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segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Vale do Silício e o Renascimento – A Internet e o Livro Portátil

ARTIGOS ESPECIAIS

29/06 - 10:20

O Vale do Silício e o Renascimento – A Internet e o Livro Portátil

São Paulo, 29 de junho de 2009 - Conforme o prefácio do livro “Silicon Valley: 110 Year Renaissance” (J.R. McLaughlin, L.A. Weimers, W.V. Winslow, S. McBurney & K. Costas, Santa Clara Valley Historical Association; 2a edição, 2008), parte do que faz o Vale do Silício pulsar é o compartilhamento do conhecimento. As fronteiras que num certo momento isolavam empresas ou departamentos acadêmicos são violadas não apenas na indústria, mas no campus, criando uma fertilização cruzada e uma nova sinergia. Daí saíram visionários que experimentaram a aplicação de computadores no desenvolvimento de novos medicamentos, assim como o uso de raio laser em dispositivos médicos. Diversos gargalos técnicos ou de gerenciamento foram dissolvidos pelo simples ato de compartilhamento de informações e experiências. E um dos principais, e dos mais revolucionários veículos de compartilhamento de conhecimento e informações da humanidade é, sem dúvida, o texto. Na medida em que o texto pode ser produzido e disseminado o mais ampla e facilmente possível, surgem oportunidades extraordinárias para a humanidade. No Renascimento, o livro portátil. No Vale do Silício, o computador pessoal e a internet. Entre muitas, aí está uma das semelhanças fundamentais entre a era do Vale do Silício e a era do Renascimento.

Com efeito, há certos períodos na história em que descobertas e eventos, tanto politicos quanto tecnológicos, criam uma janela dentro da qual a civilização tem a oportunidade de dar um grande salto à frente. Uma dessas oportunidades foi a convergência de eventos e invenções que deram origem a uma era de descobertas, e que hoje conhecemos como o Renascimento. Se tivéssemos que identificar um único evento que possa ter disparado esse processo, não seria exagero apontar para o advento da Peste Negra, a praga mortal. O desaparecimento do trabalho barato levou à busca por inovações que propiciassem a diminuição da dependência da força de trabalho e, consequentemente, a invenções cruciais. Os principais avanços durante o Renascimento foram sem dúvida a prensa (ou máquina de imprimir), a bússola e a pólvora. A prensa e o desenvolvimento de técnicas de produção e distribuição de livros de custo acessível e de transporte fácil propiciaram a primeira revolução da informação. Por sua vez, a pólvora e a diminuição drástica da força de trabalho mudaram a paisagem política de uma sociedade feudal, enquanto que a bússola permitiu as grandes viagens de descobrimento do Novo Mundo. O fato é que o Renascimento foi uma época de invenções, realizações empreendedoras, e explorações muito semelhantes àquelas ocorridas no Vale do Silício. A convergência do computador pessoal, a tecnologia de roteamento que permitiu que plataformas de computadores diferentes se comunicassem, e o fim da Guerra Fria, que abriram caminho para a democratização da internet, tudo isso foi crucial para a nova revolução da informação.

O fenômeno conhecido desde os anos 1970’s como Vale do Silício pode ser tracejado às suas origens nos anos 1890’s quando o então magnata Leland Stanford estabeleceu uma universidade em Palo Alto, localidade situada a 60Km ao sul de San Francisco, e adotou como princípio norteador que seus alunos não apenas ganhassem conhecimento mas fossem capazes de aprender no mundo real. Desde os pioneiros, professores de Stanford estiveram imbuídos deste princípio, e a história registra ali no Vale uma interação inigualável entre a academia e a indústria, com resultados extrapolando de forma nunca dantes vista a partir dos anos 1970’s com o estabelecimento da indústria dos transistores e microprocessadores baseados no silício. O espetacular desenvolvimento da eletrônica de semicondutores se auto-alimentava: estava em vigor a chamada Lei de Moore, enunciada pelo ex-chairman da Intel em 1965, que previa um crescimento fenomenal na capacidade de processamento dos microprocessadores nos próximos 40 anos. Engenheiros ambiciosos, empreendedores, e executivos começaram a ver o Vale do Silício como uma espécie de Meca da modernidade. Em muitos casos vinham diretamente para a indústria, em outros com uma parada em Stanford ou na Universidade da Califórnia em Berkeley para um PhD ou um MBA – para aprender uma nova cultura de empreendimentos e tecnologia. Tudo isso transformou o Vale num magneto de invenção, empreendedorismo e investimento . De clima favorável, e com uma cultura aventureira e de muita tradição em estímulo à criatividade, o Vale foi aos poucos experimentando uma onda de energia criativa e intelectual comparável ao que ocorreu em Florença na época do Renascimento. Aos olhos dos investidores de capital privado, tudo ali se parecia com o novo Eldorado. Formou-se um ecossistema um tanto único de inovação, empreendedorismo, tecnologia, investimento e produção de riqueza.

Em depoimento ao filme documentário produzido com base no livro supracitado, Lisa Jardine, Professora de Estudos do Renascimento, Queen Mary College, London, chama a atenção para um dos mais importantes resultados do Renascimento: a globalização do comércio. E vai mais além ao descrever o principal paralelo entre o Renascimento e o Vale do Silício. Em ambos os casos, aconteceram duas “revoluções da informação”: a primeira, a invenção da prensa (Johannes Gutenberg, 1398-1468) seguida da concepção de livros pequenos e de custo acessível; a segunda, a invenção do computador pessoal e da internet. “Tendemos a pensar no Renascimento como uma época de produção artística (quadros, esculturas, etc.), mas isso foi mais decorrência que origem. O Renascimento foi, na verdade, uma época de empreendedorismo: o brotar do comércio internacional foi o fator mais predominante do Renascimento. Pessoas que começaram como mercadores, rapidamente se tornaram príncipes.”

No mesmo documentário, Charles Geschke, fundador da Adobe Systems, destaca o enorme impacto sócio-econômico da imprensa escrita, e vislumbra que a internet terá impacto ainda mais patente. Frederico Faggin, inventor do dispositivo eletrônico conhecido como “porta de silício” (em inglês, “silicon gate”) e do microprocessador, fundador da ZYLOG e Synaptics, diz acreditar que arte hoje não é mais pintura ou escultura, é criar idéias e padrões. E nisso o Vale do Silício tem sido extremamente produtivo.

Em seu depoimento, Isaac Chuang, físico quântico, afirma que as coisas mais complicadas que costumávamos construir eram edifícios, casas, cidades. Agora são os chips de silício.

