Mostrando postagens com marcador inovação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inovação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Intraempreendedorismo e a Inovação em Empresas Estabelecidas

Intraempreendedorismo e a Inovação em Empresas Estabelecidas

TER, 21 DE JANEIRO DE 2014 10:33

O termo "empreendedor" foi usado pela primeira vez pelo economista irlandês Richard Cantillon em 1725, referindo-se ao indivíduo que assume riscos. Cantillon foi um mercador bem sucedido e seu trabalho teve uma única obra publicada somente após a sua morte: uma teoria monetária sobre a origem da riqueza e da formação dos preços. Frequentemente, o termo é atribuído ao economista francês Jean-Baptiste Say, muito embora não seja uma unanimidade entre os estudiosos do tema. Por definição, o empreendedor é aquele que percebe e aproveita as oportunidades, transformando-as em ideias comerciais, cria ou acrescenta valor através de processos, trabalho, capital e administra os riscos do mercado competitivo para colocar essas ideias em prática. O que distingue o empreendedor de outro indivíduo é a capacidade de administrar e lidar com a incerteza. Esse perfil é cada vez mais requisitado nos profissionais dentro das organizações.

As novas empresas, em particular as startups, tem investido na criação e na busca por novos modelos de negócio. Quando encontram um que seja viável, empreendem esforços para criar marca, montar uma rede de clientes e fornecedores até chegar no patamar da sobrevivência financeira. Muitas dessas novas empresas são compradas por grupos maiores que tem a aquisição na sua estratégia de renovação. Mas existem outras formas sustentáveis de inovar, investindo no maior patrimônio das empresas: as pessoas.

O que move o empreendedor? Muitos responderiam que é o dinheiro e a possibilidade de construir um patrimônio. Porém, aqueles que deixaram suas zonas de conforto e se arriscaram em montar seus próprios negócios visando somente o dinheiro fracassaram. Mas isso não quer dizer muita coisa, dado que várias estatísticas no Brasil e no mundo indicam o alto grau de insucesso dos novos negócios. Portanto, tomar a decisão de iniciar um novo negócio requer maturidade e sobretudo, planejamento. E se você pudesse realizar o seu sonho sem precisar deixar o seu posto atual de trabalho?

O que faz o intraempreendedor

Gifford Pinchot III usou o termo intraempreendedor (do inglês, intrapreneur) pela primeira vez em 1978 ("Intra-Corporate Entrepreneurship", escrito em co-autoria com sua esposa Elisabeth Pinchot na época em que ambos estudavam na Tarrytown School for Entrepreneurs em Nova Iorque) e, desde aquela época, empresas passaram a incentivar o desenvolvimento desses perfis entre seus funcionários, como 3M, Xerox, Volvo e, mais recentemente, empresas como Google e Coca-Cola. O intraempreendedor é o indivíduo que, em vez de tomar a iniciativa de abrir o seu próprio negócio, toma a iniciativa de criar, inovar e buscar novas oportunidades e negócios para a organização na qual trabalha. Mas por que um indivíduo iria optar por ser um intraempreendedor se ele pode se tornar um empreendedor?

O empreendedor segue seu rumo em empreender por prazer, por realização pessoal, profissional, e por acreditar que o seu trabalho vale a pena e pode ajudar a tornar a sua vida e a de pessoas ao seu redor melhores. O bom empreendedor é capaz de converter uma nova ideia em uma inovação com potencial de gerar uma "destruição criativa". As empresas podem e devem incentivar seus funcionários a pensarem e a produzirem novos negócios sob os olhares da empresa. O intraempreendedorismo libera o gênio criativo que existe em quem mais deveria entender da empresa e dos negócios da empresa: os seus funcionários.

Por outro lado, o intraempreendedorismo representa um grande desafio particularmente para as organizações já estabelecidas, pois à medida que uma empresa se consolida e se torna “incumbente” na sua indústria de atuação, seus gerentes tendem a se distanciar de ideias radicais e a se tornarem mais conservadores. A organização assume uma postura de maior acomodação, o que, por outro lado, traz a miopia e a aversão ao risco. Disso tudo resulta que os valores e as estruturas da empresa se tornam cada vez mais rígidos, e o foco se concentra na operação e na missão principal. Novas ideias são vistas como ameaças ao estado de coisas, ao invés de oportunidades, e, nesse espírito somente a inovação incremental encontra algum espaço para florescer. O fato é que incumbentes se concentram na preservação de suas posições em seus respectivos mercados, e dificilmente se arriscam a buscar avanços radicais ou novos mercados.

Em seu livro “Intrapreneurship: Managing Ideas Within Your Organization” (Univ of Toronto Press, 2011), Kevin Desouza define intraempreendedorismo como a “capacidade de um indivíduo de ser inventivo e empreendedor dentro dos parâmetros de uma organização.” E acrescenta: “Ser inventivo requer a liberdade de levar à frente suas ideias e desenvolvê-las, enquanto que ser empreendedor requer um foco em comercializar ideias para chegar a soluções que os clientes valorizam.”

A quinta pesquisa "Perfil do LIDE Futuro" realizada pela Fundação Getúlio Vargas em novembro de 2013 revela que 76% dos jovens brasileiros entrevistados pretendem estar empreendendo nos próximos 10 anos. Isso vai aumentar a escassez de profissionais nas mais diversas áreas, em especial, de tecnologia. Uma possível solução para o problema é incentivar e recompensar iniciativas empreendedoras dentro da própria empresa, dando mais liberdade aos intraempreendedores, fazendo-os se sentir mais independentes e, consequentemente, mais realizados.

O boom do empreendedorismo, incentivado pela explosão de startups, metodologias e ao acesso aos novos negócios digitais tem criado um novo ecossistema global de empreendedorismo. Termos como "Lean Startup", "Venture Capital" e "aceleradoras" estão no linguajar dos jovens aspirantes a empreendedores. Diversos eventos, palestras e competições difundem as melhores práticas para inciar e validar um negócio. O grande guru do empreendedorismo global, Steve Blank, é reconhecido pelo desenvolvimento da metodologia de desenvolvimento de clientes ("The Four Steps To The Epiphany", 2005), por sua vez responsável pela consolidação das bases teóricas do Lean Startup.

Qual a melhor forma de reduzir os riscos do intraempreendedorismo

O grande guru do empreendedorismo global, Steve Blank, é reconhecido pelo desenvolvimento da metodologia de desenvolvimento de clientes ("The Four Steps To The Epiphany", 2005), por sua vez responsável pela consolidação das bases teóricas do Lean Startup.

A metodologia Lean Startup contém um conjunto de processos e ferramentas que visa reduzir o desperdício, validando ou eliminando suposições erradas sobre o mercado. No ambiente do empreendedorismo corporativo, os princípios "enxutos" permitem a validação de iniciativas com o menor custo possível.

A grande dificuldade ao patrocinar a criação de novos negócios internos está no grau de incerteza dos resultados. A incerteza é a mesma que qualquer empresa encontra ao iniciar no mercado. Como os resultados em geral não aparecem no curto prazo, a liderança tende a gerar um desestímulo no intraempreendedor e na equipe, levando o negócio ao insucesso. Grandes empresas sabem como escalar o negócio, sabem como usar sua rede de relacionamentos, sabe como planejar e executar o planejamento. Empresas startups sabem como iniciar e validar um negócio, para torná-lo escalável. Juntas, elas podem fazer o que nenhuma delas faria sozinha.

Para Steve Blank, a tendência do empreendedorismo corporativo é olhar para as diferentes áreas do negócio como diferentes empresas que interagem entre si. James Brian Quinn já defendia a ideia de que praticamente todas as atividades dos funcionários podem ser consideradas serviços prestados a outras pessoas dentro da empresa ("Intelligent Enterprise", 1992). A maioria desses serviços seria mais bem prestada por intra-empresas do que por empregados subordinados ao comando tradicional. Ou seja, Quinn acreditava que no futuro grande parte dos funcionários será formada por intraempreendedores que operam intra-empresas de serviço interno, sendo controladas e cobradas por resultados como qualquer outra empresa que ofereça "serviços externos", com mais liberdade e mais responsabilidade.

O resultado da estruturação em intra-empresas será a criação de uma empresa com capacidade de aprendizagem. Ao difundir as metodologias Lean, reduz-se o desperdício de aplicar inovação dentro da organização. As grandes empresas possuem uma expertise em várias unidades do negócio, que podem dar suporte às intra-empresas para validar as hipóteses, entender as necessidades com uma profundidade maior que uma startup concorrente da organização, e oferecer ativos como networking, recursos e também pessoas. Porém, o grande benefício é a distância burocrática que as intra-empresas devem conseguir manter para criar novos métodos, processos e sistemas para gerar uma inovação disruptiva. Ao final, esses novos negócios podem se tornar novos recursos para as unidades de negócio atuais, ou tornarem-se novas unidades de negócio rentáveis por si só.

As grandes empresas devem agir como aceleradoras na criação de startups internas. Para a construção de inovação de dentro para fora, há algumas opções. A primeira delas é a contratação de "starters" e não de "scalers", ou seja, buscar pessoas com perfil empreendedor e capazes de enxergar uma oportunidade, criar formas de validação e transformá-la em demanda com baixo custo. O Grupo Buscapé Company tem feito isso no Brasil adquirindo e investindo em startups com alto poder de crescimento com a estratégia de acqui-hiring, ou seja, comprar empresas promissoras para conquistar os talentos que a fazem.

Outra opção é incentivar o intraempreendedorismo e transferir conhecimento sobre modelos de negócio, metodologias de validação de hipóteses, desenvolvimento ágil, etc. Para a Coca-Cola Company, o jeito mais fácil de tornar funcionários "scalers" em "starters" é dar a eles a oportunidade de aprenderem Lean Startup e suas ferramentas. Para isso, foi realizado em Junho de 2013 um Startup Weekend dentro da Coca-Cola de Atlanta, nos Estados Unidos. O Startup Weekend é um evento realizado em todo o mundo onde as pessoas vivem a experiência de criar, validar e lançar uma startup em 54 horas. A grande missão do Startup Weekend é inspirar e ensinar empreendedores a sair da zona de conforto, ampliar a rede de contatos e construir soluções de negócios com viabilidade econômica.

Entretanto, usar essas metodologias ágeis no desenvolvimento de novos negócios não garante o sucesso da iniciativa. Cada empresa deve descobrir a melhor forma de gerar inovação internamente. Segundo Carie Davis, diretor de inovação da Coca-Cola, a democratização dessas ferramentas torna mais fácil a tarefa de fazer as pessoas sonharem e pensarem soluções sustentáveis para algum dos maiores desafios mundiais. De qualquer forma, o esforço de compartilhar a essência do empreendedorismo gera um ambiente de trabalho mais inspirador e dá a possibilidade de construir algo realmente grande no mundo.

As empresas líderes de mercado tem buscado melhores formas para executar e crescer com o modelo de negócios e produtos definidos há anos. Uma das melhores formas de sobrevivência em um mercado competitivo é inserir a inovação como base dos valores da empresa. Incentivar e patrocinar iniciativas empreendedoras gera bons resultados para os negócios, e ao mesmo tempo, coloca a empresa num patamar de destaque no mercado, trazendo novas soluções, novas tecnologias ou novos modelos de negócio. A função básica do intraempreendedor é conceber diferentes visões de negócios e transformá-las em realidades de negócios.



Eduardo Menezes Pires, Mestrando, Centro de Informática da UFPE
Ruy J. G. B. de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Bolhas, crises e prosperidade em revoluções tecnológicas


Bolhas, crises e prosperidade em revoluções tecnológicas

E-mail Imprimir PDF
Compartilhar
 Em meio a uma turbulência significativa na economia mundial, o que tem se observado desde o início do ano de 2011 no Vale do Silício é uma verdadeira corrida ao ouro da inovação tecnológica, alimentada por gigantes da mídia social tais como Facebook, Twitter e LinkedIn, esta última alcançando em 2011, em seu dia de oferta pública inicial, a quinta maior valorização de ações em um só dia desde o estouro da bolha da internet. Empreendedorismo de internet, se é que assim se pode chamar essa nova frente de oportunidades e de pioneirismo, virou uma espécie de febre, e a criação de startups se transformou em algo “na crista da onda”. Como diz o investidor e blogueiro Fred Wilson, o empreendedorismo está em voga, inovadores estão inovando, investidores estão investindo, e, apesar de alguns sinais de retração na oferta de capital de risco, como relata o artigo “Web Start-Ups Hit Cash Crunch” (Wall Street Journal, 13/10/11) de Pui-Wing Tam, o clima ainda é bastante favorável.
A média das valorações das novas empresas de internet, que andavam nas alturas até bem pouco tempo, andou perdendo terreno, como lembra Naval Ravikant, empreendedor e fundador da rede social AngelList que serve de ponto de encontro entre empreendedores e investidores-anjo. Chamando a atenção para as possíveis semelhanças com o que ocorreu no final dos anos 1990’s quando o boom das empresas ponto-com começou a dar sinais de fraqueza e as pequenas startups se depararam com a dificuldade de levantar financiamento, a matéria do WSJ aponta para um possível descompasso fundamental: enquanto uma multidão de empresas de internet teriam sido fundadas recentemente, não haveria capital de ventura suficiente para alimentar toda essa nova geração de startups.
Uma visão mais otimista tem Fred Wilson (“What We Are Seeing”, AVC.com, 13/10/11): é normal que a dificuldade de obter financiamento esteja alta, pois, além do altissimo nível de competitividade do mercado de startups – o número de startups buscando capital de ventura praticamente triplicou nos últimos dois anos – por um lado, os VCs têm encontrado muita dificuldade para levantar capital, e, por outro lado, o investimento vindo de anjos parece estar passando por uma fase menos abundante. Aliado a tudo isso, o investimento em empresas de internet passa por um período de transformações: se nos últimos três a quatro anos a ênfase era no aspecto social (e não poderia ser diferente diante da evolução de Facebook e Twitter), sem contar que a computação móvel tem atraído grande parcela da atenção, hoje o investidor parece estar migrando para novas áreas como computação em nuvem, mercados peer-to-peer, e a adaptação para o mundo corporativo do que funcionou bem no universo do consumidor. Segundo Wilson, não há falta de interesse no investimento em empresas de internet, mas o investidor está se vendo obrigado a aprender a lidar com novos mercados e novos setores, e essa transição parece aliviar um pouco do calor de um mercado superaquecido.
Em 2011, houve, de fato, muita discussão em torno do possível superaquecimento do mercado de empresas de internet, dados os valores estratosféricos atribuídos a determinadas startups em busca de rodadas de investimento. Não obstante, em artigo de 26/05/11 (“Fight Of The Titans”), Carlota Perez, economista e destacada estudiosa da inovação da linha Schumpeteriana e defensora do paradigma da “destruição criativa” (“creative destruction”), já advertia que o atual momento não se caracteriza como uma bolha, mas como um sinal da importância da indústria da internet para o século XXI. A grande bolha do mercado de tecnologia que estourou em 2000 foi, segundo Perez, um experimento em grandes proporções, que sempre acontece entre o período de instalação e a fase de emprego de toda revolução tecnológica. Além de permitir que o mercado propicie a troca da velha pela nova economia e decida quem serão os vencedores nesse novo cenário, é nesse período que as novas infraestruturas são instaladas e financiadas antes que se tornem lucrativas.
Bem no espírito do que pregava Chris Freeman (economista inglês, 1921-2010, responsável pela retomada da tradição neo-Schumpeteriana, e defensor do papel crucial da inovação no desenvolvimento econômico assim como das atividades científicas e tecnológicas para o bem-estar da humanidade) de que a Economia é incapaz de entender o crescimento sem a interdisciplinaridade, Perez, em seu livro “Technological Revolutions and Financial Capital: the Dynamics of Bubbles and Golden Ages” (Elgar, 2002), desenvolve uma teoria sobre as regularidades históricas na difusão de revoluções tecnológicas, incluindo a articulação de sucessivos paradigmas tecno-econômicos e a recorrência de grandes booms financeiros seguidos de bolhas e quedas, que, por sua vez, dão lugar a períodos de grande prosperidade. Em sua apresentação na “FTTH Conference 2011” (Milão) em Fev/2011, Perez diz que todas as cinco transformações tecnológicas experimentadas pelo capitalismo de mercado desde a revolução industrial no final do século XVIII, trouxeram uma nova infraestrutura para o transporte de bens, energia, pessoas e informações. A primeira trouxe os canais; a segunda, as linhas férreas e o telégrafo; a terceira, as ferrovias de aço intercontinentais, o telégrafo a nível global e o transporte a vapor; e, finalmente, a quarta trouxe a eletricidade, as estradas e as rotas aéreas, e o telefone internacional. Por sua vez, a revolução tecnológica dos dias de hoje trouxe a internet para propiciar a transmissão instantânea e ubíqua de dados, permitindo uma gradual transformação de todos os meios de transporte físico e dos sistemas de geração e distribuição de energia, tornando-os ambientalmente sustentáveis.
Com efeito, Perez insiste no papel fundamental que o acesso verdadeiramente universal à internet de banda larga terá na consolidação de uma era dourada global sustentada e sustentável , demonstrando o quanto a mudança do paradigma da produção em massa para o da sociedade do conhecimento abre caminho para uma perspectiva bem mais promissora para uma economia “verde”: o modo de vida a ser almejado deixará de ser o do consumismo, e passará a envolver mais interação social, mesmo que à distância, e a busca por mais bens intangíveis e menos bens materiais. “Verde” não deve dizer respeito apenas a salvar o planeta, mas também a salvar a economia, e ter uma alta (porém diferente) qualidade de vida. É como se “verde” passasse a ser o modelo da “vida luxuosa”.
Acesso amplo e ilimitado à internet a baixo custo é equivalente à eletrificação e à suburbanização, fundamentais no paradigma anterior, no sentido da facilitação do tipo de demanda que deverá maximizar o crescimento econômico e o bem-estar social. Portanto, o melhor caminho para se chegar a uma recuperação sustentada na economia globalizada é através da construção de um espaço de oportunidades de demanda, nacional e globalmente, favorecendo a lucratividade de inovações “verdes”, aprofundando a globalização e propiciando amplo acesso à internet de qualidade. A combinação das tecnologias da informação e da comunicação, dos princípios fundamentais da economia verde e sustentável, e da globalização seria, segundo Perez, equivalente às condições que trouxeram o boom pós-Segunda Guerra nos EUA e na Europa Ocidental.
Em conversação com Fred Wilson na Web 2.0 Expo NY em 11/10/11, Perez revela que a chegada da era de ouro fruto da revolução tecnológica trazida pela internet depende fundamentalmente da participação mais pró-ativa dos líderes da indústria da tecnologia da informação, no sentido de fazer os governos se darem conta de que não é apenas resolvendo o déficit público ou cedendo às pressões do setor financeiro no sentido de manter o status quo que se vai retomar o crescimento econômico. É preciso fazer prevalecer os valores do novo paradigma e da nova economia. Admitindo que há razões históricas para que o Vale do Silício se mantenha distante de governos, Perez conclama os líderes da indústria das TIC’s a tomar uma posição mais politicamente engajada. É chegada a hora de criar os incentivos e as condições para redirecionar a inovação e para a criação de uma nova visão de qualidade de vida compatíveis com a limitada disponibilidade de recursos naturais, e com o novo paradigma trazido pela revolução tecnológica que estamos atravessando.


Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

domingo, 24 de julho de 2011

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

E-mail Imprimir PDF
O imenso contraste entre, por um lado os números preocupantes do desemprego de Junho revelados há pouco pelo governo americano e, por outro lado, os números recordes de desempenho da Apple, as fabulosas operações de IPO da LinkedIn e da Zillow (levando o emblemático investidor Frank Quattrone a chamar a LinkedIn de “a Netscape da era atual”), traz de volta a discussão em torno do papel da inovação tecnológica na geração de riqueza. Nunca é demais lembrar que através do conceito absolutamente inovador de “internet browser” (“navegador da internet”), a Netscape abriu caminho para uma onda multi-bilionária de criatividade na internet que transformaria praticamente todas as indústrias e vidas de bilhões de pessoas online atualmente. Em 1995 o IPO da Netscape, então uma empresa de 18 meses de idade que ainda não dava lucro, incendiou os mercados financeiros gerando uma das maiores valorizações de ações no primeiro dia de oferta em toda a história das bolsas de valores.
Com sorte de campeã, a Netscape teve seu IPO num momento em que estava se processando uma maior democratização do investimento em bolsa de valores, e, como disse Sarah Lacy em “How We All Missed Web 2.0's "Netscape Moment"” (Techcrunch, 03/04/2011), não foram os bancos de investimento os responsáveis pelo estrondoso sucesso da oferta inicial da Netscape, mas sim os investidores individuais invadindo as corretoras para comprar um exemplar do produto que desejavam e que experimentou valorização tão rápida e dramática no mercado de ações. E o co-fundador da Netscape, Marc Andreessen, hoje investidor anjo e capitalista de ventura, “foi um sinal para todo hacker ou geek de que você poderia mudar para o Vale do Silício e construir algo enorme (e ficar rico) em questão de meses – algo que nunca tinha sido possível antes.”
Aparecendo como um bastião de esperança no cenário econômico dos Estados Unidos, e, como diz Jon Bischke em seu artigo “A Tale Of Two Countries: The Growing Divide Between Silicon Valley And Unemployed America” (Techcrunch, 16/07/2011), uma das poucas coisas que ainda mantêm a expectativa de não deixar que o país perca a posição de uma das maiores superpotências econômicas mundiais, o efervescente setor de tecnologia parece ter retomado o ritmo alucinante de crescimento que se viu nos anos que antecederam o estouro da bolha da internet em 2000. Empresas de crescimento rápido como Facebook, Groupon e Twitter,cujas valorações de mercado atingem níveis estratosféricos, não apenas criam empregos, mas também atraem investimentos estrangeiros e geram enorme riqueza para seus empregados e acionistas que acaba circulando na economia do país. Até o mercado de automóveis de luxo se beneficia da efervescência do setor de tecnologia: em artigo publicado no Wall Street Journal (“Tech Boom Revs Up Demand for Luxury Cars”, 21/07/11), Shayindi Raice relata que no Vale do Silício as concessionárias de carros de luxo experimentam um aumento significativo nas vendas desde o final de Junho.
Muito já se falou dos impactos econômicos da internet, e, entre os fatores apontados por vários estudiosos está o fenômeno da generatividade analisado por Jonathan Zittrain em seu artigo “The Generative Internet” publicado no Harvard Law Review em 2006. Em poucas palavras, Zittrain oferece três razões fundamentais: (1) generatividade é o que faz uma rede global de PC’s interconectados se constituir numa tecnologia tão transformadora; (2) generatividade não é uma característica inerente ou imutável da rede de PC’s que forma a internet, mas sim o resultado de um certo número de decisões de projeto implementadas em código executável, que podem ser modificadas posteriormente; (3) vulnerabilidades de segurança servirão de balizadores cruciais na manutenção de um equilíbrio entre as demandas por maior segurança por parte de consumidores e órgãos governamentais reguladores e as necessidades de abertura fundamentais para manter a plataforma propícia à criatividade e à inovação.
Mais recentemente, Barbara van Schewick em seu livro “Internet architecture and innovation”  (The MIT Press,  Junho 2010) faz uma análise pormenorizada dos princípios que estão por trás das referidas decisões de projeto que têm feito da arquitetura da internet um terreno fértil para a inovação. Em destaque a advertência apontando os impactos econômicos que poderiam advir associados a mudanças na estrutura da internet de uma arquitetura aberta permitindo a qualquer inovador desenhar uma aplicação ou compartilhar um conteúdo para uma estrutura na qual os intermediários (i.e., os provedores de serviço de internet) têm que autorizar o acesso a conteúdo e desenhar as aplicações principais eles próprios. Valendo-se de uma retrospectiva da história da internet, van Schewick vai buscar na teoria econômica o apoio necessário à sua afirmação de que uma internet altamente controlada não apenas constituiria um desvio de sua característica convidativa à inovação, mas também, e infelizmente, resultaria em grandes prejuízos aos interesses econômicos, culturais e políticos da sociedade.
A bem da verdade, acrescenta van Schewick, a arquitetura original da Internet foi baseada em quatro princípios de desenho – modularidade, hierarquia em camadas, e duas versões do muito celebrado porém muito mal-entendido “argumento fim-a-fim” (i.e., o intermediário não decide, apenas repassa). Van Schewick demonstra que esse desenho tem servido de terreno fértil para a inovação em aplicações e permitiu que aplicações e serviços como e-mail, World Wide Web, eBay, Google, Skype, Flickr, Blogger e Facebook emergissem e fossem bem sucedidos. Em última análise, a capacidade da internet de propiciar maior liberdade ao indivíduo, devido à sua característica de plataforma apropriada a uma maior participação democrática, e sua capacidade de alimentar uma cultura mais crítica e auto-reflexiva estão fortemente associadas a características resultantes da versão mais ampla dos chamados argumentos fim-a-fim.
Um dos empreendedores de internet em maior evidência no momento, Reid Hoffman, co-fundador e Executive Chairman da LinkedIn, dá seu testemunho em palestra intitulada “Entrepreneurs Will Create The Future” no encontro “Endeavor Entrepreneur Summit” organizado em San Francisco de 28 a 30 de Junho de 2011. Chamando a atenção para o fato de que o empreendedor hoje tem o papel de criar o futuro, Hoffman sugere alguns princípios básicos que devem ser seguidos por aqueles que almejam navegar pelo processo de empreendedorismo e criação de startups de inovação tecnológica. Para se tornar um empreendedor eficaz, Hoffman recomenda seguir alguns princípios fundamentais: ( 1) buscar sempre por mudanças disruptoras; (2) almejar alto; (3) construir uma rede em torno de seu empreendimento; (4) planejar para a boa e a má sorte; (5) manter uma persistência flexível; (6) lembrar que essas regras são apenas guias e não leis.
Nesse pormenor Hofmann lembra que quase todas as startups bem sucedidas passarão por momentos críticos, os chamados momentos de
“vale da sombra”, quando todos na equipe inicial passam a se perguntar “por que é que essa é uma boa idéia?”. E aí é preciso entender como lidar com o processo de agir com “persistência flexível”, ou seja, adotar uma postura “pivotante” (i.e., girando em torno de um pivô): além de um plano A e um plano B, é preciso vislumbrar um plano Z na eventual necessidade de vender ou mesmo fechar a empresa.
Seja lá qual for o plano adotado, o fato é que, como diz Hoffman, empreendedores devem assumir o papel dos pioneiros modernos da era atual, no sentido de que devem estar procurando enxergar oportunidades e trazer produtos e serviços que permitam a sociedade inventar e se adaptar ao futuro, especialmente num momento de grandes mudanças como o aquecimento global, mudanças no mercado financeiro, e globalização.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Democratização da Inovação Tecnológica e o Conceito de Pivô


A Democratização da Inovação Tecnológica e o Conceito de Pivô

E-mail Imprimir PDF
Muito além de um ecossistema de ferramentas de comunicação e de troca de informações, a internet tem se mostrado um extraordinário instrumento de democratização da capacidade de produzir inovação tecnológica. Desde a sua concepção no final dos anos 1960’s que a internet foi projetada para servir tanto como um meio de estabelecer uma rede no sentido abstrato do termo, como um instrumento para abrigar redes heterogêneas ao mesmo tempo em que permitisse que essas redes funcionassem independentemente, isto é, tanto como um conjunto de componentes quanto como a própria entidade que agrega esses componentes.
A capacidade generativa de audiências que não se conhecem e, não necessariamente gozam de mútua credibilidade, de construir e distribuir código executável através da internet para milhões de computadores pessoais transformou-se no estopim de um crescimento e um turbilhão de inovações em tecnologia da informação, ao mesmo tempo que propiciou terreno fértil para a criatividade e o empreendedorismo. A bem da verdade, tantas são as inovações já acalentadas pela internet que não seria exagero admitir que os impactos da rede na história da humanidade se situam no mesmo diapasão que os do carro Modelo T da Ford e os da prensa de Gutemberg.

Abertura tem sido, desde o início, uma das características fundamentais da internet: qualquer computador ou dispositivo de processamento de informações poderia fazer parte da rede, desde que houvesse uma interface apropriada, o que, via de regra, não era difícil de montar. Reproduzindo e, ao mesmo tempo, ampliando o crescimento explosivo da internet, a popularização de um dispositivo multifuncional e facilmente reconfigurável como o computador pessoal permitiu que o universo de usuários que escrevem software para esse dispositivo viesse a atingir larga escala e um alto grau de diversidade. Não obstante a mais recente tendência de criação de sistemas fechados sobre a rede aberta (veja-se o exemplo dos sítios de aplicativos dedicados a plataformas específicas), a diversidade e a escala têm levado a uma ampla variedade de aplicações responsáveis por inovações em áreas as mais diversas tais como política, entretenimento, jornalismo, educação, publicidade, economia.
O fato é que os baixos custos da inovação na forma de aplicação (software) sob uma arquitetura aberta permitem o surgimento de inovações sob os mais diversos modelos de financiamento. Dado que, regra geral, uma nova aplicação nem sempre demanda grandes investimentos em capital, o inovador pode buscar implementar sua idéia apenas durante seu tempo livre, sem ter que abandonar seu emprego ou ocupação atual. Trata-se de aspecto de grande valia, sobretudo se ainda há dúvida sobre sua viabilidade técnica ou mesmo sobre a existência de uma demanda. Além do mais, a queda de preços nos produtos de tecnologia, a disponibilidade de software de código aberto, a comoditização da tecnologia, o fácil acesso a serviços terceirizados de tecnologia (crowd-sourcing), e a computação em nuvem, todos esses fatores têm reduzido os custos necessários para a construção de novos produtos. Em palestra recente ao Stanford Technology Ventures Program (“FundingThunderLizardEntrepreneurs”, 27/10/10), a investidora Ann Miura-Ko, parceira da empresa de investimentos de risco Floodgate, destaca que esses elementos têm contribuído para criar uma grande flexibilidade de prototipagem rápida, e uma nunca dantes vista facilidade e capacidade de ajustar novos produtos para o mercado.
É justamente nesse sentido que Eric Ries, autor do blog “StartupLessonsLearned.com” e conhecido defensor do método “The Lean Startup” de desenvolvimento de produtos no contexto de tecnologia para inovação, defende que o paradigma “inovação através da experimentação” se aplica perfeitamente ao universo de startups (empresas recentemente criadas), principalmente, mas não apenas, as de serviços de internet. Segundo Ries, a maioria das startups fracassa, uma grande parte por razões que poderiam ser evitadas, e portanto não deveríamos nos acomodar e aceitar passivamente o baixo nível de sucesso que se observa na indústria do capital de risco. É preciso renunciar a alguns preciosos mitos do empreendedorismo como se pratica nos dias de hoje, e mudar a forma de operar no mercado de investimento em inovação tecnológica. Ries começa definindo: “uma startup é uma instituição humana desenhada para entregar um novo produto ou serviço sob condições de extrema incerteza”. O que diferencia uma startup bem sucedida é a capacidade de trazer à tona as melhores idéias sob extrema dificuldade, ou seja, a capacidade de encontrar o “pivô” – o ponto de reinvenção no qual a startup se dá conta de que suas idéias originais carecem de uma reinstrumentalização. E, mais importante, a startup bem sucedida é aquela que consegue encontrar seu mercado antes que o dinheiro acabe.
Conforme defende Miura-Ko, uma startup bem sucedida não floresce unicamente de uma grande idéia: o sucesso decorre da capacidade de fazer crescer um negócio em torno da grande idéia. O ecossistema do capital de risco, uma razoável base de clientes, canais de distribuição e fabricação acessíveis, todos esses fatores acabam convergindo para um modelo de negócios que se revela viável e escalável. Justamente, a internet serve de laboratório de experimentação no qual os empreendimentos podem testar com agilidade seus modelos de negócio, usando, por exemplo, mídia social alavancada por uma criação de demanda e estruturas de preço flexíveis.
Com base na premissa de que uma idéia inovadora não necessariamente tem um mercado que esteja pronto para absorvê-la, a proposta de Ries é que o desenvolvimento de um produto seja feito incremental e interativamente em parceria com o suposto universo de clientes, para que se minimize o tempo entre os pivôs. Ainda que correndo o risco de mal comparar, o lançamento de alguns produtos da Google, por exemplo, se dão por um método de espírito semelhante: através de versões “alfa”, “beta”, etc., o produto vai sendo experimentado e ajustado conforme a satisfação da eventual clientela, que aliás não era exatamente conhecida no início do processo. Daí, uma startup “lean” (“enxuta”) opera com um plano de negócios que pode ser dinamicamente reformulado até que um modelo de negócios bem sucedido possa ser encontrado. Através de uma rápida mudança de pivô com base na realimentação fornecida pela clientela, uma startup pode estender seu espaço de manobra sem que sofra diluição significativa decorrente de uma nova rodada de financiamento. No laço de realimentação “Construir-Medir-Aprender”, considerado como “uma unidade de progresso”, um pivô é um ciclo completo, e o crescimento da startup se dá através de uma aprendizagem validada por meio de uma série de pivôs.
O termo pivô vem do fato de que quando empreendedores obstinados descobrem algo errado em sua idéia original, eles não simplesmente abandonam tudo. Ao contrário, mantêm um pé firme sobre o que aprenderam com a experiência anterior, e avançam com o outro pé na nova direção. Segundo as estatísticas, esse padrão de comportamento “zigue-zague” predomina entre as startups bem sucedidas.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE