unidades fabris ou as prestadoras de serviço desempenham suas atividades. E esse fenômeno vai além das fronteiras do tempo e das nações.
Numa época em que a criação de empregos é o grande desafio, a inovação e o empreendedorismo ressurgem como motores fundamentais do crescimento econômico. À medida em que os governos mundo afora tentam alimentar esses motores, resta saber sob quais princípios deve ser conduzida a intervenção governamental no processo de geração de novos empreendimentos, alguns de natureza intrinsecamente arriscada mas de alto potencial de retorno.
Como bem recorda Josh Lerner, professor da Harvard Business School, e autor de “Boulevard of Broken Dreams: Why Public Efforts to Boost Entrepreneurship and Venture Capital Have Failed-and What to Do About It” (Princeton University Press, 2009), pelo qual recebeu o Global Award for Entrepreneurship Research em 2010, a percepção de que a inovação é crucial ao crescimento econômico tem origem no trabalho pioneiro de Morris Abramowitz de 1956 sobre a relação entre o que a economia americana produziu, isto é, a “saída” da economia, e o que lhe foi alimentado como entrada. Em poucas palavras, Abramowitz chegou à conclusão de que havia apenas duas maneiras de aumentar a saída: (1) aumentando o número de entradas que alimentam o processo produtivo (por exemplo, elevando a idade mínima de aposentadoria dos trabalhadores), ou (2) desenvolvendo novas maneiras de obter mais saída a partir das mesmas entradas.
Após analisar os dados estatísticos, Abramowitz observou que o crescimento das entradas no período de 1870 a 1950 dava conta de apenas 15% do verdadeiro crescimento da saída da economia, e os 85% restantes não poderiam ser explicados pelo crescimento nas entradas. Esse acréscimo na atividade econômica teria tido sua origem a partir de inovações na obtenção de mais resultados em cima das mesmas entradas. Desde então, diversos estudiosos, entre eles Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia, obtiveram resultados semelhantes, contribuindo para um consenso no sentido de que o gerador crucial do crescimento eram as mudanças nas formas com que as entradas eram utilizadas. O tamanho desse crescimento não explicado, e o fato de resultados semelhantes continuarem a ser obtidos mesmo com metodologias diversas, têm levado a maioria dos economistas a concluir que a inovação é, de fato, a principal força por trás do crescimento da saída.
É fato que o íntimo relacionamento entre a inovação e o crescimento econômico tem sido amplamente reconhecido. Não apenas os países mais desenvolvidos tais como a União Européia, que tem recentemente considerado o investimento em pesquisa como um de seus objetivos fundamentais nos próximos anos, mas também os países emergentes, como a China, têm incorporado a idéia de que a inovação é crítica para o crescimento. Diversos estudos têm revelado os efeitos positivos do progresso tecnológico em áreas como a tecnologia da informação, e não apenas através da mera identificação de um residual inexplicado. Parece inegável, portanto, que é essencial para o futuro econômico de um país não somente o que ele produz, mas como ele produz. A busca por novas formas de produção parece ser crucial, e nisso o fator de risco pode ser maior do que deseja o espírito conservador.
A literatura acadêmica tem destacado o papel do empreendedorismo e do capital de risco (“venture capital”) no estímulo à inovação. Muitas são as tentativas de examinar a relação entre o tamanho da empresa e o volume de inovação produzido por ela, e, muito embora os resultados se mostrem inconclusivos, há um consenso entre os especialistas no sentido do quão crítico é o papel desempenhado pelas novas empresas nos mais variados setores econômicos. Como sugere Lerner, diversos estudos indicam que os empreendedores e as startups têm um papel fundamental no perceber onde as novas tecnologias podem atender às necessidades do consumidor, e rapidamente introduzir novos produtos.
Nesse contexto, o estímulo governamental à criação de novos empreendimentos de alto potencial de crescimento aliado ao chamado aos investidores de risco se revelam como de importância crítica para o crescimento econômico. Não obstante, se, por um lado, políticas públicas criteriosas podem influenciar positivamente as oportunidades, por outro lado, iniciativas mal conduzidas correm o risco de desperdiçar o dinheiro do contribuinte. É nesse espírito que Lerner, em “Boulevards of Broken Dreams”, avalia diversos casos de intervenção governamental no estímulo às chamadas venturas de alto potencial de crescimento, concluindo com uma série de recomendações para a implementação criteriosa do apoio governamental de atividades empreendedoras de alto risco em tecnologia , de modo que os erros de experiências mal sucedidas não sejam repetidos.
Os principais eixos globais de inovação tecnológica – Vale do Silício, Cingapura, Tel Aviv – todos trazem marcas do investimento governamental. Exemplos mais recentes, alguns bem sucedidos, outros nem tanto, incluem Jamaica, Dubai, Nova Zelândia, Bangalore, e as províncias de Guangdong e Zhejiang (China). Ao invés de assumir que não há lições a serem tomadas dessas experiências anteriores, dada a dificuldade de isolar cada caso de suas peculiaridades culturais e locais, Lerner defende que “o fracasso de esforços de governos no estímulo às atividades empreendedoras e de ventura era completamente previsível.” Todos esses esforços compartilharam falhas na sua concepção que os tornaram fadados ao insucesso. E alguns desses erros apareceram em iniciativas na Europa e até mesmo nos Estados Unidos. Lerner enumera três princípios básicos para o sucesso de políticas públicas nessa área: (1) Lembrar sempre que a atividade empreendedora não existe no vácuo. Empreendedores são extremamente dependentes de seus parceiros. Sem advogados experientes para negociar os acordos, gurus de marketing bem desenvoltos, engenheiros que estejam dispostos a receber salários não muito altos mas opções de ações como compensação, e clientes dispostos a experimentar  uma empresa nova, o sucesso é improvável. (2) Deixar o mercado determinar a direção. Os programas de incentivo devem exigir que uma quantidade substancial de fundos seja levantada de fontes não-públicas. (3) Resistir à tentação de supercontrolar. Em muitos casos, os requisitos governamentais que limitam a flexibilidade de empreendedores e investidores de risco têm sido detrimentais. É tentador impor restrições em diversas dimensões: localização das empresas, tipo de valores mobiliários que os investidores de risco podem utilizar, e a evolução das empresas (por exemplo, restrições a aquisições ou vendas secundárias de ações).
Afeito a esses princípios básicos, o Vale do Silício serve de modelo a muitos que aspiram reproduzir seu sucesso.
Em discurso na Stanford University em 24/06/10, o presidente da Rússia Dmitry Medvedev afirmou que, como parte de um amplo esforço de modernizar a economia russa e reduzir sua dependência dos recursos naturais, seu governo está planejando implantar um centro de inovação de alta tecnologia, no estilo “Vale do Silício”, em Skolkovo, região metropolitana de Moscou. A idéia é propiciar a criação de um ecossistema de investimento e inovação em cinco áreas estratégicas: eficiência no setor de energia, energia nuclear, tecnologia da informação, telecomunicações, e biotecnologia. Medvedev aproveitou a ocasião para anunciar uma nova política de taxação e de incentivos fiscais para atrair investidores e empreendedores estrangeiros.
O Chile é mais um dos países que se declaram dispostos a se apropriar do legado do Vale do Silício. Em palestra intitulada “Chile: Launching a Global Entrepreneurship Hub”, proferida em 22/09/10 no Stanford Technology Ventures Program, Juan Andrés Fontaine, Ministro da Economia do Chile, expôs o programa de criação de um ecossistema de empreendedorismo em alta tecnologia em seu país, que inclui incentivos para atração de investidores e empreendedores dos principais eixos de inovação tecnológica, a começar pelo Vale do Silício. Apresentando seu país como uma startup em crescimento, Fontaine defende que as mudanças tão desejadas pela sociedade podem vir através da inovação, ao invés da revolução. É preciso haver uma melhor interação entre cientistas e empreendedores, e, através de uma melhor compreensão do exemplo do Vale do Silício, assim como de uma melhor aproximação entre a academia e a indústria, será possível consolidar uma cultura de inovação e empreendedorismo que possa levar o Chile à condição de eixo latino-americano de inovação tecnológica, advoga Fontaine. Oxalá o exemplo seja seguido pelo restante da América Latina!
Como diz Lerner, por mais desafiador que seja o estímulo ao empreendedorismo, trata-se de assunto importante demais para deixar nas mãos dos responsáveis por políticas públicas.
 
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Computação nas Nuvens, Startups e a Criação de Empregos


Computação nas Nuvens, Startups e a Criação de Empregos

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Em postura de oblívio ao clima de desemprego reinante na maior economia do mundo, as startups baseadas em serviços de internet parecem existir em um outro mundo. Crescem como mato. E a computação nas nuvens tem servido de fertilizante de alto rendimento. Como diz Jonathan Boutelle no artigo “How Cloud Computing Impacts the Cash Needs of Startups” (16/08/2010, GigaOm.com), “o dinheiro é o oxigênio do negócio, e a computação nas nuvens permite que as empresas inspirem o oxigênio (coletando receita) antes que o expirem (pagando a seus provedores do serviço nas nuvens)”. Isso tudo porque, a bem da verdade, ao invés de uma inovação tecnológica, a computação nas nuvens chega como uma inovação no sistema de preços: a computação é paga como uma utilidade, e como tal o valor pago é decorrente do uso. Assumindo que o uso está diretamente relacionado à geração de receita, os custos da computação nas nuvens flutuam em consonância com as receitas.
Dessa forma, uma startup pode fazer “escalonamento baseado no sucesso”, e poder se dar ao luxo de ter vários meses de custo mínimo (possivelmente sem receita), antes de encontrar o encaixe do produto no mercado, e aí então crescer rapidamente. Com a computação nas nuvens à disposição, é possível escalonar para cima para atender à demanda, assim como escalonar para baixo rapidamente, caso necessário. Nesses termos, não é difícil concluir que o escalonamento baseado no sucesso reduz o risco de lançar uma startup, e, naturalmente, reduz o capital necessário para o seu lançamento. Ganham cada vez mais força as abordagens ágeis ao investimento em startups adotadas e defendidas por Dave McClure, Jeff Clavier, First Round Capital, Y-Combinator, TechStars, Betaworks, Founder Collective. Nas palavras de McClure, o método de investimento associado ao “Modelo Startup 2.0” recomenda: (i) invista em startups usando investimento incremental, e desenvolvimento iterativo; (ii) comece com diversos experimentos pequenos, filtre os fracassos, e expanda o investimento em cima do sucesso.
Em artigo de 01/02/2010 na BusinessWeek.com (“Amazon Web Services: Quietly Staking Out the Cloud”) Om Malik já chamava a atenção para o fato de que a computação nas nuvens tem sido um fator facilitador crucial na última geração de startups de internet, permitindo que iniciem com pequenos volumes de capital e escalonem rapidamente em resposta à demanda. Como não têm patrimônio (físico ou não), as startups não se vêem impedidas por nenhum dos fatores que retardam a adoção da computação nas nuvens, muito menos por uma insistência no fazer as coisas à moda antiga. Relatando uma conversa com Werner Vogels, CTO da Amazon, em que elogiava o papel dos chamados “Amazon Web Services” (aws.amazon.com) como catalisadores da inovação, Malik observava que, com acesso a tais serviços, as startups têm condições de escalonar agressivamente. “Com as nuvens vem o pensamento e a disposição irrestritos para mexer e experimentar sem se preocupar demais com o custo,” respondeu Vogels, acrescentando ainda que “a nuvem permite que muitos negócios escalonem agressivamente, tais como os aplicativos para a Facebook”.
Pesquisas consolidadas já estabeleceram o papel essencial das startups (tecnicamente, empresas com menos de um ano de criação) na criação de novos postos de trabalho e no crescimento do emprego na economia americana. Mais recentemente, em relatório produzido para a Kauffman Foundation (“The Importance of Startups in Job Creation and Job Destruction”, Jul/2010), Tim Kane observa que “as startups não são tudo quando se fala em crescimento do emprego. Elas são a única coisa.” Através de uma análise pormenorizada dos dados das “Business Dynamics Statistics” com base na idade das empresas, Kane conclui que “sem as startups, não haveria crescimento líquido no emprego na economia dos EUA”. Ainda segundo Kane, as startups criam em média 3 milhões de novos postos de trabalho anualmente. Todas as outras idades de empresas, incluindo firmas nos seus primeiros anos de existência até as estabelecidas dois séculos atrás, se revelam destruidoras líquidas de postos de trabalho, perdendo, juntas, um saldo de 1 milhão de postos de trabalho a cada ano.
Em geral se imagina as startups como altamente voláteis. Com efeito, Dane Stangler em relatório de Março de 2010 (“High-Growth Firms and the Future of the American Economy”, Kauffman Foundation) estima que menos da metade de todas as novas empresas sobrevivem mais de cinco anos. Na realidade, Stangler se concentra nas empresas de alto crescimento – as chamadas “gazelas” – que, a despeito de existirem em número relativamente pequeno, são responsáveis por uma parcela desproporcional da criação de empregos. Os resultados mostram que: (i) em qualquer ano, as empresas com desempenho entre as 1% melhores geram aproximadamente 40% da criação de novos empregos; (ii) empresas jovens de crescimento rápido, que correspondem a menos de 1% de todas as empresas, geram aproximadamente 10% de novos postos de trabalho em um dado ano qualquer.
Levando em consideração a volatilidade dos empregos gerados por startups, Michael Horrell e Robert Litan em “After Inception: How Enduring is Job Creation by Startups?” (Kauffman Foundation, Jul/2010) se propõem a responder a uma questão crucial: será que o número de postos de trabalho criados por startups exibem a mesma volatilidade que as taxas de sobrevivência? Em outras palavras, quantos postos de trabalho desaparecem um ano após serem criados? Até certo ponto surpreendentes, os resultados indicam que, enquanto que o emprego sofre uma queda no período de vida de uma empresa da mesma faixa etária, ele não reflete a taxa de sobrevivência das startups. Para empresas iniciadas entre 1977 e 2000, após cinco anos, em média, 80% do número de postos de trabalho que foram criados inicialmente ainda existem naquele grupo etário, enquanto que o número de empresas diminuiu em cerca de 50% nesse mesmo período. Além do mais, à medida em que as empresas envelhecem, os números de postos de trabalho em agregado parecem se nivelar em pouco mais de 65% por grupo etário, enquanto que o número de empresas continua a cair para 20% e menos. Horrell e Litan concluem que essa diferença marcante entre o emprego e a sobrevivência da empresa dá um esboço das oscilações do emprego que ocorrem nesses grupos etários. Enquanto que muitas empresas fracassam em um dado grupo, destruindo empregos, muitas também despontam, criando empregos.
A título de recomendação aos responsáveis por políticas públicas de incentivo à criação de empregos, Tim Kane chama a atenção para o fato de que, no caso dos EUA, os governos locais que priorizam empreendimentos maiores e empresas mais antigas estariam fadados ao fracasso, não apenas porque essas seriam de “soma-zero”, mas sobretudo porque o crescimento do emprego é conduzido em grande medida por startups que se desenvolvem organicamente. Empresas sobreviventes criam até 7 milhões de saldo de empregos (metade dos quais no nascimento das empresas), enquanto que o grupo dos que foram à falência são responsáveis por uma perda líquida de 4 a 8 milhões de empregos.
Em tempos de internacionalização do ambiente econômico, acelerada pela computação nas nuvens, vale a pena aprender e tirar lições dos dados da economia norte-americana. Que as startups entrem definitivamente na lista de prioridades dos responsáveis pelas políticas públicas de incentivo à geração de emprego.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Moneyball para Startups e a Força da Tração


Moneyball para Startups e a Força da Tração

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Numa dessas ironias da vida, um dos grandes pilares da revolução tecnológica alucinante que ainda hoje se desenrola está sendo taxado de dinossauro. Isso mesmo, jurássico. Verdadeiro símbolo do combustível que tem alimentado a inovação tecnológica, o capitalista de ventura (em inglês, “venture capitalist”, abrev. VC), ou capitalista de risco, tem tido um papel fundamental no desenvolvimento do ecossistema de inovação e geração de riqueza do Vale do Silício. Atualmente, porém, observa-se nitidamente que os fundos de capital de ventura estão diminuindo de tamanho, ao mesmo tempo em que crescem os fundos de investidor anjo. E, no momento atual, todas as indicações são de que o investidor, seja atuante em uma classe de ativos ou em outra, está sendo forçado a se tornar mais ágil e mais esperto, em consonância com o ritmo de mudanças. Os custos das empresas startup têm diminuído dramaticamente nos últimos cinco anos, e a distribuição online através de engenhos de busca, mídia social, e plataformas móveis têm se popularizado como canais de marketing para consumidores. Enquanto isso, por um lado, aumenta o número de aquisições, e, por outro lado, o tamanho das negociações diminui à medida em que empresas mais consolidadas adquirem startups em momentos cada vez mais iniciais de seu ciclo de desenvolvimento.
Conforme previu Paul Kedrosky em relatório publicado em Junho de 2009 pela Kauffman Foundation (“Right-Sizing the U.S. Venture Capital Industry”), a indústria do capital de ventura está encolhendo. Apesar do sucesso demonstrado nas últimas três décadas, e de seu papel de catalisador financeiro de empresas de alto crescimento, a indústria de VC tem revelado estagnação e declínio em seu retorno. Entre os especialistas há um sentimento generalizado de que, embora deva manter seu papel fundamental de tracionar o crescimento de empresas nas áreas de tecnologia da informação, tecnologia limpa, e biotecnologia, todas elas de alto risco e ao mesmo tempo capital-intensivas, a indústria deverá passar por um processo de redimensionamento. A resistência a mudanças é uma realidade, inclusive pela imagem, tanto no inconsciente coletivo quanto no meio dos responsáveis por políticas públicas, de que a indústria de VC é elemento inseparável da inovação tecnológica. Kedrosky se propõe a responder questões fundamentais como: qual deveria ser o tamanho da indústria de VC em termos do compromisso financeiro subjacente agregado para com parcerias de empreendimento? O tamanho da indústria deveria ser maior de modo a melhor equipar empreendedores para resolver problemas que enfrentamos enquanto sociedade? Deveria ser menor para que possa arriscar mais, tracionar retornos maiores, e portanto manter os investidores satisfeitos?
É fato que a indústria do capital de ventura cresceu dramaticamente como resultado da formação da bolha da internet que acabou rompida em 2001. Antes do fenômeno da bolha se consolidar, as pessoas que investiam em fundos de VC (os chamados “parceiros limitados”, em inglês “limited partners”, abrev. LP’s) puseram cerca de 50 bilhões de dólares no setor, e em 2001 o total de investimentos inchou para algo em torno dos 250 bilhões. Acontece que, como o capital de ventura é uma classe de ativos essencialmente “ilíquida”, mesmo após o estouro da bolha os fundos não desapareceram imediatamente. Em 2000-2001 o mercado de ações se ajustou rapidamente punindo investidores no índice NASDAQ e nas ações de empresas de tecnologia de um modo geral.  É natural que os consumidores tenham retirado seu dinheiro desses investimentos de alto risco, mas o compromisso dos LP’s com os fundos de VC é de 10 anos determinado no contrato. Dessa forma, o total de compromissos em 2008 ainda se situava em torno dos 250 bilhões.
Em “What’s Really Going on in the VC Industry? What Does it Mean for Startups?” (16/10/10) Mark Suster lembra que o que acelerou o encolhimento da indústria de VC foi o colapso dos mercados financeiros.  Os LP’s que investem em fundos são tipicamente as reservas monetárias (em inglês “endowments”) das universidades americanas, os fundos de pensão, as seguradoras, as grandes corporações, além dos indivíduos de grande fortuna. Kedrosky então enumera dois problemas com o LP: (1) o “problema do denominador, que diz que se um LP investe X% (numerador) em “investimentos alternativos” tais como capital de ventura, e se o montante disponível para investir (denominador) diminui de 30%, então o montante que ele aloca para o VC vai precisar baixar de 30% para permanecer na mesma porcentagem; (2) a indústria do VC tem tido um péssimo desempenho nos últimos 10 anos, a ponto de muitas firmas sequer terem retribuído o capital original dos LP’s, muito menos dar lucro.
Em artigo intitulado “MoneyBall for Startups: Invest BEFORE Product/Market Fit, Double-Down AFTER”, 30/07/10), recentemente publicado em seu blog “Master of 500 Hats”, Dave McClure, investidor anjo e empreendedor, começa lembrando as discussões recentes sobre as vantagens e desvantagens de ser pequeno ou grande investidor em alta tecnologia, mais especificamente que mudanças e desafios têm surgido na indústria do VC na última década. As circunstâncias atuais, segundo ele, não se mostrariam favoráveis aos fundos de grande volume de investimento em internet de consumo (em inglês, “consumer internet”). De forma aparentemente paradoxal, McClure argumenta que um dos principais fatores para o sucesso de um investimento em uma startup não seria o tamanho do fundo. Na verdade, o ponto principal, segundo ele, seria o nível de complacência e de falta de agilidade dos investidores nessas últimas duas décadas, revelados inclusive na própria taxa interna de retorno (em inglês, “internal rate of return”, abrev. IRR). “Enquanto isso a internet de consumo trouxe uma verdadeira tsunami de mudanças tecnológicas e comportamentais que resultou em reduções espetaculares em tempo e custo necessários para distribuir produtos e serviços a mais de 2 a 3 bilhões de pessoas conectadas no planeta. A internet mudou a vida dramaticamente para bilhões de pessoas em todo o globo – e ainda assim a maioria dos VC’s e dos advogados ainda fecham negociações via fax e correio comum.”
O mundo mudou muito para empreendedores de tecnologia, e os VC’s estão tentando se adaptar às novas realidades.  Segundo McClure, alguns vão conseguir, porém outros vão acabar decidindo por não angariar um novo fundo e passar os próximos cinco a dez anos envolvidos com os fundos que já têm, e depois se retirar do setor. “A maioria dos VC’s são dinossauros, e a World Wide Web é um asteróide que atingiu o planeta numa explosão cataclísmica em câmera-lenta 15 anos atrás. Pode levar mais 5 anos para que as cinzas das nuvens e o inverno nuclear dos navegadores, engenhos de busca, redes sociais, e dispositivos móveis matem os tiranossauros, mas é um fato consumado,” diz McClure.
Em decorrência das mudanças trazidas pela Web, incluindo aí os recursos disponbilizados pela computação nas nuvens, estaríamos vivenciando um período de grandes oportunidades para se montar startups de internet de consumo focadas-em-receita com base num investimento de baixa magnitude (da ordem de 1 a 5 milhões de dólares) que: (i) atinja um certo nível de viabilidade comercial, (ii) adquira clientes usando canais de distribuição online (engenhos de busca, redes sociais, plataformas móveis), (iii) possa ser vendida mais tarde por algo na faixa de 25 a 250 milhões de dólares.
Tudo isso com base nos seguintes fundamentos: (1) os ciclos de desenvolvimento do produto seriam mais curtos, os recursos e o material necessários seriam gratuitos ou de baixo custo, os  equipes de desenvolvimento seriam menores, e os novos serviços de combinação com outros serviços já existentes que já propiciam excelente valor na nuvem através de features, dados, efeitos de rede, API’s; (2) os custos de marketing seriam menores devido à disponibilidade de canais de baixo custo e de alcance amplo, que podem ser usados de forma mais mensurável e previsível que anteriormente; (3) a receita poderia ser gerada de forma simples e contínua através de modelos de negócio diretos e métodos de pagamento online que se popularizam cada vez mais, comércio eletrônico transacional, bens digitais, cobrança de assinatura, publicidade mensurada por clique. O tripé formaria o que ele chama de “tração”.
Em suma, a receita de McClure assim se configura: “invista antes do encaixe produto/mercado, meça/teste para ver se a equipe está encontrando esse encaixe, e, em caso positive, exerça sua oportunidade de investimento de acompanhamento proporcional depois que eles tiverem conseguido obter o encaixe produto/mercado.”
 
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE