sexta-feira, 12 de abril de 2013

Aprendizagem na era digital: à busca de novo paradigma


Aprendizagem na era digital: à busca de novo paradigma
QUI, 11 DE ABRIL DE 2013 19:46


Diversos fenômenos têm tomado conta dos espaços escolares no mundo inteiro e provocado uma inquietação uníssona. Os jovens estão tendo mais dificuldades para aprender? Seu desinteresse pelos conteúdos escolares aumentou?

O que os sistemas de avaliação mostram é que no Brasil o desempenho dos alunos não tem evoluído a contento, mesmo com o volume crescente de investimentos sendo destinados para o campo da educação. No último resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA (PROGRAMME FOR INTERNATIONAL STUDENT ASSESSMENT), o Brasil assumiu a posição 53 em relação às 65 nações participantes. Entre outras coisas, o exame avaliou como os estudantes utilizam suas competências para resolver problemas relacionados à leitura, ciências e matemática. Em relação à prova de leitura, 40% dos brasileiros atingiu a nota 2, de uma escala cujo máximo é 5.

Todavia, fora das fronteiras da escola a tônica é outra e alguns fatos podem ser observados: todos os dias os jovens acessam uma quantidade fenomenal de informações e são capazes de filtrá-las; não obstante, eles se adaptam às tecnologias e aos novos dispositivos. Em outras palavras, os jovens estão engajados em diversas experiências que exigem constantemente que eles aprendam sozinhos. A percepção desses comportamentos tem despertado muito interesse em entender como a aprendizagem na era digital ocorre nesses espaços, o que os tornam mais propícios e que habilidades os alunos têm desenvolvido para gerir a sua capacidade de aprender. Assim, tem se tornado senso comum que a educação do futuro deve privilegiar novas competências para os jovens, principalmente porque o ritmo acelerado de mudanças a que estamos expostos reflete a necessidade de preparar cidadãos capazes de resolver problemas, de questionar como meio de geração de conhecimento, de se adaptar à novas situações e aprender de maneira autônoma, algo que garantirá que o fluxo de aprendizagem dos jovens seja um modelo autossustentável até a idade adulta.

Tais projeções colocam em crise a maneira pela qual entendemos a educação de hoje. Ao longo dos tempos assumimos que a aprendizagem só acontece a partir da escola, através da figura do professor, responsável por ensinar os mesmos conteúdos a todos os estudantes, no mesmo ritmo e da mesma forma, em um ambiente intolerante e punitivo, que não é capaz de lidar adequadamente com as situações de falha dos estudantes. A percepção desse novo modelo de educação projeta na escola um espaço mais humano, envolvente, que trata os conteúdos escolares de maneira conectada com o que o ocorre no mundo real e, principalmente, que busca a utilização de mecanismos que permitam aos estudantes atingirem a proficiência dos saberes através da indagação, do incentivo à descoberta e a exploração dos seus interesses, do uso da criatividade e do seu papel de tornar os alunos responsáveis pelo seu processo de aprendizagem.

Há décadas atrás este cenário já era idealizado por Isaac Asimov (em uma entrevista de 1998 no “Bill Moyers World of Ideas”), contudo, sua implementação era impraticável. Agora as tecnologias atuais têm assumido um novo papel na estrutura dos modelos de ensino, principalmente fornecendo mais subsídios para métodos de avaliação de aprendizagem e de plataformas voltadas para uma educação global, o que poderá materializar as ideias de Montessori e outros estudiosos da educação. Salman Khan, através da sua instituição Khan Academy, é um exemplo disso. Sua instituição tem contribuído através da disponibilização de milhares de vídeo-aulas, que têm sido utilizadas para inverter o ritmo da sala de aula e personalizar a aprendizagem. A partir das informações geradas pelo sistema de avaliação do Khan Academy, que se baseia em jogos, o professor pode exercer maior controle sobre a gestão da aprendizagem dos seus alunos de maneira muito mais efetiva e é capaz de assumir o seu papel como mediador da aprendizagem. Outras iniciativas que têm buscado novas experiências de aprendizagem com a personalização do ensino e o uso de tecnologias são o School of One e o New Classrooms, ambos fundados em New York em 2009.

Por outro lado, novas leituras têm sido feitas sobre o que é a aprendizagem na era digital. John Seely Brown e Douglas Thomas, no seu livro “A New Culture of Learning” (CreateSpace Independent Publishing Platform, 2011), apontam questões que são importantes nos deslocarmos do velho modelo de ensino para uma nova cultura da aprendizagem, que surge a partir de um ambiente repleto de recursos infinitos capazes de amplificar a curiosidade das pessoas e o interesse em aprender. Esse ambiente é a Internet e os recursos são representados pela dinâmica gerada nas redes sociais, nos jogos, nas redes de informação e nos inúmeros outros recursos que os jovens tem a sua disposição. A grande motivação para que possamos pensar em novas formas de aprender é o enorme volume atual de mudanças, que gera a impossibilidade do sistema educacional ensinar tudo a todos em tempo hábil e que exige que a aprendizagem deixe de ser vista como um processo de absorção isolado e passe a ser entendida como um processo orgânico, social, onde o engajamento é essencial e que se torna mais produtivo através do coletivo, quando a aprendizagem entre os pares se constitui um mecanismo de participação que estimula as pessoas a seguirem seus interesses. O potencial do coletivo para influenciar a aprendizagem é intensamente percebido nos blogs, em comunidades criadas na Internet, na Wikipedia, no Kiva, um ambiente de micro-empréstimos e de aprendizagem que atende pessoas em escala mundial, entre tantos outros.

A aprendizagem do século XXI vai além do que a escola pode transferir ou ensinar. É o conceito que Seely e Thomas retomam de Michael Polanyi conhecido como o conhecimento tácito, que é o conhecimento que está acima do que podemos verbalizar ou transferir, porque é gerado a partir da interação e das experiências dos indivíduos. Na era digital, a utilização do conhecimento tácito acontece muito particularmente nos ambientes de jogos multiusuários. Games de multijogadores online (MMOs), como é o caso do jogo World of Warcraft, são ambientes em que os jogadores produzem conhecimento tácito através da experimentação, oportunidade essa capaz de tornar um assunto pessoalmente significativo e de ajudar a entender melhor o conceito do que se está tentando aprender.

Atualmente, os games são plataformas muito poderosas de estímulo à aprendizagem. Um jogo tem a característica de prender a atenção dos participantes porque dá ao jogador a sensação de poder. O controle sobre um ambiente faz com que os jogadores se sintam mais motivados e engajados a se tornarem melhores no que estão fazendo. O jogador geralmente recebe um feedback constante sobre sua interação com o ambiente e com isso sabe exatamente como está indo, no que precisa trabalhar para melhorar e para onde ir a partir daquele ponto. Ao dominar um aspecto do game, o jogador também tem a possibilidade de instruir outros jogadores, ensinando o que sabe para eles, através de um processo recíproco onde todos ganham conhecimento. A força de atração dos games é tão intensa que os jogadores se sentem motivados para participar do game de qualquer lugar onde estejam.

Um dos aspectos atraentes dos games é que as crianças entendem que eles foram projetados para que os jogadores sejam bem sucedidos, o que nem sempre acontece em sala de aula. Eles permitem aos participantes experimentarem, falharem e continuarem a jogar de diferentes formas, ou seja, trilhando o seu próprio caminho até alcançar um objetivo, que sempre é encontrar o próximo objetivo e obter uma experiência nova dentro do jogo, evoluindo os conhecimentos adquiridos, adquirindo novos, e se tornando mais completamente inseridos no ambiente do jogo. Estes aspectos do projeto de games, ou seja, do seu game design, pode ser uma fonte de investigação para a geração de novos mecanismos de aprendizagem nos ambientes escolares. Isso já vem sendo observado em algumas instituições no mundo inteiro.

Com o propósito de estabelecer uma ponte entre o aprendizado escolar às demandas do século XXI, a game designer Katie Salen criou o “Institute of Play”. Fundado em 2007, o instituto é uma organização sem fins lucrativos, cuja missão é a promoção do uso de princípios de game design e de jogos como ferramentas capazes de reforçar o desenvolvimento de novas competências e, em especial, a aprendizagem de estudantes que cursam o nível secundário. Em parceria com o departamento de educação de New York, o “Institute of Play” criou o “Quest to Learn”, uma escola pública inaugurada em 2009, baseada no modelo de “aprendizado no estilo de jogo”, onde os estudantes não só aprendem jogando os games, mas também aprendem a fazê-los, sob a orientação de uma equipe de professores e games designers. Esse tipo de abordagem trata de um processo de ensino que não se encaixa apenas no contexto aluno-escola, mas também faz parte de um arcabouço que permite ensinar o estudante a se engajar e de adquirir autonomia.

No Brasil, como base no “aprendizado no estilo de jogo”, o projeto NAVE (Núcleo Avançado em Educação) em parceria com o Oi futuro, é realizado em escolas estaduais de Pernambuco e Rio de Janeiro. A escola NAVE, como é conhecida, prepara os jovens para as profissões em alta no mundo dentro da área de tecnologia. Ao terminar o curso, que tem duração de três anos, os jovens saem da escola prontos para o mercado de trabalho, com diploma de ensino médio integrado ao profissional. Recentemente, o Colégio Estadual José Leite Lopes, escola NAVE do Rio de Janeiro, recebeu o reconhecimento da Microsoft, como a única escola do Brasil, entre as 33 mais inovadoras do mundo. A “Microsoft Innovative Schools World Tour” reúne os colégios que mais se destacaram no Programa Escolas Inovadoras por terem conseguido unir com sucesso tecnologia e educação.

Em face a tantas mudanças comportamentais e sociais, como extrair dos ambientes sociais um modelo de aprendizagem que possa ser incorporado pelas escolas? Como atingir tais níveis de engajamento? Como estabelecer um processo de ensino em que os estudantes sejam capazes de assumir uma posição questionadora? As respostas ainda estão sendo construídas, mas o fato é que precisamos reconhecer o que tem ocorrido a nossa volta, e principalmente o papel das novas tecnologias, para que seja possível evoluir os modelos de educação hoje existentes e a nossa relação da aprendizagem e as tecnologias disponíveis.



Autores:
Pasqueline Dantas Scaico (Doutoranda)
Lays Rosiene Alves Silva (Mestranda)
Ivson Henrique Bezerra dos Santos (Mestranda)
Ruy J.G.B. de Queiroz (Professor Associado)
(Centro de Informática, UFPE)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Insolubilidade de Problemas Matemáticos e os Limites da Mente Humana


SEX, 20 DE JULHO DE 2012 01:57

Imagine o desafio de ter que mostrar que um dado problema da Matemática é insolúvel! Em alguns casos um tanto lendários, foram necessários mais de 2 mil anos para vencer o desafio. Já na Grécia antiga, matemáticos buscavam por métodos sistemáticos para resolver problemas geométricos tais como, usando apenas régua e compasso, dividir um dado ângulo em três partes iguais, transformar um círculo num quadrado de mesma área, ou dobrar um cubo (construir um outro cubo com o dobro de seu volume). Somente em 1837, o matemático francês Pierre Wantzel (1814-1848), mostrou que não existe método sistemático para trissectar um ângulo, tampouco para dobrar um cubo.

Que tal o desafio ainda maior de mostrar que não existe um método sistemático para decidir uma questão matemática expressa numa linguagem formal e precisa tal qual a lógica simbólica? Esse foi o desafio posto por um ícone da Matemática do século XX: em 1928, o matemático alemão David Hilbert (1862-1943) propôs a busca por um método geral para, ao receber um enunciado matemático representado numa linguagem formal e precisa como a lógica simbólica, descobrir se o enunciado era verdadeiro ou falso. Apropriadamente, esse problema ficou conhecido como o “problema de decisão”.
Muitos acreditavam que seria impossível haver um método geral para decidir toda e qualquer questão da Matemática, entre eles o matemático G.H. Hardy (1877–1947), de Cambridge, que se dizia esperançoso com a confirmação da impossibilidade, pois se houvesse “teríamos um conjunto mecânico de regras para a solução de todos os problemas matemáticos, e nossas atividades como matemáticos chegaria ao fim”. Para Hilbert, no entanto, seria apenas uma questão de tempo até que a Matemática encontrasse uma solução para o “problema de decisão”, pois, “para o matemático não existe o Ignorabimus... A verdadeira razão por que ninguém conseguiu encontrar um problema insolúvel é que, na minha opinião, não existe problema insolúvel” (1930). Essa era a sua resposta ao lema “Ignoramus et Ignorabimus” (“não sabemos e não saberemos”) enunciado em 1872 por seu compatriota, o fisiologista Emil du Bois-Reymond (1818-1916), exprimindo a crença nos limites do saber científico.

O método, ou “algoritmo”, pelo qual Hilbert procurava seria capaz de decidir, por exemplo, se questões antigas e tradicionalmente difíceis tais como a conjectura de Goldbach ou a hipótese de Riemann, são verdadeiras, ainda que nenhuma prova ou refutação desses enunciados fosse conhecida. Naturalmente, antes que a questão da solubilidade do “problema de decisão” pudesse ser resolvida, a noção de algoritmo tinha que ser matematicamente definida. Afinal de contas, apesar do conceito de algoritmo existir desde a antiguidade grega com o surgimento do método de Euclides para encontrar o máximo divisor comum de dois números, em pleno século XX não se tinha uma definição precisa, matemática, do que seria um algoritmo. Daí a inviabilidade de se demonstrar matematicamente a inexistência de um algoritmo para resolver o “problema de decisão”.

E aí entra em cena um personagem crucial no que veio a ser uma transformação radical na história do conhecimento científico. Alan Turing (1912-1954), matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação britânico, obcecado desde 1935 com a ideia de demonstrar matematicamente a insolubilidade do “problema de decisão”, foi fundamental no desenvolvimento da ciência da computação e proporcionou uma formalização do conceito de algoritmo, através do modelo matemático idealizado que ficou conhecido como "máquina de Turing". Tendo desempenhado importante papel na quebra do código criptográfico da máquina ENIGMA utilizada pelo exército alemão na Segunda Guerra Mundial, passou de herói de guerra a um fora-da-lei sujeito a tratamento quimico-hormonal forçado devido a sua homossexualidade, prática considerada ilegal à sua época na Grâ-Bretanha.
Encontrado morto em cenário indicativo de suicídio, Turing foi de fundamental importância na consolidação da ciência da computação, da noção de máquina universal, assim como da teoria da decidibilidade de problemas matemáticos, abrindo caminho para a demonstração de que certos problemas da Matemática são, de fato, insolúveis. A grande questão para Turing, no entanto, era saber se os limites do que pode fazer a mente humana seriam os mesmos que os limites do que uma máquina poderia fazer. Seríamos máquinas, e, em caso negativo, o que nos distinguiria delas?