Scott Cook, fundador e chairman da Intuit, lembra a importância da invenção do livro como veículo de aceleração da disseminação do conhecimento e do progresso: normalmente se credita a Gutenberg a invenção da imprensa, mas 50 anos mais tarde entra em ação o italiano Aldus Pius Manutius (1449/1450–1515), versão latinizada do seu nome orginal Teobaldo Mannucci, que congrega inovações como a prensa, a obtenção de conteúdo dos clássicos gregos e dos mestres romanos, e a utilização de fontes tipográficos compactos, e, fundamentalmente, o conceito de editora ou distribuidora de livros. Seu legado no quesito publicação inclui as distinções do fonte itálico e a introdução do livro barato em formato encadernado em pergaminho que era lido da mesma forma que livros de capa mole modernos. Pode-se dizer que Manutius foi o inventor do chamado “livro de bolso”, ou livro facilmente transportável. Sua edição da Opera de Virgílio (1501) nesse formato estabeleceu um marco fundamental. Curiosamente, o uso do “itálico” foi introduzido não como ferramenta de ênfase (como é costume hoje em dia), mas com o propósito de se compactar o texto impresso e permitir a produção de livros em formato portátil.

Conta-se que o primeiro livro impresso, na concepção da palavra, foi a Bíblia, que não se caracterizou exatamente como um livro facilmente transportável. (Em 1455, possivelmente tendo iniciado em 1454, Gutenberg produziu cópias de um “folio” belamente executado da “Biblia Sacra”, com 42 linhas em cada página.) No entanto, como lembra Jim Clark, fundador da Silicon Graphics e fundador e ex-chairman da Netscape, a noção de livro transportável foi fundamental no Renascimento. Em depoimento ao documentário supra, produzido em 1998, Clark já revelava que, diferentemente de alguns conservadores, acreditava, que dentro de cerca de 10 anos o computador estaria substituindo o livro: seria possível transmitir um livro, uma revista, ou um jornal através das telecomunicações. E, nessas circunstâncias, diversas pessoas começariam a usar esta como a mídia primária. Hoje existe o “livro-eletrônico” da Amazon, Kindle, além de outros dispositivos tecnológicos que seriam o correspondente ao computador portátil transformado em livro.

Conforme a Wikipedia, o Kindle é uma plataforma de software e hardware desenvolvida pela Lab126, subsidiária da Amazon.com, para leitura de livros-eletrônicos (em inglês, “e-books”) e outras mídias digitais. Até o momento três dispositivos eletrônicos, conhecidos como "Kindle", "Kindle 2," e "Kindle DX" suportam essa platforma, assim como a aplicação para o iPhone chamada "Kindle for iPhone". O primeiro dispositivo foi lançado nos EUA em 19/11/07. Os Kindle’s usam displays de “papel eletrônico” do tipo E-Ink, e permitem baixar conteúdo através da rede Whispernet da Amazon usando a rede EVDO da operadora Sprint. Em recente entrevista a Steven Levy na conferência “Disruptive by Design”, organizada pela revista Wired, Jeff Bezos diz: “Fico incomodado hoje quando tenho que ler um livro físico....O livro físico teve uma grande sobrevida de 500 anos, mas é hora de mudar.” Não apenas o próprio conceito de livro, mas muitas mudanças fundamentais, sejam elas econômicas, culturais, tecnológicas, ou sociais, ainda hoje se processam devido ao que tem ocorrido, e ainda ocorre no epicentro do Novo Renascimento. Apesar de ter passado por uma grande crise no início do milênio com o estouro da chamada “bolha da internet”, o processo de transformação da sociedade através de uma nova revolução da informação permanece firme. Desde a esfuziante entrada da Netscape na bolsa de valores em 1996, bilhões de dólares foram investidos em startups, e empresas sem um plano de negócios sólido receberam avaliações “nas alturas” de Wall Street. Chegou a se parecer com uma era de esbórnia nunca vista, com escritórios dispondo de cadeiras de US$800. Quando a bolha estourou em 2000, ocasião em que Nasdaq perdeu 75% de seu valor e centenas de empresas tiveram que fechar, parecia que tudo aquilo havia sido “exuberância irracional”, segundo Michael Malone em sua resenha do livro “Once You're Lucky, Twice You're Good – The Rebirth of Silicon Valley and the Rise of Web 2.0”, de Sarah Lacy (Penguin, 2008). O livro conta a estória de empreendedores que nunca desistiram do sonho da internet. Aprenderam, sim, a lição, com o estouro da bolha, e recentemente criaram novas empresas Web transformadoras. As empresas de internet de primeira geração —como Amazon e eBay— simplesmente trouxeram o comércio offline para o ambiente online. Mas a segunda iteração das chamadas “ponto-com” — referidas como Web 2.0 — vem com o propósito de aproximar as pessoas. Portais de redes sociais como Facebook e MySpace permitem o encontro de amigos online; por sua vez, o YouTube propicia que qualquer pessoa disponibilize videos para que outros possam assistir; a Digg.com permite que os usuários da internet votem nas notícias mais relevantes do dia.

Enfim, são muitos os sinais de que o Novo Renascimento segue firme proporcionando a segunda revolução da informação, e não parece ter dia marcado para acabar.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 29/06/2009, 10:20hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2550358,408,100,1

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 29/06/2009, 10:10hs,

http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/06/29/o_vale_do_silicio_e_o_renascimento__a_internet_e_o_livro_portatil_49246.php

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Perspectiva, Propósito, e Paixão em Empreendimentos de Alta Tecnologia

ARTIGOS ESPECIAIS

18/06 - 19:40

Perspectiva, Propósito, e Paixão em Empreendimentos de Alta Tecnologia

São Paulo, 18 de junho de 2009 - Representante típico do empreendedor em alta tecnologia do vale do silício, Jen-Hsun Huang (co-fundador, presidente e CEO da NVIDIA Corporation), não se furta a destacar a importância dos elementos “paixão” e “propósito” no caminho para o sucesso num setor tão competitivo e tão dinâmico como a tecnologia da informação. “Ser pioneiro com uma empresa é mais que construir produtos. É também estabelecer uma cultura própria da empresa. Como é que você organiza hierarquias e estruturas? Há muito de tentativa e erro, mas é também um processo orgânico. É preciso se dar conta de que, para adquirir essas competências, intelecto e treinamento são importantes para uma evolução bem sucedida – mas não bastam. Realizadores precisam de paixão e propósito acima de tudo”, afirma Huang numa palestra aos alunos do programa de empreendedorismo da Stanford University. Em tom mais pragmático, Huang lembra que é fundamental se construir uma perspectiva própria: “Todo mundo tem uma perspectiva, mas chamá-la de ‘visão’ implica em elitismo e exclusão.” A NVIDIA surgiu em 1993 como a primeira empresa de computação gráfica em 3D voltada para o mercado consumidor, e enfrentou mais de 200 competidores em poucos anos, e mesmo assim é hoje a única remanescente no setor, apesar dos fartos recursos e espalhamento global de outros atores do setor que detinham talento de qualidade e tecnologia. A perspectiva da NVIDIA foi a primeira da sua classe, e os resultados têm revelado um novo sentido de senso comum que é, ao mesmo tempo, perturbador do status quo. Essa perspectiva – e não visão – permitiu que a empresa criasse nova tecnologia, novos mercados, novos clientes, e amplo sucesso. O fato é que, sob a liderança de Huang, a NVIDIA se tornou uma das maiores empresas de semicondutores do mundo, tendo recebido inúmeros prêmios de negócios e tecnologia incluindo o “Fastest Growing Companies” da Forbes, o “Top 40” da revista Wired, e a “Empresa do Ano” da Stanford Business School. Segundo o “Steam Hardware Survey” (levantamento mensal do tipo de computador usado pelos clientes de vídeo game), NVIDIA teve, em números de Maio de 2009, 65,38% do mercado de placa de vídeo para PCs.

Levando-se em conta somente a indústria de vídeo game, verifica-se o tamanho da importância econômica da NVIDIA: mesmo com a retração na economia e o aumento do desemprego, Daniel Ernst, analista da Hudson Square Research, estima que o montante de vendas de vídeo games para o ano fiscal americano terminando em Março chegue a US$28,7 bilhões, um aumento anual de 13%, atingindo um volume maior que os US$27 bilhões da indústria do cinema. Dados revelados pela Entertainment Software Association durante a recente E3 (exposição anual da indústria do video game) em Los Angeles, a partir de números da In-Game Advertising Worldwide, os orçamentos das marcas corporativas para a propaganda “in-game” (i.e., dentro do vídeo game) aumentou de aproximadamente US$30 mil a US$40 mil por campanha há cerca de dois anos para nada menos que US$600 mil por campanha hoje em dia. Outros números impressionantes: em matéria especial da agência Reuters, foi revelado que entre os 40 mais ricos homens de negócios do Japão, quem mais aumentou sua fortuna no período 2007-2008 foi o já 1o colocado, e um tanto discreto, chairman da Nintendo, Hiroshi Yamauchi, cuja fortuna chegou a US$ 3 bilhões, triplicando em relação ao ano anterior graças ao enorme sucesso de vendas da console Wii.

Não obstante, como disse Charlie Rose em introdução ao entrevistado Jen-Hsun Huang em 05/02/09, “NVIDIA é muito mais que a força-motriz de vídeo games para PCs: computação visual está revolucionando muitos aspectos de nossas vidas, desde smartphones e computadores de mão, a equipamentos médicos de varredura e de exploração de energia.” Em resposta à pergunta inicial de Rose (“o que foi que você e sua empresa contribuíram para o mundo, e com o que estamos nos deparando?”), Huang declara: “inventamos um produto chamado GPU (‘Graphics Processing Unit’, unidade processadora de gráfico) que torna possível que vejamos informação através do computador de uma maneira que não era possível anteriormente”. Em analogia ao deslocamento de relevância observado no universo do software, em que a Google leva vantagem sobre a Microsoft caso a tendência para a computação nas nuvens prevaleça, Huang sugere que a GPU pode estar trazendo para si um maior grau de relevância que a própria CPU de um computador. Essa é sem dúvida uma perspectiva um tanto própria, que tem de ser levada em conta em razão de todas as evidências recentes apontando para um crescimento de demanda por computação visual.

"Quando você está na indústria de tecnologia,... se você não estiver se reinventando, você está morrendo lentamente," diz Huang. É preciso que os líderes de mercado canibalizem seus próprios produtos, pois novas idéias forçarão as empresas a abandonar suas próprias tecnologias e processos no caminho do progresso. “Se você não assumir essa atitude com seu próprio negócio, seus competidores certamente o farão por você. O fato é que o mercado não fixa o preço, mas a competição sim. E a função de um gestor eficaz é decidir como alocar os recursos para o melhor retorno, e se o caminho escolhido tem valor para a empresa”, continua Huang. Tudo que deu certo numa empresa de tecnologia tem que em algum momento ser desconstruído e reconstruído novamente, e esse é um dos mais sufocantes desafios por trás uma liderança eficaz. Trata-se de tarefa ao mesmo tempo gratificante e destrutiva, e ainda assim uma demanda inexorável do mercado nesse setor.

Como testemunha recente de seu espírito constantemente renovador, num momento em que os consumidores estavam começando a entender o conceito de “netbook” — aqueles PCs menores que laptops — a NVIDIA anunciou que pretende mostrar competências multimídia de dispositivos baseados no seu chip Tegra (um processador de arquitetura integrada, “sistema-num-único-chip”, derivada da família ARM de chips de conjunto reduzido de instruções, projetado para dispositivos móveis tais como smartphones, PDA’s e MID’s. A empresa conversou recentemente com Ashlee Vance (“Forget Netbooks; Now Mini-Laptops Are Smartbooks”, Wall Street Journal, 29/05/09) sobre a possibilidade da indústria lançar laptops que incluem telas removíveis, dentro das quais haveria um chip Tegra que permitiria que a própria tela obtivesse acesso à internet e processasse dados. Dessa forma, o consumidor adquiriria um laptop e um leitor de livro eletrônico (“e-reader”) ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo que mantém um olho nas tendências do mercado, a NVIDIA, liderada por um típico empreendedor do Vale do Silício formado na Stanford University, cuida em guardar o sentido ao mesmo tempo criativo e experimentador (científico) tão crucial nesse setor: em 2008 a empresa firmou parceria com Stanford como membro fundador do Laboratório de Paralelismo Pervasivo, cujo objetivo é desenvolver novas técnicas, ferramentas e materiais de treinamento para permitir que engenheiros de software tirem o máximo proveito dos sistemas de computação multi-processadores. Numa outra parceria com a alma mater de Huang, a NVIDIA colabora com pesquisadores de Stanford no projeto “Folding@home” de computação distribuída que utiliza a potência de computação das GPU’s e de computadores subutilizados para simular a montagem de proteínas de modo a ajudar a encontrar cura para doenças que ameaçam vidas.

De sua parte, Huang, um ex-aluno do mestrado em engenharia elétrica de Stanford, anunciou em Setembro de 2008 uma doação de US$30 milhões para ajudar a construir uma nova unidade na Escola de Engenharia, o “Jen-Hsun Huang School of Engineering Center”, que deverá estar concluído até o final do primeiro semestre de 2008. Em seu pronunciamento, Huang declara: "A Escola de Engenharia de Stanford é uma principal fonte de energia intelectual para o Vale do Silício e além (…) Estou orgulhoso em ajudar a escola a construir um quartel general que encorpa seus planos para o futuro – um lugar para onde as pessoas vêm juntas para criar a próxima geração de conhecimento e tecnologia."

Eis aqui mais um caso que justifica chamar Stanford de “Nova Florença”, e o que ali se processa de “Novo Renascimento”.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Startups criam Empregos

ARTIGOS ESPECIAIS

08/06 - 07:30

Startups criam Empregos

São Paulo, 8 de junho de 2009 - Conforme a Wikipedia, uma “startup” (ou “start-up”) é uma empresa com uma história de operação limitada. Essas empresas, geralmente recém-criadas, estão numa fase de desenvolvimento e pesquisa por mercados, e por essa razão não têm acesso a crédito nos moldes tradicionais. É aí que entram os investidores de capital privado (investidor anjo, capitalista de aventura, etc.), que são atraídos pela relação entre risco e recompensa, além da escalabilidade de tais empresas: se, por um lado, os riscos são maiores, por outro lado, os custos de inicialização são mais baixos e o retorno no investimento é potencialmente recompensador. Startups bem sucedidas são frequentemente mais escaláveis que empresas já estabelecidas porque tipicamente crescem mais rapidamente mesmo com limitações de capital e de força de trabalho. A empresa deixa de ser uma startup à medida que sobrevive às diversas fases de evolução, desde o período verdadeiramente inicial chamado “vale da morte” em função do altíssimo risco enfrentado, até se tornar rentável ou entrar no mercado de bolsa de valores através de um IPO (abreviação de “initial public offering”, oferta pública inicial), ou ainda deixar de existir como uma entidade independente através de uma fusão ou aquisição por empresa maior. O termo é usualmente associado a empresas de tecnologia com alto potencial de crescimento, e se tornou popular internacionalmente durante o período do estouro da bolha ponto-com quando um grande número de empresas de internet foram fundadas. A maior concentração da atividade de criação de startups está localizada no Vale do Silício, uma região no norte da Califórnia em torno da Stanford University.

Em meio a um recorde de desemprego, um estudo de Janeiro passado do US Census Bureau financiado pela Ewing Marion Kauffman Foundation já mostrava que empresas startups são um principal ator na criação de empregos. As “Estatísticas de Dinâmica de Negócios” (Business Dynamic Statistics) indicam que enquanto as startups de negócios diminuem levemente na maioria das baixas cíclicas, tais empresas permanecem robustas mesmo na mais severa recessão durante o mesmo período de amostragem (no início dos anos 1980s). Os dados das BDS mostram que o emprego contabilizado ao setor de empresas privadas startups dos EUA durante o período 1980-2005 foi de cerca de 3% por ano. Embora ainda uma pequena fração do total de empregos, esses postos de startups refletem novos empregos, que é uma grande percentagem comparada com a média anual líquida de crescimento de empregos no setor privado nos EUA para o mesmo período (cerca de 1,8%). Tal padrão implica que, se forem excluídos os empregos das novas empresas, a taxa líquida de crescimento do emprego nos EUA é negativa na média. Em outras palavras, o relatório indica que, de 1980 a 2008, as startups, definidas nesse caso como empresas com menos de 5 anos, foram responsáveis por todo o crescimento líquido de empregos nos EUA.

Um relatório mais recente da Kauffman (“High Growth and Failure of Young Firms”, 07/04/09) mostra que empresas muito jovens (um ano de existência) apresentam uma taxa de crescimento do emprego de cerca de 15%, caso sobrevivam, mas cerca de 20% dos empregos são perdidos devido ao fechamento de negócios durante o primeiro ano. Empresas mais maduras (29 anos ou mais), por outro lado, criam empregos a uma taxa de cerca de 4%, e têm uma taxa semelhante de perda de empregos devido ao fechamento. Um dado interessante é que, entre as empresas sobreviventes, as taxas médias de crescimento do emprego diminuem com a idade da empresa. Segundo Robert Litan, vice-presidente de Pesquisa e Política da Kauffman Foundation, “como empresas empreendedoras geralmente assumem riscos maiores e têm o potencial de criação de empregos que corresponde a crescimento rápido, os dados revelam a necessidade de que se assegure um ambiente que permita aos empreendedores acesso a financiamento, orientação e outros recursos que os ajudará a sobreviver e progredir.” E foi nesse espírito que, em palestra recente ao Programa de Empreendedorismo da Stanford University (“Emerging Opportunities in a Post IT Marketplace”, 11/02/09), Thomas Siebel lembrou que no perído de 1980 a 2000, a indústria da tecnologia da informação, impulsionada por uma lei tecnológica (“Lei de Moore”) e uma lei jurídica (“Bayh-Dole Act”), experimentou um crescimento anual sem precedentes de 17%. Naquele período vigoravam nos EUA políticas públicas extremamente favoráveis a investimentos de risco. “Risco era um problema dos negócios, não um anátema.” A Lei de Moore (“o número de transistores que podem ser colocados a custo razoável num circuito integrado cresce exponencialmente, duplicando aproximadamente a cada dois anos”) levou a um ambiente em que as oportunidades de negócios pareciam não ter limite. Mudanças na tecnologia eram substituições totais, ao invés de incrementais, o que significava que todo cliente tinha que comprar e continuar comprando ou se ver ficando para trás na obsolescência. A Lei Bayh-Dole de 1980 permitiu que as universidades poderiam escolher reter o título de invenções desenvolvidos sob programas com fundos federais, desde que (1) o produto resultante fosse substancialmente produzido nos EUA, (2) ao comercializar uma invenção, a universidade deveria dar preferência a empresas pequenas (menos de 500 empregados), (3) a universidade deveria compartilhar com o(s) inventor(es) uma parte da receita recebida do licenceamento. E o resultado foi incentivo à inovação, empreendedorismo, a absorção de conceitos amplos tais como propriedade do empregado de base ampla, e um ambiente regulatório largamente favorável aos negócios.

Mas, segundo aponta o relatório, e é repetido num artigo do Wall Street Journal (“Start-Ups Create - And Lose - The Most Jobs”, 07/04/09), em termos de crescimento e sobrevivência, empresas jovens estão melhores e piores que empresas mais maduras. E esse padrão “sobe e desce” enfatiza a natureza de tentativa e erro das empresas jovens que parece ser uma característica inerente à dinâmica de negócios nos EUA.

Em artigo recente no portal VentureBeat.com (“StartUpHire says venture-backed startups really do create Jobs”, 20/05/09), Anthony Ha revela alguns números representativos da oferta de empregos das startups: o portal StartUpHire diz que atualmente lista mais de 10.000 empregos em 2.500 empresas. Por sua vez, o portal Startuply lista 1.037 empregos em 957 startups. Geograficamente, 37% desses empregos estão na Califórnia, e em termos do tipo de indústria, 31% estão em software, sem falar nos 18% em “IT Services” (“serviços de tecnologia da informação”. Os números confirmam o papel do Vale do Silício e da Stanford University no espetacular desenvolvimento de novas soluções tecnológicas, sobretudo na área da tecnologia da informação. Conforme o portal do “Office for Technology Licensing” (OTL) de Stanford, o mundo pensa no Vale do Silício como o um dos maiores centros de atividade de start-up e que a comunidade de Stanford desempenha um papel importante, e isso é verdadeiro pois a mair parte das startups "Stanford" são criadas por ex-alunos de Stanford que se graduam e se tornam empreendedores. Embora a grande maioria dessas empresas sejam formadas sem o envolvimento de Stanford, muitas brotaram da Universidade pelas mãos de professores e estudantes, tomando por base tecnologias criadas no campus. Desde a criação do OTL em 1970, Stanford registra um histórico invejável: 546 invenções renderam royalties; das 7500 revelações (“disclosures”) de invenção, 2814 estão ativas, e 36 delas renderam mais de US100 mil em royalties, das quais 3 ultrapassaram a marca dos US$1 milhão. No período 2007–2008, o OTL permitiu que Stanford recebesse mais de US$62,5 milhões em receita bruta de royalties de 344 tecnologias. Nesse mesmo período o OTL concluiu 107 novas licenças e avaliou 430 novas descrições de invenção em 2008.

O trecho de uma palestra de Larry Page (co-fundador da Google) proferida em 2002 no Programa de Empreendedorismo de Stanford traduz bem a relação entre conhecimento e empreendimento que predomina em Stanford: “A ciência como inspiração”. Page diz que “há tremendas oportunidades para se usar pesquisa básica e boas idéias que você ou outras pessoas tenham.” Em trecho de documentário sobre Stanford e o “Novo Renascimento” (“Silicon Valley: A 100 Year Renaissance”, 1998), o ex-reitor e hoje Editor da revista Science, Donald Kennedy, declara que “Stanford sempre teve afeição por aplicações assim como por teoria”.

Nesse espírito e em nota triste, porém emblemática, registre-se aqui que Rajeev Motwani, ex-orientador de doutorado de Larry Page e Sergey Brin (co-fundadores da Google), Professor de Ciência da Computação de Stanford, morreu em 05/06/2009 num acidente na piscina em sua casa na Califórnia. Motwani era muito conhecido por sua pesquisa em Computação Teórica, a ponto de em 2001 ter sido um dos agraciados com o prestigioso Prêmio Gödel, além do Okawa Foundation Research Award e da Arthur Sloan Research Fellowship. Foi também um ávido investidor anjo, um dos primeiros investidores na Paypal, um consultor especial da Sequoia Captial, e tinha fundado ou ajudado a fundar várias startups bem-sucedidas que saíram de Stanford, incluindo Google, e outras ainda em fase de desenvolvimento como TokBox, Tapulous, Flowgram, Anchor Intelligence, Simply Hired, e Kaboodle. Atuava como membro do conselho de diretores de diversas startups, tais como Mimosa Systems, Adchemy, Baynote, Vuclip e Stanford Student Enterprises, além de ser membro ativo da Business Association of Stanford Engineering Students (BASES). Em seu blog, Sergey Brin declara que “desde que a Google emergiu de Stanford, Rajeev permaneceu um amigo e conselheiro da mesma forma que foi com muitas pessoas e startups desde então.”

Tudo indica que o equilíbrio entre a busca do conhecimento e a sua transformação em empreendimento é o grande segredo do sucesso de Stanford. Sem maniqueísmos do tipo “a academia é distanciada da realidade”, ou “o mercado não se interessa pela descoberta do conhecimento”, Stanford segue adiante sem sucumbir ao espírito do dono da galinha dos ovos de ouro. Oxalá exemplo tão nobre seja seguido por muitos!

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 08/06/2009, 07:30hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2528369,408,100,1

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 08/06/2009, 12:17hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/06/08/startups_criam_empregos_47967.php


terça-feira, 19 de maio de 2009

Cem Anos de Empreendedorismo - Reitor de Stanford como Primeiro Anjo Investidor

ARTIGOS ESPECIAIS

18/05 - 23:30

Cem Anos de Empreendedorismo - Reitor de Stanford como Primeiro Anjo Investidor

São Paulo, 18 de maio de 2009 - Em 2009 comemoram-se os 100 anos de tradição de empreendedorismo e transformação de conhecimento em empreendimento da Stanford University, que deu origem a tantos ícones da tecnologia como Hewlett-Packard, Cisco e Google, e tem sido reconhecida como um catalisador no surgimento do proeminente eixo tecnológico mundial que é o Vale do Silício. Mesmo nesses tempos de recessão econômica, "A Fazenda" (como é conhecida Stanford, em tributo à sua verdadeira origem) continua produzindo idéias de negócios e talentos como nunca — em grande medida devido a seu forte programa de ensino do empreendedorismo em alta tecnologia. Conforme seu portal, o “Stanford Technology Ventures Program” (Programa de Empreendimentos em Tecnologia de Stanford, STVP), localizado no Vale do Silício, é o centro de empreendedorismo na Escola de Engenharia de Stanford. Hospedado pelo departamento de “Ciência e Engenharia da Administração”, o STVP é dedicado a acelerar a educação de empreendedorismo em alta-tecnologia, e a criar pesquisa erudita em firmas de base tecnológica que, por sua vez, forneça novas percepções a estudantes, estudiosos, e líderes de negócios. O STVP fornece a estudantes de graduação e de pós-graduação de todos os cursos as competências empreendedoras necessárias para usar inovações na solução dos principais problemas mundiais, com uma ênfase em meio-ambiente, saúde humana, tecnologia da informação, e outras questões globais.

A grande maioria dos relatos históricos sobre o Vale do Silício e o papel da Stanford University começam em 1956 com William Shockley (co-inventor do transistor) e Sherman Fairchild (fundador da Fairchild Semiconductor, pioneira do circuito integrado e precursora da Intel). Vez por outra faz-se um retorno a um passado um pouco mais longínquo dando o devido crédito a William Hewlett e David Packard (fundadores da HP em 1939) pelo estabelecimento naquela região de uma cultura empreendedora em alta tecnologia. Pouca gente sabe, no entanto, da importante “pré-história” que abriu caminho e tornou possíveis todos esses desenvolvimentos, conforme alerta Thomas Lee, Professor de Engenharia Elétrica da Stanford University, em recente palestra à comunidade acadêmica. A primeira gigante da alta tecnologia na região hoje conhecida como Vale do Silício foi a “Federal Telegraph and Telephone” (FTT), fundada em 1909 pelo recém-graduado de Stanford, Cyril Elwell, como a “Poulsen Wireless Telephone & Telegraph Company”. O nome tem sua razão de ser: o transmissor de arco, que, ao contrário de todos os tipos anteriores de transmissores de rádio, gerava ondas de rádio contínuas, foi inventado pelo engenheiro dinamarquês Valdemar Poulsen in 1902. Entretanto, a transferência bem sucedida da tecnologia do “arco de Poulsen” para os EUA somente foi ocorrer no verão de 1909 quando Cyril Elwell trouxe os direitos de patente americanos para a Califórnia. Por essa parte da sua história, essa região teria sido denominada a “ala do arco” (“arc alley”) antes de se tornar o “vale do silício” (“silicon valley”).

Para que o empreendimento pudesse ter fôlego para sobreviver os primeiros anos em ritmo de inovação tecnológica, foi necessário o aporte financeiro de investidores, e dentre os que investiram na FTT estava ninguém menos que o primeiro Presidente (isto é, Reitor) da Stanford University, David Starr Jordan, juntamente com William Crocker (mais conhecido como o banqueiro que ajudou a reconstrução de San Francisco após o grande terremoto de 1906). Pode-se dizer que Jordan se apresenta como o primeiro “Angel investor” do Vale do Silício. Conforme a Wikipedia, “Investidor anjo” é uma pessoa física ou uma empresa disposta a investir em empresas que estão iniciando suas atividades empresariais (startup) ou pensam em iniciar atividades comerciais ou industriais, contudo, não contam com o aporte financeiro necessário para a empreitada. Trata-se de alguém que acredita no projeto, vislumbra retorno econômico e aporta os recursos para lançar o empreendimento, e está disposto a correr riscos, enquanto aguarda ganhos financeiro com o crescimento da empresa. O fato é que ao final da Primeira Guerra Mundial, a FTT já estava fabricando transmissores de ondas contínuas de 500kW baseados em osciladores de arco de resistência negativa, tendo deixado para trás concorrentes já estabelecidos como a General Electric (GE) para ganhar o contrato de fornecimento de equipamentos estratégicos com a Marinha Americana.

O primeiro doutorado em engenharia elétrica de Stanford foi concedido a Leonard Fuller por seus avanços científicos e tecnológicos que permitiram à FTT construir esses transmissores de alta potência. O fato é que a FTT cultivou sementes intelectuais que floresceriam mais tarde, não apenas na própria região como também em outras partes do mundo. Lee de Forest (inventor americano creditado pela invenção do Audion, modelo revolucionário de válvula eletrônica) realizou seu mais importante trabalho no triodo de tubo a vácuo no âmbito da FTT, e até o futuro “pai do Vale do Silício”, Fred Terman, foi seu estagiário. O fundador da Texas Instruments, Cecil Green, também foi outro que fez parte da equipe da FTT sob o comando de Charles Litton (fundador da Litton Engineering Laboratories, e ex-aluno de Stanford que projetou e construiu o primeiro torno de emolduração de vidro, revolucionando para sempre a indústria da válvula eletrônica).

Sem surpresas, Stanford ficou em 1º lugar num recente levantamento das “Dez Melhores” comunidades de “startups” (empresas tecnológicas jovens) de universidades realizado por YouNoodle, uma firma que analisa startups. Em seguida, a relação das primeiras cinco foi completada por: MIT, a Universidade de Cambridge, a Universidade da California em Berkeley, e o Indian Institutes of Technology (Institutos Indianos de Tecnologia). Anualmente organizada no mês de Fevereiro, a “Entrepreneur Week” (Semana do Empreendedor) de Stanford, neste ano do centenário de fundação da primeira startup (FTT) ocorreu em 17 entidades distintas do campus. Uma delas, chamada de BASES — (“Business Association of Stanford Entrepreneurial Students”, Associação de Negócios dos Estudantes Empreendedores de Stanford) — foi fundada em 1996 e diz contar com mais de 5.700 membros ativos e ex-alunos envolvidos em mais de 400 startups. Como todo ano, há um prêmio para quem apresentar o melhor plano de negócios, e este ano houve 235 inscrições — mais que o dobro do número de inscrições recebidas no auge da era ponto-com.

Durante o ano escolar, há uma aula semanal com o título de “Entrepreneurial Thought Leaders” (ETL) que é organizada na Escola de Engenharia pelo Stanford Technology Ventures Program, liderado pelos professores Tom Byers e Tina Seelig, que em Janeiro último receberam o prestigioso Gordon Prize da National Academy of Engineering por seus serviços prestados no ensino da engenharia. Semana passada, a aula teve que ser deslocada para o Stanford Memorial Auditorium de forma a acomodar uma palestra intitulada “The Future of Microsoft. The Future of Technology” no dia 03/05/09 pelo CEO da Microsoft, Steve Ballmer. Dirigindo-se a uma audiência de cerca de 700 alunos e visitantes, Ballmer compartilhou seu otimismo pela inovação emergente em meio a uma crise econômica sem precedentes, revelando alguns aspectos relevantes de sua própria história como empreendedor: “Não há melhor momento para se começar um negócio, (...), se você tem uma boa idéia, vai conseguir financiamento. (...) Microsoft e Apple foram iniciadas num período recessionário.”

Outra palestra recente (08/04/09) também atraiu um grande número de alunos: o CEO e fundador da Nvidia, Jen-Hsun Huang, falou sobre a importância de uma grande visão e de se fomentar uma cultura de inovação. O incentivo à atitude de encarar riscos, segundo Huang, requer uma tolerância a falha. Para os tecnologistas do Vale do Silício, isso é quase como um princípio fundamental, mas conceitos como o valor de "falhar rápido" — para rapidamente aprender das derrotas — pode ser iluminante numa universidade de elite onde os alunos são normalmente super bem sucedidos no que fazem. Aos seus alunos a Professora Seelig sempre solicita que preparem um "résumé de falha" para ilustrar como eles deveriam aprender a partir dos erros.

Em matéria de 08/05/09 de Scott Harris no Mercury News (“Stanford's startup culture stronger than ever”), Randy Komisar, um empreendedor que se transformou em capitalista de aventura da Kleiner Perkins Caufield & Byers, co-autor do best-seller sobre a era ponto-com “The Monk and the Riddle” (Harvard Business School Press, 2000), professor de tempo parcial em Stanford e membro do conselho de diretores de uma startup chamada Cooliris, diz que ele e Byers usam um método socrático em sala de aula, constantemente questionando e encorajando o diálogo. "No Vale do Silício criamos essa cultura que é auto-perpetuante,uma cultura que atrai o tipo de pessoas que prosperam na ambigüidade, na inovação, e na tomada de riscos."

Já se disse alguma vez, com grande propriedade, que no Vale do Silício se formou um tecido social que tem produzido alguns dos mais espetaculares avanços tecnológicos da história da humanidade, e que espalhou uma infecciosa dicotomia de contracultura e empreendedorismo: criatividade, espírito libertário e não-conformismo aliados a espírito realizador e não-temeroso a falha. Que o motto de Stanford, “Die Luft der Freiheit Weht”, proposto pelo seu primeiro Presidente (i.e., Reitor) David Starr Jordan, continue a inspirar a todos de forma a garantir que os ventos da liberdade continuem soprando!

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil (São Paulo), 18/05/09, 23:30hs, http://www.gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2499453,408,100,15

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 18/05/09, 08:49hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/05/18/cem_anos_de_empreendedorismo__reitor_de_stanford_como_primeiro_anjo_investidor_46561.php


segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Crescimento Áureo da Tecnologia da Informação e as Novas Oportunidades

ARTIGOS ESPECIAIS

27/04 - 09:25

O Crescimento Áureo da Tecnologia da Informação e as Novas Oportunidades

São Paulo, 27 de abril de 2009 - Quando se fala em sociedade da informação é comum se restringir a discussão aos aspectos sociais, culturais, e até mesmo tecnológicos da chamada revolução da informação. Pouco se menciona um aspecto fundamental: essa revolução tecnológica conduziu um mercado de 1980 a 2000 que cresceu a uma taxa anual de 17%. Foram 20 anos consecutivos com um crescimento dessa ordem de magnitude. Um mercado que saiu praticamente do nada para um patamar de mais de um trilhão de dólares. Como disse Thomas Siebel numa palestra recente (“Emerging Opportunities in a Post IT Marketplace”, 11/02/09) no Stanford Entrepreneurship Program, “faça uma busca na Wikipedia e não encontrará muitos mercados que tenham crescido tanto por tanto tempo”. Fundamental para se chegar a esse ponto foi sem dúvida a “lei de Moore” (enunciada em 1965 por Gordon Moore, co-fundador da Intel, descreve uma tendência de longo-prazo na história do harware dos computadores: “o número de transistores que podem ser colocados a custo razoável num circuito integrado aumenta exponencialmente, duplicando aproximadamente a cada dois anos”). É claro que não foi obra do acaso. Naquele periodo vigoravam nos EUA políticas públicas extremamente favoráveis a investimentos de risco. “Risco era um problema dos negócios, não um anátema”, acrescenta Sieber. Resultado: incentivo à inovação, empreendedorismo, conceitos amplos tais como propriedade do empregado de base ampla, e um ambiente regulatório largamente favorável aos negócios. Isso tudo num período de evolução e fortalecimento do mercado de capitais, notadamente o capital privado sob a forma de capital empreendedor (ou capital de aventura), resultando num fluxo de capital para inovação incrivelmente fluido. No contexto global, a abundância parecia ser o nome do jogo.

Como se não bastasse tudo isso, mudanças em tecnologia provocavam substituições totais, ao invés de incrementais, o que significava que todo cliente tinha que comprar e continuar comprando ou ficar para trás na obsolescência. A revolução na indústria da tecnologia da informação e da comunicação contava fortemente com um poderoso mecanismo de auto-alimentação: a inovação apoiada na lei de Moore. Siebel, que foi partícipe desse período (e desse ponto geográfico) áureo da economia americana, é atualmente chairman do “First Virtual Group”, uma holding de empresas diversificada com interesses no mercado imobiliário comercial, agronegócios, gerenciamento de investimentos globais, e filantropia. Recipiente de diversos prêmios como empreendedor (por exemplo, “Master Entrepreneur of the Year – Ernst & Young, 2003”), autor de três livros (entre eles “Taking Care of eBusiness “, Doubleday, 2001), Siebel foi fundador, chairman e CEO da Siebel Systems que acabou adquirida pela Oracle Corporation em Janeiro de 2006. Fundada in 1993, a Siebel Systems se tornou líder mundial em software de aplicações com mais de 8.000 funcionários em 32 países, mais de 4.500 clientes corporativos, e uma receita anual de mais de US$2 bilhões. Segundo Siebel, quando se esteve envolvido em qualquer desses tipos de revolução e se convocava um cliente, a questão não era se ele ia comprar o produto, pois ele poderia até pensar que não ia comprar mas você sabia que ele ia comprar, pois era somente uma questão de se ia ser esse ano ou dentro de dois anos. E eles iam comprar, pois caso contrário poderiam quebrar, pois ficariam não-competitivos. Foram anos dourados, até que veio o estouro da bolha em 2001.

A revolução da informação de fato mudou a forma como as pessoas se comunicam, a maneira como fazem negócios, como se divertem, e até como conduzem os processos de negócios. Houve enormes ganhos de produtividade em todos os segmentos industriais, mas, segundo Siebler, há sinais de que o ritmo não é mais o mesmo: basta tomar como indicador a taxa de investimento de aventura em tecnologia da informação, que cresceu extremamente rápido até o estouro da bolha, mas tem caído cerca de 1% ao ano. Numa matéria recente no NY Times (“Venture Capital Investment Sinks”, 18/04/09), Claire Cain Miller relata que o investimento em capital de aventura no primeiro trimestre de 2009 caiu para níveis tão baixos quanto não se via desde a época anterior o estouro da bolha das ponto-com, conforme um estudo publicado pela Thomson Reuters. As empresas de capital de aventura investiram apenas US$3 bilhões em 549 empresas jovens no primeiro trimestre, o menor nível de investimento desde 1997, conforme um estudo realizado pela National Venture Capital Association e a PricewaterhouseCoopers. O montante investido caiu 47% com relação ao último trimestre de 2008 e 61% com relação ao primeiro trimestre do ano passado. Empresas de software receberam US$614 milhões, uma queda de 42% em relação ao trimestre anterior. Por sua vez, as empresas de internet levantaram US$556 milhões, um decréscimo de 31%. Em destaque, os negócios com a Obopay, um serviço de pagamento por celular, e a Twitter, cada uma captando US$35 milhões.

Segundo Siebel, hoje em dia a indústria da tecnologia da informação não apresenta os maiores desafios nem as grandes oportunidades. Voltamos ao básico: água, saúde, energia, alimentação. Se olharmos para o crescimento da população mundial: estamos em 6,5 bilhões caminhando rapidamente para 9 bilhões, e não adianta achar que vamos diminuir esse ritmo com controle populacional. E isso significa demanda sobre o meio-ambiente. Se você deseja construir uma nova fábrica, uma nova unidade fabril, uma nova estrada, fabricar um novo produto, vai precisar levar em conta o conteúdo de dióxido de carbono correspondente. Por isso, as previsões para o chamado “mercado do carbono” que hoje está em US$3 bilhões apontam para US$3 trilhões em 2020 como resultado da legislação que deve entrar em vigor nos EUA. Essa é uma espécie de lei de Moore de nossas vidas. Dito isso, Siebel conclui especulando que as grandes oportunidades de se fazer algo significativo estarão seguramente relacionadas a assistência à saúde, à produção limpa e eficiente de energia, à produção de alimentos, à preservação da água.

Não obstante a pertinência das observações de Siebel, é preciso levar em conta que os avanços na tecnologia da informação não raro repercutem profunda e decisivamente em todos os setores promissores identificados.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil, 27/04/2009, 09:25hs, http://gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2461523,408,100,1


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Academia, empreendimento e inovação tecnológica

Academia, empreendimento e inovação tecnológica

Ruy J.G.B. de Queiroz 

Professor associado, Centro de Informática da UFPE 


Tão profundas são as transformações resultantes dos avanços tecnológicos que não parece exagero chamar esse processo de novo Renascimento. Tampouco seria injusto atribuir a Stanford o papel de "Nova Florença". Em 1º de Outubro último foram completados 117 anos de serviços prestados (embora fundada oficialmente em 1885, a Leland Stanford Jr University abriu suas portas em 01/10/1891). Em Cities of Knowledge: Cold War Science and the Search for the Next Silicon Valley (Princeton U Press, 2004), referindo-se a um prédio construído em Goa (India) no estilo arquitetônico hispânico predominante em Stanford para abrigar uma empresa de alta tecnologia, Margaret O'Mara diz que "todo mundo quer ser não apenas um outro Vale do Silício, mas também se parecer com o Vale do Silício". Estilo arquitetônico à parte, um tanto original é o princípio norteador de Stanford: ao invés da referência direta à procura pela "verdade" (Veritas, em latim, é o slogan de Harvard), a busca pelo conhecimento como busca da liberdade vem estampada no seu motto, "Die Luft der Freiheit Weht", embora que numa língua estrangeira ainda viva. A idéia de usar tal motto veio de David Starr Jordan, primeiro presidente do "rancho do faroeste transformado em Universidade" (com 33Km2 de área e 43.000 árvores, Stanford é conhecida como "A Fazenda"), que se inspirou na reação do poeta alemão Ulrich von Hutten revoltado com a prisão de Martin Lutero: "vejam que os ventos da liberdade estão soprando!" (videtis illam spirare libertatis auram, em latim). Não sem resistência, até do conselho de curadores (que preferiram o slogan "Semper Virens", significando "sempre verdejante", nome científico da espécie de sequóia comum naquela região que pode viver mais de 2000 anos, e é a criatura viva mais alta do planeta), Jordan buscou no sentimento mais profundo de fé na primazia do indivíduo a força maior para imprimir a impressionante marca da harmonia entre o saber e a liberdade. Stanford veio a revelar toda a sua vocação de Nova Florença a partir dos anos 1970s com a chamada "cultura das start-up's": criação de empresa numa garagem, para explorar uma idéia maluca utilizando tecnologia. 

Diversas têm sido as tentativas de reprodução do ambiente criado no Vale do Silício. Em Maio último, numa palestra ao programa de empreendedorismo de Stanford, Beth Seidenberg (da grande empresa de venture capital KPCB) diz que "o ambiente em torno de Stanford é diferente de qualquer outro que eu já vi e que já foi criado por quem quer que seja. (...) Boston e San Diego podem até reivindicar a disponibilidade de infra-estrutura [para inovação], mas o Vale do Silício é verdadeiramente o eixo da inovação tecnológica". Os fatos estão aí para comprovar, pois brotaram n'A Fazenda: Google, Yahoo, Hewlett-Packard, YouTube, Sun, Cisco, eBay, PayPal, Electronic Arts, Silicon Graphics, Netflix, Nvidia, VMWare, Orkut, Dolby. Através de um simples motto invocando a liberdade do pensar, Jordan enraizou o sentimento de fé na primazia do indivíduo que parece ter protegido Stanford de sucumbir ao arquétipo da fábula da galinha dos ovos de ouro. E esse sentimento persiste nos seus ex-alunos sob forma de doações generosas: US$400 mi de William Hewlett (HP), US$100 mi de Phil Knight (Nike), US$75 mi de Jerry Yang (Yahoo), US$33 mi de Lorry Lokey (Business Wire), US$30 mi de Jen-Hsun Huang (Nvidia). Dentre os programas de arrecadação de doações de ex-alunos e simpatizantes, o The Stanford Challenge, lançado em Outubro de 2006, já se encontra bem próximo à meta traçada para 2011 (US$4,3 bi): os números de 14/10/08 indicam uma arrecadação parcial de US$3,9 bi. Difícil imaginar forma mais explícita de respeito e retribuição à alma mater.