segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Uso de Cookies e a Violação da Privacidade - O Caso NebuAd

ARTIGOS ESPECIAIS

30/05 - 23:00

O Uso de Cookies e a Violação da Privacidade - O Caso NebuAd

São Paulo, 30 de maio de 2009 - A indústria do anúncio online está no cerne da economia da internet. Conforme um levantamento recente da PriceWaterhouseCoopers (“IAB Internet Advertising Revenue Report”, Março 2009), as receitas com anúncio online continuam a bater recordes: nos EUA chegaram a U$6,1 bilhões no último trimestre de 2008, um aumento de 4,5% em relação ao trimestre anterior (US$5,8 bilhões) e de 2,6% em relação ao último trimestre de 2007 (US$5,9 bi). As receitas totais em 2008 atingiram a marca de US$23,4 bilhões, 10,6% a mais que os US$21,2 bilhões registrados em 2007. Segundo Randal Rothenberg, CEO da Internet Advertising Bureau, “estamos assistindo a um deslocamento secular contínuo [da propaganda] das mídias tradicionais para a mídia online à medida em que os marqueteiros reconhecem que os dólares de anúncios investidos na mídia interativa são eficazes em influenciar consumidores e em produzir resultados mensuráveis. Nessa economia de incertezas, onde marqueteiros sabem que precisam fazer mais com menos, o anúncio interativo provê as ferramentas para que eles possam construir relacionamentos profundos e envolventes com os consumidores – a experiência que os marqueteiros ganham com isso lhes trará dividendos especialmente depois que a economia volte ao ritmo normal.” Um relatório recente da Nielsen confirma a tendência: se, por um lado, o investimento em anúncio online por parte do setor financeiro, vendas a varejo e automóveis diminuiu a um passo forte nos últimos seis meses, por outro lado, os fabricantes de produtos empacotados, a indústria farmacêutica e as empresas de telecomunicações, 3 dos maiores investidores em propaganda, estão vindo para a internet num ritmo nunca visto. Com tudo isso, no entanto, a indústria do anúncio online mostrou também que, mesmo não estando livre da recessão econômica, vem sofrendo menos que o restante da economia. Os números divulgados em 01/05/09 pelas 4 maiores arrecadadoras de receitas com anúncio online (Google, Yahoo, Microsoft, e AOL) sobre o 1º trimestre de 2009 revelam uma queda de 2% em relação ao ano anterior, e de 7% em relação ao último trimestre de 2008. O fato é que o ritmo de crescimento dessa indústria tem desacelerado desde o início da crise, mas esse é o primeiro trimestre a experimentar um verdadeiro declínio em receitas. Somente a Google não teve resultado negativo.

A bem da verdade, a propaganda na internet tem suas vantagens: (1) oferece publicação imediata de anúncios sem limitação de geografia ou de tempo; (2) pode ser personalizada através do rastreamento de usuários espacialmente sobre diferentes portais e sobre o tempo; (3) oferece mais facilidade para se mensurar o interesse do consumidor nos anúncios através da contagem de “clicks” sobre o anúncio. Em nome da usabilidade e da monetização de seus portais, empresas de conteúdo de internet normalmente interagem com domínios de terceiros para integrar anúncios e daí gerar receita. Na verdade, um novo modelo de negócios baseado em anúncios online criou novas oportunidades para blogueiros, jornais, e aplicações web. Até mesmo os usuários têm sido beneficiados pelo anúncio online pois ele financia o acesso livre a conteúdo e serviços de valor inestimável. Por exemplo, jornais oferecem artigos gratuitamente online e geram receita a partir dos anúncios. Igualmente, a Google oferece um serviço de correio eletrônico (Gmail) competitivo e gratuito, que exibe anúncios e assim gera receita. Além disso, aos usuários os anúncios online podem trazer informações relevantes, especialmente se o anúncio for direcionado. É por essa razão que, para melhorar a relevância dos anúncios e garantir uma melhor experiência online ao usuário, os anunciantes fazem uso de tecnologias de rastreamento das atividades do usuário por meio da gravação de pequenos arquivos conhecidos como “cookies” no sistema de arquivos do usuário. Segundo a Wikipedia, um cookie é uma cadeia de texto armazenada no computador do usuário por um navegador contendo um ou mais pares ‘nome-valor’ de informações tais como preferências do usuário, conteúdo de carrinho de compras eletrônico, identificador de uma sessão baseada em servidor, ou outros dados usados por portais. É normalmente enviado como um cabeçalho do protocolo HTTP por um servidor para um cliente web, e aí enviado de volta sem alteração pelo cliente a cada vez que ele acessa aquele servidor. O termo "cookie" tem origem no conceito "magic cookie" do sistema operacional UNIX que se referia a um mecanismo de troca de dados entre programas através de um arquivo curto de modo que seu conteúdo tipicamente não tinha significado para o receptor mas serviria para o emissor ao recebê-lo de volta e reabri-lo. Por essa característica “opaca” ao receptor, porém com conteúdo significativo para o emissor, esse arquivo ganhou o nome de cookie em referência ao “fortune cookie” (biscoitinho da sorte).

Os cookies enviados ao servidor que hospeda a página visitada são chamados de “cookies de primeira” (em inglês “first-party cookies”), e são usados pelos servidores para memorizar o estado da conexão, de modo a identificar o usuário numa visita posterior. Como as páginas web podem conter referências a componentes necessários para a boa exibição da página (por exemplo, imagens ou anúncios), os navegadores frequentemente emitem solicitações adicionais através do protocolo HTTP especificamente para esses elementos, que podem estar armazenados em outros domínios. Estes últimos, por sua vez, podem vir a enviar cookies ao usuário, e esses são os chamados “cookies de terceiros” (em inglês, “third-party cookies”), que vão permitir o rastreamento do usuário por parte de terceiros. Conforme sua função, os cookies são classificados em cookies de sessão (que não têm data de validade, mas expiram após o término da sessão), e os cookies persistentes aos quais está associada uma data de expiração.

Em geral, essa “intrusão” pode ser evitada ou controlada pelo próprio usuário através de comandos ou opções disponíveis no software de navegação na internet. Há, no entanto, casos em que o rastreamento excessivo e até subliminar leva a uma ameaça séria de invasão de privacidade. Um desses casos, aliás, um tanto emblemático, parece ter chegado a um desfecho recentemente: a NebuAd, uma empresa americana de propaganda online baseada em Redwood City, California, com escritórios em Nova York e Londres, e com investimentos de Sierra Ventures e de Menlo Ventures (dois grandes nomes do chamado “capital de risco”), após ter sua sentença de morte anunciada desde que o Congresso americano a forçou a mudar sua estratégia de rastreamento do usuário através do provedor de serviços há um ano atrás, finalmente fechou suas portas: em 15/05/09 seus advogados entraram com uma notificação para o Juiz Distrital Edward Chen de San Francisco informando seu fechamento. A NebuAd surgiu como um dos grandes destaques entre as empresas de desenvolvimento de sistemas de anúncio online baseados em direcionamento comportamental associados a acordos com provedores de serviços de modo a lhes habilitar a analisar os hábitos de navegação dos clientes com o objetivo de fornecer anúncios mais relevantes e micro-direcionados. Outras empresas atuando no setor incluem a britânica Phorm, também alvo de acusações de invasão de privacidade, Perftech, Quarad e Front Porch, além das mais recentes Adzilla e Project Rialto. Num certo momento, a NebuAd contava com mais de 30 clientes, na maior parte provedores de acesso à internet, e seus acordos com os provedores cobriam cerca de 10% dos usuários de banda larga dos Estados Unidos.

O produto da NebuAd era composto de três partes: (1) um equipamento hospedado no provedor de acesso à internet que era capaz de inserir conteúdo em páginas solicitadas pelo usuário (e poderia monitorar até 50 mil usuários), (2) um servidor complexo utilizado para analisar e categorizar o conteúdo das comunicações realizadas pelo usuário, e (3) relacionamentos com redes de anunciantes que desejassem oferecer a propaganda direcionada da NebuAd. O regime de participação adotava a política de “opt-out”, isto é, o usuário poderia optar por não participar do esquema de monitoramento (e conseqüente melhora da relevância dos anúncios), mas teria que se manifestar. Não obstante, o usuário não tinha como impedir que o provedor enviasse os dados à NebuAd. Em posição privilegiada, o provedor teria condições de monitorar e analisar, por meio de “deep packet inspection” (inspeção profunda dos pacotes de comunicação, algo como abrir um envelope e observar seu conteúdo, para logo após fechá-lo novamente e repassar adiante) todo o tráfego do usuário. A política de privacidade da NebuAd, no entanto, dizia que a empresa “especificamente não armazenaria ou usaria qualquer informação relacionada a informação médica confidencial, de origem racial ou étnica, de crenças religiosas, ou de sexualidade que estivessem associadas a informações pessoais identificáveis (‘personal identifiable information’).” Por outro lado, a empresa advertia que "as informações que coletamos são processadas nos servidores da NebuAd nos Estados Unidos. Assim, essas informações podem estar sujeitas a requisições de acesso por parte de governos, cortes ou polícia."

Apesar da receita adicional que permitia aos provedores, e da maior relevância dos anúncios oferecidos ao usuário, a NebuAd parecia estar sempre causando preocupação aos defensores dos direitos à privacidade na internet. Havia questionamentos sobre: (1) a falta de transparência dos provedores em relação ao uso dos serviços da NebuAd, (2) um método “opt-out” fraco (seria possível sair do regime de anúncio direcionado operado pelo provedor, mas não necessariamente do regime de entrega de seus dados à NebuAd), (3) a falta de vigilância sobre o que uma terceira empresa faz com o conteúdo das comunicações via internet, (4) os conflitos entre o serviço da NebuAd e as leis de escuta (“wiretap”) americanas, e (5) a recusa da NebuAd em revelar os provedores com os quais tinha parceria. Finalmente, veio um indício forte de que algo estava errado: em 10/03/2008, um usuário da empresa de internet por cabo Wide Open West (WOW) escreveu para o portal DSLreports.com: “a conexão da WOW está forçando conexões e cookies na minha máquina quando visito a google.com.” No dia seguinte outro usuário revela suspeita semelhante: “Achei que vocês gostariam de saber, que estou suspeitando de meu provedor, Wide Open West. Sou da área de Chicagoland, e certamente parece que eles estão permitindo que a NebuAD infecte a rede deles (desculpa, - minha interpretação pessoal...estou bem irritado com isso) e alterando páginas para incluir seus cookies de rastreamento. Até onde sei, não recebí qualquer aviso de que eles estariam tentando essa proeza.”

Após a ampla divulgação das suspeitas dos usuários da WOW, e de outros parceiros da NebuAd, os membros da Câmara dos Representantes Edward Markey (Democrata, Massachussetts, Presidente da Subcomissão de Telecomunicações e Internet) e Joe Barton (Republicano, Texas) enviaram em 16/05/08 uma carta à Charter Communications (quarta maior empresa de comunicações por cabo, e parceira da NebuAd), invocando a desistir dos planos de rastreamento de usuários e convocando para uma audiência pública no Congresso americano. Segundo os signatários, “os planos da Charter Communications de vender informações sobre as atividades online de seus clientes acendem diversas luzes vermelhas. Simplesmente prover um método para usuários sair do regime não é o mesmo que pedir aos usuários para afirmativamente concordar em participar do programa. Essas questões sobre privacidade e o quanto esse empreendimento está consistente com as leis de privacidade nas comunicações devem ser enfrentadas antes que a empresa siga adiante com seus planos." Nesse momento entra em cena Robb Topolski, o mesmo que, também em 2008, provou que a Comcast estava ludibriando seus clientes e violando a neutralidade da rede, dessa vez como técnico responsável pela investigação da NebuAd promovida por Free Press e Public Knowledge, organizações não-governamentais de defesa dos direitos civis na internet. Em 18/06/09 Topolski divulga um relatório técnico intitulado “NebuAd and Partner ISPs: Wiretapping, Forgery and Browser Hijacking” que conclui que a NebuAd usa equipamento especial que “monitora, intercepta e modifica o conteúdo de pacotes da internet” à medida que os consumidores entram na internet. Com um registro detalhado dos testes e análises realizados nas páginas dos usuários e dos provedores parceiros, o relatório afirma que “as práticas da NebuAd se parecem com diversas formas de ‘ataques’ em usuários que têm gerado considerável controvérsia e condenação pelos usuários”: seqüestro de navegador, ‘cross-site scripting’ (um tipo de ataque muito usado por cibercriminosos para roubar credenciais de forma extremamente sutil), numeração única do processador para identificar o usuário (realizada pela Intel em 1999), violação de privacidade tal qual a britânica Phorm, geração de perfis realizada em 2002 pela DoubleClick (empresa de anúncio online adquirida pela Google em 2008), ataque do ‘homem-no-meio’ (uma forma de escuta ativa, em que o atacante se põe entre dois interlocutores e se faz passar por um enquanto se comunica com o outro). Enfim, Topolski conclui que a NebuAd explora os comportamentos de um navegador normal forjando pacotes do protocolo de internet, fazendo com que seus próprios códigos JavaScript sejam injetados no código fonte no qual o navegador confia. E para isso conta com a colaboração do provedor para empreender os ataques contra as intenções do consumidor, contra os projetistas do software do navegador, e contra os donos dos servidores que eles visitam. O código da página web é normalmente baixado completamente a partir de servidores para clientes sobre uma única conexão TCP, e uma vez que a página é baixada, o código obtido é executado pelo cliente. A execução desse código é o que dispara as operações necessárias para baixar imagens e outros recursos da página, e esse código é considerado seguro porque supostamente veio de uma fonte confiada pelo usuário. Entretanto, o código da NebuAd injetado no código fonte de uma página de outrem é um ataque de ‘cross-site scripting’ (XSS), e o comportamento subseqüente de carregamento de cookies que normalmente não carregaria é um seqüestro do navegador. Isso significa que o que a NebuAd fazia era, na realidade, um ataque clássico conhecido como ‘homem-no-meio’.

Graças a Topolski, e para o bem da indústria e do consumidor, a NebuAd afinal se dissolveu.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil (São Paulo), 30/05/2009, 23:00hs, http://www.investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?parms=2521114,408,100,1

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 01/06/2009, 08:14hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/06/01/o_uso_de_cookies_e_a_violacao_da_privacidade__o_caso_nebuad_47430.php


segunda-feira, 25 de maio de 2009

As Redes Sociais e o Mercado Consumidor Global

ARTIGOS ESPECIAIS

25/05 - 06:40

As Redes Sociais e o Mercado Consumidor Global

São Paulo, 25 de maio de 2009 - Uma pesquisa de mercado recente da Nielsen revelou que as redes sociais na internet foram “o fenômeno do mercado consumidor global de 2008”. Dois terços da população da internet mundial visitam uma rede social ou portal de blog e o setor agora representa quase 10% de todo o tempo de internet. A categoria das ‘comunidades de membros inscritos’, que inclui as redes sociais, ultrapassou e-mail pessoal para se tornar o quarto setor mais popular online no mundo, depois de busca, portais e aplicações de software de PC. Mais importante, a pesquisa revela também que o crescimento em popularidade das redes sociais – e a audiência resultante – é apenas metade da estória. O crescimento assustador na quantidade de tempo que as pessoas estão passando nesses portais está mudando a maneira como as pessoas passam o tempo online e tem ramificações no que diz respeito a como as pessoas se comportam, compartilham e interagem nas suas vidas cotidianas normais. Afinal, o que são essas redes sociais, e qual é seu alcance hoje?

Um serviço de rede social online é um portal da internet que se presta para permitir a convivência à distância, por meio desse ‘espaço virtual’, de pessoas que compartilham interesses e/ou atividades, ou que estão interessadas em explorar os interesses e atividades de outros. O fato concreto é que tais serviços de rede social têm estimulado novas formas de comunicação, convivência e compartilhamento de informações. Além de correio eletrônico, essas redes oferecem serviços de mensagem instantânea, arquivamento e compartilhamento de fotos, músicas e filmes, formação de grupos de interesse e/ou mobilização, etc.

Os principais tipos de serviços de rede social são aqueles que contêm divisões por categoria (tais como ex-colegas de escola), meios para se conectar com amigos (normalmente com o auxílio de páginas auto-descritivas, i.e., perfis), e um sistema de recomendação associado à confiança. Os métodos mais populares hoje combinam muitas dessas funcionalidades, com Facebook amplamente usada em todo o mundo; MySpace, Twitter e LinkedIn sendo mais utilizadas na América do Norte; Nexopia no Canadá; Bebo, Hi5, MySpace, dol2day (sobretudo na Alemanha), Tagged, XING, e Skyrock em partes da Europa; Orkut e Hi5 na América do Sul e América Central; e Friendster, Multiply, Orkut, Wretch, Xiaonei e Cyworld na Ásia e nas Ilhas do Pacífico. A idéia de que computadores eletronicamente interligados pudessem formar a base de uma interação social mediada por computador já havia sido sugerida no final dos anos 1970 no livro “The Network Nation” de S. Roxanne Hiltz e Murray Turoff (Addison-Wesley, 1978). O prefácio, escrito por Suzanne Keller, começava assim: “Após ter por tanto tempo ouvido sobre a frieza e a impersonalidade do computador, aqui está um livro que propõe exatamente a tese oposta, a saber, que computadores podem se tornar a fonte de uma nova e especial forma de comunidade humana.” Muitas foram as tentativas de levar a idéia a bom termo, desde a Usenet, a ARPANET, a LISTSERV, até os chamados “bulletin board services” (BBS). Os primeiros portais de redes sociais começaram sob a forma de comunidades online tais como “The WELL” (1985), Theglobe.com (1994), Geocities (1994) e Tripod (1995). Há quem diga que um dos primeiros portais preparados especificamente para o relacionamento entre pessoas no plano internacional foi o Classmates.com, que iniciou suas operações em 1995. Seguiram outros como SixDegrees, BlackPlanet, e Youthstream. À época, o foco se concentrava em prover salas de bate-papo (“chat”), e o compartilhamento de informações pessoais se dava através de ferramentas de publicação de páginas pessoais que vieram a se transformar em precursoras do fenômeno do blog (abreviação de “web log”). O advento do formato MP3 a partir de 1994, e do ‘streaming’ de video, além do aumento do acesso à banda larga, permitiu que o computador se tornasse uma mídia mais fácil de usar, com uma capacidade quase total de manipulação: música, correio, telefone, informação, tudo passou a aparecer num mesmo local – a tela do computador.

Porém foi somente entre 2002 e 2004 que apareceram os grandes atores nesse cenário, e que fincaram de vez o conceito de rede social no ciberespaço: primeiramente a Friendster (que a Google tentou adquirir em 2003), depois a MySpace, a Bebo, e a Facebook, esta última somente abrindo amplamente a participação (que até então se restringia a estudantes universitários americanos) a partir de 2006, ocasião em que também abriu a possibilidade de incorporar aplicativos desenvolvidos por terceiros (os chamados “add-on”s). Alguns desses aplicativos permitiram a montagem do grafo de relações da rede social do próprio usuário, dessa forma ligando redes sociais ao chamado “networking” social.

A partir de Março de 2005 quando a Yahoo! lançou o “Yahoo! 360°”, as redes sociais começaram a florescer como um componente de estratégia de negócios na internet . Em Julho do mesmo ano a News Corporation adquiriu a MySpace, e em Dezembro a ITV (rede de TV comercial do Reino Unido) comprou a Friends Reunited. Estima-se que o número de serviços de redes sociais no mundo já tenha ultrapassado 200, sem contar as chamadas “redes sociais verticais” que se tornaram possíveis devido a ferramentas como a Ning (uma rede social de redes sociais). Recentemente, o Twitter tomou conta de todas as atenções, e, mesmo sem algumas das funcionalidades essenciais de um serviço de rede social, tem permitido que serviços de “add-on” (ferramentas de terceiros) se conectem e forneçam algumas dessas funcionalidades através de API’s (interface de programação de aplicações) públicas. Com cerca de 10 milhões de visitantes únicos mensais em Fevereiro último, o Twitter cresceu para 19 milhões em Março, e os últimos números da comScore dão conta de 32 milhões em Abril, ultrapassando Digg (23 milhões), LinkedIn (16 milhões), e o portal do New York Times (17,5 milhões).

O fato é que essas redes estão mudando a configuração dos negócios, da política, e da vida em sociedade. Em recente relatório intitulado “Business, politics and the new social media” (Fevereiro 2009), a Deloitte chama a atenção para o “terremoto” que está acontecendo na mídia em escala global: “você sabe que algo está mudando sob seus pés. Você pode até não entender a natureza dessa mudança ou como se ajustar à paisagem que rapidamente se reorganiza. Você só sabe que, por alguma razão, você pode estar correndo o risco de perder o contato com intervenientes principais. No epicentro dessa mudança está a emergência de redes de mídia social. Diferente de tecnologias anteriores de telecomunicações, elas não apenas conectam comunidades. Elas as criam. Elas permitem que as pessoas formem e reformem equipes espontâneas baseadas em torno de interesses comuns. Não é exagero o caso de que a mídia social está transformando corporações e outras organizações.”

Um artigo recente na revista Mundo Corporativo (Deloitte, Abril-Junho 2009) intitulado “Redes de um mundo mais complexo” analisa alguns dos resultados de uma pesquisa recente da Deloitte em parceria com o Harrison Group sobre “O Futuro da Mídia”. Uma das conclusões revela o que já se dizia ainda que sem tamanha confirmação estatística: o consumidor de mídia está no comando, isto é, não mais pretende se submeter à oferta dos produtos de mídia, mas, ao contrário, busca por si próprio o que lhe interessa. A partir de 8.824 entrevistas online com cidadãos entre 14 e 75 nos de idade dos Estados Unidos, Alemanha, Brasil, Inglaterra, e Japão, realizadas no período de 17 de Setembro a 20 de Outubro de 2008, os resultados do estudo foram classificados em quatro grupos conforme a faixa etária: a “Geração Y”, de 14 a 25 anos; a “Geração X”, de 26 a 42 anos; a “Geração Baby Boomers”, de 43 a 61 anos (população nascida nos anos pós-Segunda Guerra, quando houve uma explosão demográfica nos EUA e Europa); e a “Geração Madura”, de 62 a 75 anos. Os números indicam que os jovens-adultos (da Geração X) são os mais envolvidos com atividades interativas online, e a produção de conteúdo próprio online é mais comum entre os mais jovens. No Brasil, ouvidos 1.022 consumidores, chegou-se à conclusão de que aqui é o país, dentre os países envolvidos no estudo, onde há a menor concentração no consumo de uma mídia tradicional específica (TV), e onde há mais envolvimento com atividades online. A TV, que já foi a fonte de entretenimento preferida, perdeu o lugar para “assistir filmes em casa” (55%) e “navegar na internet” (53%), e foi mencionada como preferida por apenas 46% dos entrevistados. Nada menos que 81% dos brasileiros entrevistados disse que o computador superou a televisão como fonte de entretenimento.

Segundo uma pesquisa recente da Nielsen (“The Global Online Media Landscape”, Abril 2009), o crescimento meteórico da mídia social é, de longe, o evento mais significativo do espaço de mídia online nos dias de hoje. Os números falam por si só: no último ano, enquanto que 18% foi o aumento do tempo gasto na internet pelo consumidor global, o aumento do tempo dedicado às “comunidades de membros inscritos” chegou a 63%. Redes sociais representam metade da população online na Suíca e na Alemanha (crescimentos de 207% e 140%, respectivamente), e 80% da população online no Brasil. A Facebook se tornou a maior rede do mundo, ultrapassando a marca dos 200 milhões de membros na segunda semana de Abril de 2009. Por sua vez, o aumento no tempo dedicado à Facebook de Dez/2007 a Dez/2008 foi de 566%: de 3,1 bilhões de minutos para 20,5 bilhões, levando essa rede social ao posto de 11º portal mais popular nos EUA, logo atrás do portal da Disney. O maior crescimento veio de pessoas entre 35 e 49 anos (+24,1 milhões), enquanto que na faixa etária entre 50 e 64 anos o aumento foi de 100% (+13,6 milhões).

Apesar da revolução no grau de atenção dedicado à internet, e cada vez mais à mídia social, as mídias tradicionais mantêm sua influência. A pesquisa da Deloitte/Harrison revela que a publicidade na TV continua sendo a mais influente para todos os públicos, tendo recebido a preferência de 75% dos entrevistados, enquanto que a internet recebeu 45%, atrás também das revistas (57%). Mesmo assim, as receitas provenientes de anúncios online continuam a bater recorde: segundo a Nielsen, o total de receita de anúncio na internet nos EUA totalizaram US$6,1 bilhões no 4º trimestre de 2008, um aumento de 4,5% em relação ao 3º trimestre de 2008 (US$5,8 bi), e um aumento de 2,6% em relação ao 4º trimestre de 2007 (US$5,9 bi). Em um ano (2008), o total de receita com anúncio online foi de US$23,4 bi, 10,6% a mais que os US$21,2 bi de 2007. Observe-se o contraste: na soma de todas as mídias, as receitas com anúncios caíram 2,6% em 2008.

Todos esses números falam por si só, e não há como ignorar o fenômeno da mídia social e das redes sociais. O crescimento da audiência e o quociente de engajamento do video online, por exemplo, está forçando os marqueteiros a reavaliar positivamente o valor da experiência online. Além disso, a adoção das redes sociais, tanto por consumidores quanto por corporações, agita o mercado, e, na era do Twitter, as barreiras do “feedback” quase desapareceram, criando um ambiente quase ideal para a reavaliação em tempo real da experiência de marcas, reações de campanha, ou eventos de marca. A convivência cibernética vai se tornando uma realidade global, e um número crescente de estudiosos e acadêmicos têm procurado estudar a Facebook e outras redes sociais como ferramentas para a pesquisa sobre as novas formas de interação social e seus impactos na sociedade. Entre os tópicos mais investigados aparecem Identidade, Privacidade, Aprendizado, Capital Social, e os Nativos Digitais. Um livro recentemente publicado com o apoio da Forrester Research Inc., intitulado “Groundswell : Winning in a World Transformed by Social Technologies”, por Charlene Li & Josh Bernoff (Harvard Business School Press, Abril 2008), evoluiu a partir de um Relatório de 2006 da Forrester sobre computação social. Segundo o portal dedicado ao livro, o termo “groundswell” se refere a “um movimento espontâneo de pessoas usando ferramentas online para se conectar, assumir o controle de suas próprias experiências, e conseguir o que elas precisam – informação, apoio, idéias, produtos, e poder de barganha – umas das outras."

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil (São Paulo), 25/05/2009, 06:40hs, http://gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2510903,408,100,3

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 25/05/2009, 10:01hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/05/25/as_redes_sociais_e_o_mercado_consumidor_global_46969.php



terça-feira, 19 de maio de 2009

Cem Anos de Empreendedorismo - Reitor de Stanford como Primeiro Anjo Investidor

ARTIGOS ESPECIAIS

18/05 - 23:30

Cem Anos de Empreendedorismo - Reitor de Stanford como Primeiro Anjo Investidor

São Paulo, 18 de maio de 2009 - Em 2009 comemoram-se os 100 anos de tradição de empreendedorismo e transformação de conhecimento em empreendimento da Stanford University, que deu origem a tantos ícones da tecnologia como Hewlett-Packard, Cisco e Google, e tem sido reconhecida como um catalisador no surgimento do proeminente eixo tecnológico mundial que é o Vale do Silício. Mesmo nesses tempos de recessão econômica, "A Fazenda" (como é conhecida Stanford, em tributo à sua verdadeira origem) continua produzindo idéias de negócios e talentos como nunca — em grande medida devido a seu forte programa de ensino do empreendedorismo em alta tecnologia. Conforme seu portal, o “Stanford Technology Ventures Program” (Programa de Empreendimentos em Tecnologia de Stanford, STVP), localizado no Vale do Silício, é o centro de empreendedorismo na Escola de Engenharia de Stanford. Hospedado pelo departamento de “Ciência e Engenharia da Administração”, o STVP é dedicado a acelerar a educação de empreendedorismo em alta-tecnologia, e a criar pesquisa erudita em firmas de base tecnológica que, por sua vez, forneça novas percepções a estudantes, estudiosos, e líderes de negócios. O STVP fornece a estudantes de graduação e de pós-graduação de todos os cursos as competências empreendedoras necessárias para usar inovações na solução dos principais problemas mundiais, com uma ênfase em meio-ambiente, saúde humana, tecnologia da informação, e outras questões globais.

A grande maioria dos relatos históricos sobre o Vale do Silício e o papel da Stanford University começam em 1956 com William Shockley (co-inventor do transistor) e Sherman Fairchild (fundador da Fairchild Semiconductor, pioneira do circuito integrado e precursora da Intel). Vez por outra faz-se um retorno a um passado um pouco mais longínquo dando o devido crédito a William Hewlett e David Packard (fundadores da HP em 1939) pelo estabelecimento naquela região de uma cultura empreendedora em alta tecnologia. Pouca gente sabe, no entanto, da importante “pré-história” que abriu caminho e tornou possíveis todos esses desenvolvimentos, conforme alerta Thomas Lee, Professor de Engenharia Elétrica da Stanford University, em recente palestra à comunidade acadêmica. A primeira gigante da alta tecnologia na região hoje conhecida como Vale do Silício foi a “Federal Telegraph and Telephone” (FTT), fundada em 1909 pelo recém-graduado de Stanford, Cyril Elwell, como a “Poulsen Wireless Telephone & Telegraph Company”. O nome tem sua razão de ser: o transmissor de arco, que, ao contrário de todos os tipos anteriores de transmissores de rádio, gerava ondas de rádio contínuas, foi inventado pelo engenheiro dinamarquês Valdemar Poulsen in 1902. Entretanto, a transferência bem sucedida da tecnologia do “arco de Poulsen” para os EUA somente foi ocorrer no verão de 1909 quando Cyril Elwell trouxe os direitos de patente americanos para a Califórnia. Por essa parte da sua história, essa região teria sido denominada a “ala do arco” (“arc alley”) antes de se tornar o “vale do silício” (“silicon valley”).

Para que o empreendimento pudesse ter fôlego para sobreviver os primeiros anos em ritmo de inovação tecnológica, foi necessário o aporte financeiro de investidores, e dentre os que investiram na FTT estava ninguém menos que o primeiro Presidente (isto é, Reitor) da Stanford University, David Starr Jordan, juntamente com William Crocker (mais conhecido como o banqueiro que ajudou a reconstrução de San Francisco após o grande terremoto de 1906). Pode-se dizer que Jordan se apresenta como o primeiro “Angel investor” do Vale do Silício. Conforme a Wikipedia, “Investidor anjo” é uma pessoa física ou uma empresa disposta a investir em empresas que estão iniciando suas atividades empresariais (startup) ou pensam em iniciar atividades comerciais ou industriais, contudo, não contam com o aporte financeiro necessário para a empreitada. Trata-se de alguém que acredita no projeto, vislumbra retorno econômico e aporta os recursos para lançar o empreendimento, e está disposto a correr riscos, enquanto aguarda ganhos financeiro com o crescimento da empresa. O fato é que ao final da Primeira Guerra Mundial, a FTT já estava fabricando transmissores de ondas contínuas de 500kW baseados em osciladores de arco de resistência negativa, tendo deixado para trás concorrentes já estabelecidos como a General Electric (GE) para ganhar o contrato de fornecimento de equipamentos estratégicos com a Marinha Americana.

O primeiro doutorado em engenharia elétrica de Stanford foi concedido a Leonard Fuller por seus avanços científicos e tecnológicos que permitiram à FTT construir esses transmissores de alta potência. O fato é que a FTT cultivou sementes intelectuais que floresceriam mais tarde, não apenas na própria região como também em outras partes do mundo. Lee de Forest (inventor americano creditado pela invenção do Audion, modelo revolucionário de válvula eletrônica) realizou seu mais importante trabalho no triodo de tubo a vácuo no âmbito da FTT, e até o futuro “pai do Vale do Silício”, Fred Terman, foi seu estagiário. O fundador da Texas Instruments, Cecil Green, também foi outro que fez parte da equipe da FTT sob o comando de Charles Litton (fundador da Litton Engineering Laboratories, e ex-aluno de Stanford que projetou e construiu o primeiro torno de emolduração de vidro, revolucionando para sempre a indústria da válvula eletrônica).

Sem surpresas, Stanford ficou em 1º lugar num recente levantamento das “Dez Melhores” comunidades de “startups” (empresas tecnológicas jovens) de universidades realizado por YouNoodle, uma firma que analisa startups. Em seguida, a relação das primeiras cinco foi completada por: MIT, a Universidade de Cambridge, a Universidade da California em Berkeley, e o Indian Institutes of Technology (Institutos Indianos de Tecnologia). Anualmente organizada no mês de Fevereiro, a “Entrepreneur Week” (Semana do Empreendedor) de Stanford, neste ano do centenário de fundação da primeira startup (FTT) ocorreu em 17 entidades distintas do campus. Uma delas, chamada de BASES — (“Business Association of Stanford Entrepreneurial Students”, Associação de Negócios dos Estudantes Empreendedores de Stanford) — foi fundada em 1996 e diz contar com mais de 5.700 membros ativos e ex-alunos envolvidos em mais de 400 startups. Como todo ano, há um prêmio para quem apresentar o melhor plano de negócios, e este ano houve 235 inscrições — mais que o dobro do número de inscrições recebidas no auge da era ponto-com.

Durante o ano escolar, há uma aula semanal com o título de “Entrepreneurial Thought Leaders” (ETL) que é organizada na Escola de Engenharia pelo Stanford Technology Ventures Program, liderado pelos professores Tom Byers e Tina Seelig, que em Janeiro último receberam o prestigioso Gordon Prize da National Academy of Engineering por seus serviços prestados no ensino da engenharia. Semana passada, a aula teve que ser deslocada para o Stanford Memorial Auditorium de forma a acomodar uma palestra intitulada “The Future of Microsoft. The Future of Technology” no dia 03/05/09 pelo CEO da Microsoft, Steve Ballmer. Dirigindo-se a uma audiência de cerca de 700 alunos e visitantes, Ballmer compartilhou seu otimismo pela inovação emergente em meio a uma crise econômica sem precedentes, revelando alguns aspectos relevantes de sua própria história como empreendedor: “Não há melhor momento para se começar um negócio, (...), se você tem uma boa idéia, vai conseguir financiamento. (...) Microsoft e Apple foram iniciadas num período recessionário.”

Outra palestra recente (08/04/09) também atraiu um grande número de alunos: o CEO e fundador da Nvidia, Jen-Hsun Huang, falou sobre a importância de uma grande visão e de se fomentar uma cultura de inovação. O incentivo à atitude de encarar riscos, segundo Huang, requer uma tolerância a falha. Para os tecnologistas do Vale do Silício, isso é quase como um princípio fundamental, mas conceitos como o valor de "falhar rápido" — para rapidamente aprender das derrotas — pode ser iluminante numa universidade de elite onde os alunos são normalmente super bem sucedidos no que fazem. Aos seus alunos a Professora Seelig sempre solicita que preparem um "résumé de falha" para ilustrar como eles deveriam aprender a partir dos erros.

Em matéria de 08/05/09 de Scott Harris no Mercury News (“Stanford's startup culture stronger than ever”), Randy Komisar, um empreendedor que se transformou em capitalista de aventura da Kleiner Perkins Caufield & Byers, co-autor do best-seller sobre a era ponto-com “The Monk and the Riddle” (Harvard Business School Press, 2000), professor de tempo parcial em Stanford e membro do conselho de diretores de uma startup chamada Cooliris, diz que ele e Byers usam um método socrático em sala de aula, constantemente questionando e encorajando o diálogo. "No Vale do Silício criamos essa cultura que é auto-perpetuante,uma cultura que atrai o tipo de pessoas que prosperam na ambigüidade, na inovação, e na tomada de riscos."

Já se disse alguma vez, com grande propriedade, que no Vale do Silício se formou um tecido social que tem produzido alguns dos mais espetaculares avanços tecnológicos da história da humanidade, e que espalhou uma infecciosa dicotomia de contracultura e empreendedorismo: criatividade, espírito libertário e não-conformismo aliados a espírito realizador e não-temeroso a falha. Que o motto de Stanford, “Die Luft der Freiheit Weht”, proposto pelo seu primeiro Presidente (i.e., Reitor) David Starr Jordan, continue a inspirar a todos de forma a garantir que os ventos da liberdade continuem soprando!

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil (São Paulo), 18/05/09, 23:30hs, http://www.gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2499453,408,100,15

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 18/05/09, 08:49hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/05/18/cem_anos_de_empreendedorismo__reitor_de_stanford_como_primeiro_anjo_investidor_46561.php


segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Crescimento Áureo da Tecnologia da Informação e as Novas Oportunidades

ARTIGOS ESPECIAIS

27/04 - 09:25

O Crescimento Áureo da Tecnologia da Informação e as Novas Oportunidades

São Paulo, 27 de abril de 2009 - Quando se fala em sociedade da informação é comum se restringir a discussão aos aspectos sociais, culturais, e até mesmo tecnológicos da chamada revolução da informação. Pouco se menciona um aspecto fundamental: essa revolução tecnológica conduziu um mercado de 1980 a 2000 que cresceu a uma taxa anual de 17%. Foram 20 anos consecutivos com um crescimento dessa ordem de magnitude. Um mercado que saiu praticamente do nada para um patamar de mais de um trilhão de dólares. Como disse Thomas Siebel numa palestra recente (“Emerging Opportunities in a Post IT Marketplace”, 11/02/09) no Stanford Entrepreneurship Program, “faça uma busca na Wikipedia e não encontrará muitos mercados que tenham crescido tanto por tanto tempo”. Fundamental para se chegar a esse ponto foi sem dúvida a “lei de Moore” (enunciada em 1965 por Gordon Moore, co-fundador da Intel, descreve uma tendência de longo-prazo na história do harware dos computadores: “o número de transistores que podem ser colocados a custo razoável num circuito integrado aumenta exponencialmente, duplicando aproximadamente a cada dois anos”). É claro que não foi obra do acaso. Naquele periodo vigoravam nos EUA políticas públicas extremamente favoráveis a investimentos de risco. “Risco era um problema dos negócios, não um anátema”, acrescenta Sieber. Resultado: incentivo à inovação, empreendedorismo, conceitos amplos tais como propriedade do empregado de base ampla, e um ambiente regulatório largamente favorável aos negócios. Isso tudo num período de evolução e fortalecimento do mercado de capitais, notadamente o capital privado sob a forma de capital empreendedor (ou capital de aventura), resultando num fluxo de capital para inovação incrivelmente fluido. No contexto global, a abundância parecia ser o nome do jogo.

Como se não bastasse tudo isso, mudanças em tecnologia provocavam substituições totais, ao invés de incrementais, o que significava que todo cliente tinha que comprar e continuar comprando ou ficar para trás na obsolescência. A revolução na indústria da tecnologia da informação e da comunicação contava fortemente com um poderoso mecanismo de auto-alimentação: a inovação apoiada na lei de Moore. Siebel, que foi partícipe desse período (e desse ponto geográfico) áureo da economia americana, é atualmente chairman do “First Virtual Group”, uma holding de empresas diversificada com interesses no mercado imobiliário comercial, agronegócios, gerenciamento de investimentos globais, e filantropia. Recipiente de diversos prêmios como empreendedor (por exemplo, “Master Entrepreneur of the Year – Ernst & Young, 2003”), autor de três livros (entre eles “Taking Care of eBusiness “, Doubleday, 2001), Siebel foi fundador, chairman e CEO da Siebel Systems que acabou adquirida pela Oracle Corporation em Janeiro de 2006. Fundada in 1993, a Siebel Systems se tornou líder mundial em software de aplicações com mais de 8.000 funcionários em 32 países, mais de 4.500 clientes corporativos, e uma receita anual de mais de US$2 bilhões. Segundo Siebel, quando se esteve envolvido em qualquer desses tipos de revolução e se convocava um cliente, a questão não era se ele ia comprar o produto, pois ele poderia até pensar que não ia comprar mas você sabia que ele ia comprar, pois era somente uma questão de se ia ser esse ano ou dentro de dois anos. E eles iam comprar, pois caso contrário poderiam quebrar, pois ficariam não-competitivos. Foram anos dourados, até que veio o estouro da bolha em 2001.

A revolução da informação de fato mudou a forma como as pessoas se comunicam, a maneira como fazem negócios, como se divertem, e até como conduzem os processos de negócios. Houve enormes ganhos de produtividade em todos os segmentos industriais, mas, segundo Siebler, há sinais de que o ritmo não é mais o mesmo: basta tomar como indicador a taxa de investimento de aventura em tecnologia da informação, que cresceu extremamente rápido até o estouro da bolha, mas tem caído cerca de 1% ao ano. Numa matéria recente no NY Times (“Venture Capital Investment Sinks”, 18/04/09), Claire Cain Miller relata que o investimento em capital de aventura no primeiro trimestre de 2009 caiu para níveis tão baixos quanto não se via desde a época anterior o estouro da bolha das ponto-com, conforme um estudo publicado pela Thomson Reuters. As empresas de capital de aventura investiram apenas US$3 bilhões em 549 empresas jovens no primeiro trimestre, o menor nível de investimento desde 1997, conforme um estudo realizado pela National Venture Capital Association e a PricewaterhouseCoopers. O montante investido caiu 47% com relação ao último trimestre de 2008 e 61% com relação ao primeiro trimestre do ano passado. Empresas de software receberam US$614 milhões, uma queda de 42% em relação ao trimestre anterior. Por sua vez, as empresas de internet levantaram US$556 milhões, um decréscimo de 31%. Em destaque, os negócios com a Obopay, um serviço de pagamento por celular, e a Twitter, cada uma captando US$35 milhões.

Segundo Siebel, hoje em dia a indústria da tecnologia da informação não apresenta os maiores desafios nem as grandes oportunidades. Voltamos ao básico: água, saúde, energia, alimentação. Se olharmos para o crescimento da população mundial: estamos em 6,5 bilhões caminhando rapidamente para 9 bilhões, e não adianta achar que vamos diminuir esse ritmo com controle populacional. E isso significa demanda sobre o meio-ambiente. Se você deseja construir uma nova fábrica, uma nova unidade fabril, uma nova estrada, fabricar um novo produto, vai precisar levar em conta o conteúdo de dióxido de carbono correspondente. Por isso, as previsões para o chamado “mercado do carbono” que hoje está em US$3 bilhões apontam para US$3 trilhões em 2020 como resultado da legislação que deve entrar em vigor nos EUA. Essa é uma espécie de lei de Moore de nossas vidas. Dito isso, Siebel conclui especulando que as grandes oportunidades de se fazer algo significativo estarão seguramente relacionadas a assistência à saúde, à produção limpa e eficiente de energia, à produção de alimentos, à preservação da água.

Não obstante a pertinência das observações de Siebel, é preciso levar em conta que os avanços na tecnologia da informação não raro repercutem profunda e decisivamente em todos os setores promissores identificados.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil, 27/04/2009, 09:25hs, http://gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2461523,408,100,1


terça-feira, 14 de abril de 2009

Economia do Link

ARTIGOS ESPECIAIS

14/04 - 00:30

Economia do Link

São Paulo, 14 de abril de 2009 - Sinal dos tempos, uma das mais tradicionais agências de jornalismo e produção de conteúdo de notícias, a Associated Press (AP), num tom típico de uma indústria em estado de desespero e temor pela própria sobrevivência, anunciou na última 2ª feira (06/04/09) que “tomaria as ações legais e legislativas” contra os chamados agregadores de notícias que usassem conteúdo sem permissão. O anúncio, divulgado após a decisão tomada por seu conselho de administração, não dá nome aos bois, mas a especulação mais óbvia é de que a Google é o principal alvo. Embora a gigante do engenho de busca pague à AP para hospedar versões completas de matérias do serviço de notícias pela internet, em geral ela não tem contratos com os noticiários membros da AP cujas manchetes ela também agrega em seu portal de notícias. Como parte da estratégia, a AP pretende "desenvolver um sistema para rastrear conteúdo distribuído online para determinar se está sendo usado legalmente", além de novas páginas de busca controladas pela AP.

Empreendendo um ataque aberto aos defensores de uma reformulação do direito autoral com base no conceito de “uso razoável” (em inglês, “fair use”, cf. a Wikipedia “é uma doutrina na lei do direito autoral dos Estados Unidos que permite o uso limitado de material protegido por direito autoral sem a exigência de permissão dos detentores dos direitos, tais como o uso acadêmico ou para efeito de resenha), Dean Singleton, chairman da AP, declarou no encontro anual da AP em San Diego na 2ª feira: “Não podemos mais ficar esperando e assistindo outros levarem nosso trabalho sob teorias legais malconduzidas”. Conforme John C. Abell (“AP to Aggregators: We Will Sue You”, 06/04/09), tem se tornado uma noção populista entre muitos da indústria de que agregadores que tomam uma manchete e um parágrafo estão tomando algo de valor, se não literalmente roubando, e não operando sob uma exceção de “uso razoável”, muito embora estejam atraindo tráfego para a fonte. Recentemente a retórica contra a Google atingiu níveis nunca vistos, com o chairman da News Corp, Rupert Murdoch, declarando: "A questão é, deveríamos estar permitindo à Google roubar todos os nossos direitos autorais ... roubar não, mas levar? Não só eles, mas a Yahoo."

No calor da repercussão do anúncio da AP, Arianna Huffington (nascida Ariánna Stassinópulos, colunista, autora e escritora de séries de TV que fundou um projeto online chamado “The Huffington Post” que provou o poder dos blogs e conseguiu atrair escritores célebres, de John Kerry a Jamie Lee Curtis) e Tom Curley (CEO da AP), estiveram em debate no programa de Charlie Rose na 4ª feira (08/04/09) em torno do tema “como o jornalismo será distribuído na era digital e que novos modelos podem emergir”. Em seu blog no portal HuffingtonPost.com, Huffington chama a atenção para a chamada “economia do link”: “À medida que os jornais continuam a quebrar e falir, o óbvio benefício especialmente da Google — direcionar multidões de tráfego de volta ao portal original — está sendo cada vez mais embaçado pela raiva e inveja dos executivos dos jornais da capacidade da Google de monetizar a agregação ao máximo enquanto que não paga nada para a criação do conteúdo.”

Declarando-se surpresa com a descrição que Tom Curley faz do que ele chama de "a experiência da internet" como sendo "uma bomba. Competição ilimitada, estoque ilimitado, uma má experiência do cliente," Huffington diz que, ao contrário, será que alguém consegue argumentar seriamente que esse não é um tempo magnífico para os consumidores de notícias que podem navegar na rede, usar engenhos de busca, e visitar agregadores de notícias para acessar as melhores estórias de incontáveis fontes de todo o mundo – estórias que estão atualizadíssimas, e não apenas distribuídas uma vez ao dia? As notícias online também permitem que os usuários imediatamente comentem sobre as estórias, assim como interajam e formem comunidades com outros comentadores. “Os hábitos do consumidor mudaram dramaticamente. As pessoas se acostumaram a obter as notícias que desejam, quando elas desejam, como desejam, e onde as desejam. E essa mudança chegou para ficar”, afirma Huffington. Ao ouvir de Tom Curley que a AP busca proteger parte do conteúdo de sua produção jornalística, somente permitindo acesso pago, sua reação é tão imediata quanto negativa: “embora, em boa medida, a indústria da notícia tenha se adaptado apropriadamente a essas mudanças, ainda há quem queira agir como se os últimos 15 anos não tivessem acontecido, como se ainda estivéssemos na antiga economia do conteúdo ao invés da nova economia do link, e que a sobrevivência da indústria da notícia na era da internet virá através da ‘proteção’ de conteúdo por trás dos chamados ‘jardins murados’ (em inglês, ‘walled gardens’).” Insistindo na necessidade de adaptação da indústria da notícia às mudanças radicais trazidas pela internet, Huffington cita seu compatriota, o grego Heráclito, que já dizia há 2.500 anos: “você não consegue pisar no mesmo rio duas vezes”. E lembra o que disse Charlie Rose após ouvir seus argumentos: “Vimos o futuro e ele está aqui. É uma economia ‘linkada’. É engenhos de busca. É anúncio online. É aí onde o futuro está. E se você não consegue encontrar seu caminho até isso, então você não consegue achar seu caminho.” A grande sacudida pela qual está passando a indústria da notícia é o resultado de uma tempestade perfeita de tecnologia transformativa, do advento de iniciativas como a Craigslist (listas comunitárias de anúncios de uso gratuito, e de grande alcance e popularidade), mudanças de geração na forma pela qual as pessoas encontram e consomem notícias, e o duro impacto que a crise econômica tem tido na indústria do anúncio.

Já em Outubro de 2008, numa matéria para o New York Times (“Mainstream News Outlets Start Linking to Other Sites”, 12/10/08), Brian Stelter relatava que as agências de notícias demonstravam uma tendência para abraçar o “ethos do hiperlink” num grau nunca dantes visto, tornando-se cada vez mais confortáveis em apontar para competidores – agindo, na verdade, como agregadores. Citando experimentos realizados por ninguém menos que The Washington Post, NBC e New York Times, como exemplos do chamado “jornalismo de link”, idéia que já à época ganhava força no meio jornalístico, a matéria lembra que havia anos que jornais, estações de TV, portais Web e revistas hesitavam em apontar para portais externos pois, segundo se acreditava, era preciso manter os usuários nos seus próprios portais. Quanto mais visitas às páginas da organização e quanto maior o tempo gasto no portal da empresa, maior seria a receita de anúncio online. Porém, como disse Scott Karp, jornalista-chefe do portal Publish2.com e autor do termo “jornalismo de link”, a Google é uma refutação direta dessa crença: tudo o que faz é mandar as pessoas para outros portais, e faz isso tão bem que as pessoas continuam voltando. Outro grande defensor do jornalismo de link, Jeff Jarvis, um blogueiro proeminente (“BuzzMachine.com”) que coordena o programa de nova-mídia da “Escola de Pós-Graduação em Jornalismo” da City University of New York, já disse que a cultura de ‘linkar’ estava criando uma “nova arquitetura de notícias.” “Linke para o bom material do outro da mesma maneira que você gostaria que ele(a) linkasse para o seu bom material,” é um dos mandamentos que Jarvis propôs em Junho passado. Em uma palestra em Julho de 2008 num evento realizado no Berkman Center (Harvard) sobre “economia do conteúdo versus economia do link”, os imperativos da economia do link foram delineados da seguinte forma: (1) todo conteúdo deve ser transparente: aberto na web com links permanentes de modo que possa receber links (não é conteúdo até que esteja ‘linkado’); (2) o recipiente de links é o responsável por monetizar a audiência que ele traz (no velho modelo de redifusão (do inglês, “syndication”) da economia do conteúdo, o criador vende conteúdo a um outro e aquele que redifunde tem que vir com a receita de anúncio ou circulação suficiente para pagar por ele. Agora na economia do link, isso é revertido: quando você obtém tráfego, você precisa descobrir como se beneficiar dele. Como disse Doc Searls no evento: trata-se de uma mudança de “fazer dinheiro com” para “fazer dinheiro por causa de”); (3) links são uma chave para a eficiência; (4) Existem oportunidades para adicionar valor em cima da camada de link (Aqui é onde se pode encontrar oportunidades de negócio: administrar abundância ao invés do velho modelo de administrar escassez. O mercado precisa de ajuda para encontrar o bom material; essa “curadoria” é uma oportunidade de negócio. Há também uma oportunidade de adicionar contexto. Igualmente, há a necessidade de adicionar relato e novo conteúdo e informação em cima da ecologia do link. Existe também a necessidade de criar infraestrutura para ‘linkar’. Finalmente, há uma necessidade gritante de infraestrutura para anúncios e redes para ajudar os recipientes dos links a monetizá-los.).

Em um artigo mais recente (“1. Solve journalism’s data problem. 2. Kill the AP. 3. Invest in the next market “, 08/04/09), Jarvis argumenta que se toda notícia carregasse uma chave identificando a reportagem original, agregadores como o GoogleNews e o Daylife poderiam dar precedência e ‘linkar’ para aquele jornalismo na sua fonte, contribuindo com apoio àquela reportagem original na economia do link. Segundo ele, o problema hoje é que os agregadores favorecem o frescor da notícia,mas a estória mais recente num cluster em torno de um tópico é frequentemente a 87ª reescrita das notícias e é usualmente da AP, que corta os links e o crédito para o jornalismo original. Os agregadores trabalham com “pools” de fontes limitados (mesmo que grandes), e em um universo pequeno o mau comportamento pode ser monitorado e naturalmente punido. Na estrutura da economia do link, é de responsabilidade do veículo cuja matéria tem precedência monetizar aquela audiência. Isso poderia ser ajudado, no entanto, por um ambiente de mercado que apoiasse a redifusão reversa, que poderia enviar tráfego para o jornalismo original e até mesmo compartilhar receita com aqueles que enviam links para ele. Se a AP realmente quisesse ajudar a dar apoio ao jornalismo original, diz Jarvis, ela construiria esse ambiente de mercado – e deixaria de reescrever, homogeneizar, e anonimizar todas as notícias de seus membros. Ou, quando fizesse isso, deveria dar crédito e links às fontes, uma necessidade moral na economia do link. Por fim, após considerar que as declarações de Tom Curley (CEO da AP) sobre a criação de um portal para abrigar suas notícias soam como uma tentativa de competir com a internet como um todo, e que faria mais sentido dar mais importância ao trabalho original dos jornais através do tecido da própria internet, Jarvis conclui que o problema é que a AP parece não caber na economia da internet, e, portanto, está tentando amoldar o futuro a seu modelo e se apresentar como um Dom Quixote lutando contra moinhos de conteúdo.

Por mais que soe como clichê, o fato é que na economia da internet, a moeda é a informação e o conhecimento, e a economia do link parece oferecer um arcabouço conceitual apropriado para se pensar a nova mídia e a economia em que ela se insere, i.e., a economia digital. E, como diz Jarvis num outro artigo (“Why Google should want Twitter: Currency”, 04/04/09), quando se analisa o valor de empresas na economia digital, é importante descobrir o valor de seu conhecimento: a Amazon é uma empresa de conhecimento pois fazer entrega de livros e mercadorias é o preço que ela paga para saber mais que qualquer outra empresa sobre nossos hábitos de compra; a Google sabe mais sobre o que estamos buscando, e com o Google Maps também está tentando ser a empresa que sabe mais onde estamos; a Facebook sabe mais sobre nossos relacionamentos e amizades; e a Twitter está caminhando para saber mais sobre o que estamos fazendo momentaneamente.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil (São Paulo), 14/04/09, 00:30hs,

http://gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2442866,408,100,1