Alguns subprodutos de sua investigação teórica, tais como o computador de propósito geral e a noção de inteligência artificial, serviram de base para os que alguns, tais como Luciano Floridi em “Philosophy of Information” (Oxford Univ Press, 2011), chamam de "Quarta Revolução Tecnológica - A Revolução da Informação". Na Primeira Revolução, Nicolau Copérnico mostrou que não estamos no centro do universo. Porém, seríamos ao menos seres privilegiados. Na Segunda Revolução, no entanto, Charles Darwin revelou que não somos animais superiores e totalmente desconectados dos outros animais. O consolo seria acreditar que nós humanos seríamos os únicos seres racionais. Veio a Terceira Revolução com Sigmund Freud trazendo a constatação de que não somos seres totalmente racionais. Restaria o orgulho de que, no plano das idéias, não haveria limites para os humanos. Qual o que: na Quarta Revolução, Alan Turing demonstra que existem problemas matemáticos insolúveis. E agora?
A bem da verdade, antes de Turing outros personagens da história da ciência moderna já questionavam a possibilidade de se alcançar a certeza científica.

Em filme documentário de rara excelência, tanto no que diz respeito à forma quanto ao que concerne o conteúdo, intitulado “Conhecimento Perigoso”, e originalmente exibido na BBC 4 em 08/08/2007, o jornalista britânico David Malone conta a história de quatro mentes brilhantes, entre eles Alan Turing, cuja busca obsessiva pelos limites da certeza científica os levou à beira da loucura e da autodestruição. O roteiro começa por Georg Cantor (1845-1918), matemático de origem germânica cujas teorias sobre infinitudes revelaram profundos paradoxos e abismos lógicos nos fundamentos da Matemática, além de confirmar matematicamente a existência de números “transcendentais” tais como o número pi. A seguir, Malone aborda as revelações sobre a incerteza na Física trazidas à tona pelo austríaco Ludwig Boltzmann (1844-1906), um dos principais responsáveis pela introdução do conceito de entropia, medida matemática da imprevisibilidade de um sistema dinâmico. Antes de chegar a Turing, o filme relata a saga de um outro brilhante pensador austríaco, Kurt Gödel (1906-1978), na busca por uma prova de impossibilidade de um outro problema proposto por Hilbert, a demonstração matemática de que a aritmética era consistente. Em 1930 Gödel mostra que há enunciados na aritmética que não podem ser verdadeiros e demonstráveis ao mesmo tempo, indicando que nem toda verdade matemática dispõe de uma prova.

Para Turing, no entanto, as incursões de Cantor e Gödel no universo das infinitudes e das verdades indemonstráveis da Matemática que abalaram os fundamentos da certeza científica se tornaram questões sobre a mente humana. Em 1950, Turing procura uma resposta científica à pergunta: máquinas podem pensar? Reconhecendo a dificuldade de se chegar a um acordo sobre o que significa pensar, Turing propõe um experimento que hoje é conhecido como Teste de Turing: ponha-se um humano conversando, por meio de terminal, com uma máquina e um humano, sem saber quem é a máquina, e que pretende distinguí-los, podendo fazer qualquer tipo de pergunta a cada um deles, cuja resposta pode ou não ser verdadeira. Segundo Turing, a resposta à pergunta se a máquina pode pensar será respondida na afirmativa se ela puder imitar um ser humano nas suas respostas, e, portanto, impedir que o humano do outro lado consiga distinguí-la de um ser humano. Esse é o chamado “jogo da imitação”.

Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Startups escaláveis e a experimentação com modelos de negócio


Startups escaláveis e a experimentação com modelos de negócio

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Indo além do impressionante histórico de geração de riqueza através da criação de produtos tecnologicamente inovadores invariavelmente baseada no conhecimento científico agregado pela intensa participação da academia, o Vale do Silício parece estar inaugurando uma nova fase na fabulosa transformação da humanidade que se processa sobretudo desde os tempos de Bob Noyce e os pioneiros da revolução digital. Trata-se da aplicação do método científico ao desenvolvimento de modelos de negócio. Experimentação, definição e aplicação de métricas, tentativa e erro, redução da incerteza, desenvolvimento e refinamento de modelos, tudo o que tem sido até agora aplicado ao desenvolvimento de produtos, passa a ser usado na criação e na validação de modelos de negócio. E o objetivo é bem claro: reduzir a mortalidade dos empreendimentos nascentes de inovação tecnológica, as chamadas “startups”, maiores responsáveis pela criação de novos postos de trabalho nos EUA, e pela espetacular capacidade de geração de riqueza que faz daquela região da Baía de San Francisco uma referência mundial no que concerne à alavancagem de empreendimentos baseada na exploração do conhecimento científico na criação de valor econômico.
É bem verdade que o termo “startup” tem um significado especial no Vale do Silício: ao invés de simplesmente “empresa nascente”, que em geral se refere a novas e pequenas empresas com modelo de negócio conhecido, o que prevalece ali no território da inovação tecnológica é o sentido mais ambicioso traduzido no acréscimo do adjetivo “escalável”. Uma startup escalável busca atender a demandas de larga escala, a “transformar o mundo” com a oferta de serviços ou produtos inovadores, ainda que não esteja bem claro para seus fundadores como viabilizar o empreendimento. Tipicamente, uma startup requer capital de risco, e, diferentemente de uma empresa nascente não-escalável, consegue atrair esse tipo de capital em razão do alto retorno que tende a dar a seus investidores. “Uma startup é uma organização temporária utilizada para buscar por um modelo de negócio escalável e reprodutível”, é como define Steve Blank em sua palestra “The Democratization of Entrepreneurship”, em 02/03/2011 na Conferência sobre Empreendedorismo, realizada na Graduate School of Business, Stanford.
Em tempos de diminuição das barreiras tradicionais para se atingir escala, de abreviação dos ciclos de vida de produto, e de redução dramática dos custos de se iniciar novos negócios na área de tecnologia da informação, é natural que as oportunidades para o empreendedorismo tenham se expandido. Em sua palestra, Steve Blank, autor do bestseller “The Four Steps to the Epiphany” (Cafepress.com, 2005) e co-autor (com Bob Dorf) do ainda a ser lançado “The Startup Owner's Manual” (K & S Ranch, Março 2012) e uma autoridade mundial no modelo de empreendedorismo conhecido como “Desenvolvimento de Cliente” (em inglês, “Customer Development”), faz questão de enfatizar que startups buscam por modelos de negócio, enquanto que empresas já existentes os executam. Daí, para maximizar as chances de sucesso de uma startup é preciso experimentar com modelos de negócio, e testar continuamente o produto ou serviço, adaptando e ajustando antes que sejam desperdiçados recursos preciosos (capital, tempo, esforço humano) para se produzir algo que não terá clientela. Ao invés de adotar a tradicional estratégia de seguir um plano de negócio e trabalhar em modo sutil até que o produto idealizado esteja completamente disponível, o método de Desenvolvimento de Cliente preconiza mais agilidade: uma vez obtido um “produto mínimo viável” (“minimum viable product”), é importante “sair do prédio” para buscar feedback do cliente sobre o produto, suas características e funcionalidades, iterando e pivotando produto e modelo de negócio à medida que se aprende com o processo.
Como diz Eric Ries, empreendedor e autor do recém-lançado e já bestseller “The Lean Startup: How Today's Entrepreneurs Use Continuous Innovation to Create Radically Successful Businesses” (Crown Business, Setembro 2011), a maioria das startups fracassam, e uma grande parte das que sobrevivem acaba sendo adquirida por empresas maiores. Porém, ao que tudo indica, a maioria desses fracassos são evitáveis, e quase sempre seu calcanhar de Aquiles é a falta de clientes, independentemente da qualidade do produto. Aliás, muitos são os especialistas que têm chamado a atenção para o fato de que excelentes produtos estão se tornando cada vez mais uma commodity. Sendo assim, a combinação de excelentes produtos com ótimos modelos de negócio é que fará a diferença no mundo competitivo da inovação tecnológica.  
Segundo Ries, “uma startup é uma instituição humana desenhada para entregar um novo produto ou serviço sob condições de extrema incerteza”. Daí, a fórmula “lean”, com sua ênfase na constante busca por um casamento perfeito entre o produto e o cliente, baseia-se essencialmente na idéia de que startups são hipóteses, e que é preciso aplicar “o método científico na identificação da oportunidade de mercado.” O redirecionamento do produto em resposta a resultados não exatamente positivos faz parte do que se denomina de “pivô”: mudando a estratégia sem mudar a visão, nas palavras de Ries.
O problema é que a falta de uma definição precisa do que é um modelo de negócio dificulta a criação de ferramentas de experimentação. Justo com o intuito de preencher essa lacuna, é que Alexander Osterwalder, em sua tese de Doutorado intitulada “The Business Model Ontology - A Proposition in a Design Science Approach” (Universidade de Lausanne, Suíça, 2004), propõe uma ontologia de modelos de negócio definindo a semântica e os relacionamentos entre nove elementos básicos: segmentos de cliente, proposição de valor, canais, relacionamentos com o cliente, fluxos de receita, atividades, recursos, parceiros, e estrutura de custo. Com isso deu um grande passo para, não apenas transformar em algo mais concreto o conceito de modelo de negócio, mas também prover os subsídios necessários para a criação de ferramentas de software para manipulação e teste de modelos de negócio.  O material da tese acabou evoluindo para um texto menos carregado de linguagem acadêmica no bestseller “Business Model Generation: A Handbook for Visionaries, Game Changers, and Challengers”, de Alexander Osterwalder e Yves Pigneur (Wiley, Julho 2010). Recorrendo a uma linguagem visual, os autores definem uma diagramação específica desses elementos ontológicos numa página à qual se referem como “business model canvas” (“tela de modelo de negócio”), e daí estabelecem uma ferramenta gráfica para sistematicamente criar, representar, experimentar, avaliar e validar modelos de negócio.
Durante sua palestra “Tools for Business Model Generation”, em 26/01/2012 na Entrepreneurial Thought Leaders Lecture Series, Stanford, Osterwalder demonstra como, com auxílio de um aplicativo para iPad, é possível experimentar com modelos de negócio de uma forma descomplicada: desenhar, testar, criar e validar hipóteses, tudo isso através de uma linguagem visual de fácil entendimento. Tal qual ocorre na prática da pesquisa científica, a experimentação de hipóteses acompanhada de mecanismos de validação permite que padrões sejam revelados, correspondendo, nesse caso, às categorias de modelos de negócios.
Seria essa disponibilização de ferramentas automatizadas de geração e experimentação de modelos de negócio um divisor de águas no quesito “democratização do empreendedorismo”?


Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Bolhas, crises e prosperidade em revoluções tecnológicas


Bolhas, crises e prosperidade em revoluções tecnológicas

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 Em meio a uma turbulência significativa na economia mundial, o que tem se observado desde o início do ano de 2011 no Vale do Silício é uma verdadeira corrida ao ouro da inovação tecnológica, alimentada por gigantes da mídia social tais como Facebook, Twitter e LinkedIn, esta última alcançando em 2011, em seu dia de oferta pública inicial, a quinta maior valorização de ações em um só dia desde o estouro da bolha da internet. Empreendedorismo de internet, se é que assim se pode chamar essa nova frente de oportunidades e de pioneirismo, virou uma espécie de febre, e a criação de startups se transformou em algo “na crista da onda”. Como diz o investidor e blogueiro Fred Wilson, o empreendedorismo está em voga, inovadores estão inovando, investidores estão investindo, e, apesar de alguns sinais de retração na oferta de capital de risco, como relata o artigo “Web Start-Ups Hit Cash Crunch” (Wall Street Journal, 13/10/11) de Pui-Wing Tam, o clima ainda é bastante favorável.
A média das valorações das novas empresas de internet, que andavam nas alturas até bem pouco tempo, andou perdendo terreno, como lembra Naval Ravikant, empreendedor e fundador da rede social AngelList que serve de ponto de encontro entre empreendedores e investidores-anjo. Chamando a atenção para as possíveis semelhanças com o que ocorreu no final dos anos 1990’s quando o boom das empresas ponto-com começou a dar sinais de fraqueza e as pequenas startups se depararam com a dificuldade de levantar financiamento, a matéria do WSJ aponta para um possível descompasso fundamental: enquanto uma multidão de empresas de internet teriam sido fundadas recentemente, não haveria capital de ventura suficiente para alimentar toda essa nova geração de startups.
Uma visão mais otimista tem Fred Wilson (“What We Are Seeing”, AVC.com, 13/10/11): é normal que a dificuldade de obter financiamento esteja alta, pois, além do altissimo nível de competitividade do mercado de startups – o número de startups buscando capital de ventura praticamente triplicou nos últimos dois anos – por um lado, os VCs têm encontrado muita dificuldade para levantar capital, e, por outro lado, o investimento vindo de anjos parece estar passando por uma fase menos abundante. Aliado a tudo isso, o investimento em empresas de internet passa por um período de transformações: se nos últimos três a quatro anos a ênfase era no aspecto social (e não poderia ser diferente diante da evolução de Facebook e Twitter), sem contar que a computação móvel tem atraído grande parcela da atenção, hoje o investidor parece estar migrando para novas áreas como computação em nuvem, mercados peer-to-peer, e a adaptação para o mundo corporativo do que funcionou bem no universo do consumidor. Segundo Wilson, não há falta de interesse no investimento em empresas de internet, mas o investidor está se vendo obrigado a aprender a lidar com novos mercados e novos setores, e essa transição parece aliviar um pouco do calor de um mercado superaquecido.
Em 2011, houve, de fato, muita discussão em torno do possível superaquecimento do mercado de empresas de internet, dados os valores estratosféricos atribuídos a determinadas startups em busca de rodadas de investimento. Não obstante, em artigo de 26/05/11 (“Fight Of The Titans”), Carlota Perez, economista e destacada estudiosa da inovação da linha Schumpeteriana e defensora do paradigma da “destruição criativa” (“creative destruction”), já advertia que o atual momento não se caracteriza como uma bolha, mas como um sinal da importância da indústria da internet para o século XXI. A grande bolha do mercado de tecnologia que estourou em 2000 foi, segundo Perez, um experimento em grandes proporções, que sempre acontece entre o período de instalação e a fase de emprego de toda revolução tecnológica. Além de permitir que o mercado propicie a troca da velha pela nova economia e decida quem serão os vencedores nesse novo cenário, é nesse período que as novas infraestruturas são instaladas e financiadas antes que se tornem lucrativas.
Bem no espírito do que pregava Chris Freeman (economista inglês, 1921-2010, responsável pela retomada da tradição neo-Schumpeteriana, e defensor do papel crucial da inovação no desenvolvimento econômico assim como das atividades científicas e tecnológicas para o bem-estar da humanidade) de que a Economia é incapaz de entender o crescimento sem a interdisciplinaridade, Perez, em seu livro “Technological Revolutions and Financial Capital: the Dynamics of Bubbles and Golden Ages” (Elgar, 2002), desenvolve uma teoria sobre as regularidades históricas na difusão de revoluções tecnológicas, incluindo a articulação de sucessivos paradigmas tecno-econômicos e a recorrência de grandes booms financeiros seguidos de bolhas e quedas, que, por sua vez, dão lugar a períodos de grande prosperidade. Em sua apresentação na “FTTH Conference 2011” (Milão) em Fev/2011, Perez diz que todas as cinco transformações tecnológicas experimentadas pelo capitalismo de mercado desde a revolução industrial no final do século XVIII, trouxeram uma nova infraestrutura para o transporte de bens, energia, pessoas e informações. A primeira trouxe os canais; a segunda, as linhas férreas e o telégrafo; a terceira, as ferrovias de aço intercontinentais, o telégrafo a nível global e o transporte a vapor; e, finalmente, a quarta trouxe a eletricidade, as estradas e as rotas aéreas, e o telefone internacional. Por sua vez, a revolução tecnológica dos dias de hoje trouxe a internet para propiciar a transmissão instantânea e ubíqua de dados, permitindo uma gradual transformação de todos os meios de transporte físico e dos sistemas de geração e distribuição de energia, tornando-os ambientalmente sustentáveis.
Com efeito, Perez insiste no papel fundamental que o acesso verdadeiramente universal à internet de banda larga terá na consolidação de uma era dourada global sustentada e sustentável , demonstrando o quanto a mudança do paradigma da produção em massa para o da sociedade do conhecimento abre caminho para uma perspectiva bem mais promissora para uma economia “verde”: o modo de vida a ser almejado deixará de ser o do consumismo, e passará a envolver mais interação social, mesmo que à distância, e a busca por mais bens intangíveis e menos bens materiais. “Verde” não deve dizer respeito apenas a salvar o planeta, mas também a salvar a economia, e ter uma alta (porém diferente) qualidade de vida. É como se “verde” passasse a ser o modelo da “vida luxuosa”.
Acesso amplo e ilimitado à internet a baixo custo é equivalente à eletrificação e à suburbanização, fundamentais no paradigma anterior, no sentido da facilitação do tipo de demanda que deverá maximizar o crescimento econômico e o bem-estar social. Portanto, o melhor caminho para se chegar a uma recuperação sustentada na economia globalizada é através da construção de um espaço de oportunidades de demanda, nacional e globalmente, favorecendo a lucratividade de inovações “verdes”, aprofundando a globalização e propiciando amplo acesso à internet de qualidade. A combinação das tecnologias da informação e da comunicação, dos princípios fundamentais da economia verde e sustentável, e da globalização seria, segundo Perez, equivalente às condições que trouxeram o boom pós-Segunda Guerra nos EUA e na Europa Ocidental.
Em conversação com Fred Wilson na Web 2.0 Expo NY em 11/10/11, Perez revela que a chegada da era de ouro fruto da revolução tecnológica trazida pela internet depende fundamentalmente da participação mais pró-ativa dos líderes da indústria da tecnologia da informação, no sentido de fazer os governos se darem conta de que não é apenas resolvendo o déficit público ou cedendo às pressões do setor financeiro no sentido de manter o status quo que se vai retomar o crescimento econômico. É preciso fazer prevalecer os valores do novo paradigma e da nova economia. Admitindo que há razões históricas para que o Vale do Silício se mantenha distante de governos, Perez conclama os líderes da indústria das TIC’s a tomar uma posição mais politicamente engajada. É chegada a hora de criar os incentivos e as condições para redirecionar a inovação e para a criação de uma nova visão de qualidade de vida compatíveis com a limitada disponibilidade de recursos naturais, e com o novo paradigma trazido pela revolução tecnológica que estamos atravessando.


Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

domingo, 24 de julho de 2011

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

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O imenso contraste entre, por um lado os números preocupantes do desemprego de Junho revelados há pouco pelo governo americano e, por outro lado, os números recordes de desempenho da Apple, as fabulosas operações de IPO da LinkedIn e da Zillow (levando o emblemático investidor Frank Quattrone a chamar a LinkedIn de “a Netscape da era atual”), traz de volta a discussão em torno do papel da inovação tecnológica na geração de riqueza. Nunca é demais lembrar que através do conceito absolutamente inovador de “internet browser” (“navegador da internet”), a Netscape abriu caminho para uma onda multi-bilionária de criatividade na internet que transformaria praticamente todas as indústrias e vidas de bilhões de pessoas online atualmente. Em 1995 o IPO da Netscape, então uma empresa de 18 meses de idade que ainda não dava lucro, incendiou os mercados financeiros gerando uma das maiores valorizações de ações no primeiro dia de oferta em toda a história das bolsas de valores.
Com sorte de campeã, a Netscape teve seu IPO num momento em que estava se processando uma maior democratização do investimento em bolsa de valores, e, como disse Sarah Lacy em “How We All Missed Web 2.0's "Netscape Moment"” (Techcrunch, 03/04/2011), não foram os bancos de investimento os responsáveis pelo estrondoso sucesso da oferta inicial da Netscape, mas sim os investidores individuais invadindo as corretoras para comprar um exemplar do produto que desejavam e que experimentou valorização tão rápida e dramática no mercado de ações. E o co-fundador da Netscape, Marc Andreessen, hoje investidor anjo e capitalista de ventura, “foi um sinal para todo hacker ou geek de que você poderia mudar para o Vale do Silício e construir algo enorme (e ficar rico) em questão de meses – algo que nunca tinha sido possível antes.”
Aparecendo como um bastião de esperança no cenário econômico dos Estados Unidos, e, como diz Jon Bischke em seu artigo “A Tale Of Two Countries: The Growing Divide Between Silicon Valley And Unemployed America” (Techcrunch, 16/07/2011), uma das poucas coisas que ainda mantêm a expectativa de não deixar que o país perca a posição de uma das maiores superpotências econômicas mundiais, o efervescente setor de tecnologia parece ter retomado o ritmo alucinante de crescimento que se viu nos anos que antecederam o estouro da bolha da internet em 2000. Empresas de crescimento rápido como Facebook, Groupon e Twitter,cujas valorações de mercado atingem níveis estratosféricos, não apenas criam empregos, mas também atraem investimentos estrangeiros e geram enorme riqueza para seus empregados e acionistas que acaba circulando na economia do país. Até o mercado de automóveis de luxo se beneficia da efervescência do setor de tecnologia: em artigo publicado no Wall Street Journal (“Tech Boom Revs Up Demand for Luxury Cars”, 21/07/11), Shayindi Raice relata que no Vale do Silício as concessionárias de carros de luxo experimentam um aumento significativo nas vendas desde o final de Junho.
Muito já se falou dos impactos econômicos da internet, e, entre os fatores apontados por vários estudiosos está o fenômeno da generatividade analisado por Jonathan Zittrain em seu artigo “The Generative Internet” publicado no Harvard Law Review em 2006. Em poucas palavras, Zittrain oferece três razões fundamentais: (1) generatividade é o que faz uma rede global de PC’s interconectados se constituir numa tecnologia tão transformadora; (2) generatividade não é uma característica inerente ou imutável da rede de PC’s que forma a internet, mas sim o resultado de um certo número de decisões de projeto implementadas em código executável, que podem ser modificadas posteriormente; (3) vulnerabilidades de segurança servirão de balizadores cruciais na manutenção de um equilíbrio entre as demandas por maior segurança por parte de consumidores e órgãos governamentais reguladores e as necessidades de abertura fundamentais para manter a plataforma propícia à criatividade e à inovação.
Mais recentemente, Barbara van Schewick em seu livro “Internet architecture and innovation”  (The MIT Press,  Junho 2010) faz uma análise pormenorizada dos princípios que estão por trás das referidas decisões de projeto que têm feito da arquitetura da internet um terreno fértil para a inovação. Em destaque a advertência apontando os impactos econômicos que poderiam advir associados a mudanças na estrutura da internet de uma arquitetura aberta permitindo a qualquer inovador desenhar uma aplicação ou compartilhar um conteúdo para uma estrutura na qual os intermediários (i.e., os provedores de serviço de internet) têm que autorizar o acesso a conteúdo e desenhar as aplicações principais eles próprios. Valendo-se de uma retrospectiva da história da internet, van Schewick vai buscar na teoria econômica o apoio necessário à sua afirmação de que uma internet altamente controlada não apenas constituiria um desvio de sua característica convidativa à inovação, mas também, e infelizmente, resultaria em grandes prejuízos aos interesses econômicos, culturais e políticos da sociedade.
A bem da verdade, acrescenta van Schewick, a arquitetura original da Internet foi baseada em quatro princípios de desenho – modularidade, hierarquia em camadas, e duas versões do muito celebrado porém muito mal-entendido “argumento fim-a-fim” (i.e., o intermediário não decide, apenas repassa). Van Schewick demonstra que esse desenho tem servido de terreno fértil para a inovação em aplicações e permitiu que aplicações e serviços como e-mail, World Wide Web, eBay, Google, Skype, Flickr, Blogger e Facebook emergissem e fossem bem sucedidos. Em última análise, a capacidade da internet de propiciar maior liberdade ao indivíduo, devido à sua característica de plataforma apropriada a uma maior participação democrática, e sua capacidade de alimentar uma cultura mais crítica e auto-reflexiva estão fortemente associadas a características resultantes da versão mais ampla dos chamados argumentos fim-a-fim.
Um dos empreendedores de internet em maior evidência no momento, Reid Hoffman, co-fundador e Executive Chairman da LinkedIn, dá seu testemunho em palestra intitulada “Entrepreneurs Will Create The Future” no encontro “Endeavor Entrepreneur Summit” organizado em San Francisco de 28 a 30 de Junho de 2011. Chamando a atenção para o fato de que o empreendedor hoje tem o papel de criar o futuro, Hoffman sugere alguns princípios básicos que devem ser seguidos por aqueles que almejam navegar pelo processo de empreendedorismo e criação de startups de inovação tecnológica. Para se tornar um empreendedor eficaz, Hoffman recomenda seguir alguns princípios fundamentais: ( 1) buscar sempre por mudanças disruptoras; (2) almejar alto; (3) construir uma rede em torno de seu empreendimento; (4) planejar para a boa e a má sorte; (5) manter uma persistência flexível; (6) lembrar que essas regras são apenas guias e não leis.
Nesse pormenor Hofmann lembra que quase todas as startups bem sucedidas passarão por momentos críticos, os chamados momentos de
“vale da sombra”, quando todos na equipe inicial passam a se perguntar “por que é que essa é uma boa idéia?”. E aí é preciso entender como lidar com o processo de agir com “persistência flexível”, ou seja, adotar uma postura “pivotante” (i.e., girando em torno de um pivô): além de um plano A e um plano B, é preciso vislumbrar um plano Z na eventual necessidade de vender ou mesmo fechar a empresa.
Seja lá qual for o plano adotado, o fato é que, como diz Hoffman, empreendedores devem assumir o papel dos pioneiros modernos da era atual, no sentido de que devem estar procurando enxergar oportunidades e trazer produtos e serviços que permitam a sociedade inventar e se adaptar ao futuro, especialmente num momento de grandes mudanças como o aquecimento global, mudanças no mercado financeiro, e globalização.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE