sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Insolubilidade de Problemas Matemáticos e os Limites da Mente Humana


SEX, 20 DE JULHO DE 2012 01:57

Imagine o desafio de ter que mostrar que um dado problema da Matemática é insolúvel! Em alguns casos um tanto lendários, foram necessários mais de 2 mil anos para vencer o desafio. Já na Grécia antiga, matemáticos buscavam por métodos sistemáticos para resolver problemas geométricos tais como, usando apenas régua e compasso, dividir um dado ângulo em três partes iguais, transformar um círculo num quadrado de mesma área, ou dobrar um cubo (construir um outro cubo com o dobro de seu volume). Somente em 1837, o matemático francês Pierre Wantzel (1814-1848), mostrou que não existe método sistemático para trissectar um ângulo, tampouco para dobrar um cubo.

Que tal o desafio ainda maior de mostrar que não existe um método sistemático para decidir uma questão matemática expressa numa linguagem formal e precisa tal qual a lógica simbólica? Esse foi o desafio posto por um ícone da Matemática do século XX: em 1928, o matemático alemão David Hilbert (1862-1943) propôs a busca por um método geral para, ao receber um enunciado matemático representado numa linguagem formal e precisa como a lógica simbólica, descobrir se o enunciado era verdadeiro ou falso. Apropriadamente, esse problema ficou conhecido como o “problema de decisão”.
Muitos acreditavam que seria impossível haver um método geral para decidir toda e qualquer questão da Matemática, entre eles o matemático G.H. Hardy (1877–1947), de Cambridge, que se dizia esperançoso com a confirmação da impossibilidade, pois se houvesse “teríamos um conjunto mecânico de regras para a solução de todos os problemas matemáticos, e nossas atividades como matemáticos chegaria ao fim”. Para Hilbert, no entanto, seria apenas uma questão de tempo até que a Matemática encontrasse uma solução para o “problema de decisão”, pois, “para o matemático não existe o Ignorabimus... A verdadeira razão por que ninguém conseguiu encontrar um problema insolúvel é que, na minha opinião, não existe problema insolúvel” (1930). Essa era a sua resposta ao lema “Ignoramus et Ignorabimus” (“não sabemos e não saberemos”) enunciado em 1872 por seu compatriota, o fisiologista Emil du Bois-Reymond (1818-1916), exprimindo a crença nos limites do saber científico.

O método, ou “algoritmo”, pelo qual Hilbert procurava seria capaz de decidir, por exemplo, se questões antigas e tradicionalmente difíceis tais como a conjectura de Goldbach ou a hipótese de Riemann, são verdadeiras, ainda que nenhuma prova ou refutação desses enunciados fosse conhecida. Naturalmente, antes que a questão da solubilidade do “problema de decisão” pudesse ser resolvida, a noção de algoritmo tinha que ser matematicamente definida. Afinal de contas, apesar do conceito de algoritmo existir desde a antiguidade grega com o surgimento do método de Euclides para encontrar o máximo divisor comum de dois números, em pleno século XX não se tinha uma definição precisa, matemática, do que seria um algoritmo. Daí a inviabilidade de se demonstrar matematicamente a inexistência de um algoritmo para resolver o “problema de decisão”.

E aí entra em cena um personagem crucial no que veio a ser uma transformação radical na história do conhecimento científico. Alan Turing (1912-1954), matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação britânico, obcecado desde 1935 com a ideia de demonstrar matematicamente a insolubilidade do “problema de decisão”, foi fundamental no desenvolvimento da ciência da computação e proporcionou uma formalização do conceito de algoritmo, através do modelo matemático idealizado que ficou conhecido como "máquina de Turing". Tendo desempenhado importante papel na quebra do código criptográfico da máquina ENIGMA utilizada pelo exército alemão na Segunda Guerra Mundial, passou de herói de guerra a um fora-da-lei sujeito a tratamento quimico-hormonal forçado devido a sua homossexualidade, prática considerada ilegal à sua época na Grâ-Bretanha.
Encontrado morto em cenário indicativo de suicídio, Turing foi de fundamental importância na consolidação da ciência da computação, da noção de máquina universal, assim como da teoria da decidibilidade de problemas matemáticos, abrindo caminho para a demonstração de que certos problemas da Matemática são, de fato, insolúveis. A grande questão para Turing, no entanto, era saber se os limites do que pode fazer a mente humana seriam os mesmos que os limites do que uma máquina poderia fazer. Seríamos máquinas, e, em caso negativo, o que nos distinguiria delas?

Alguns subprodutos de sua investigação teórica, tais como o computador de propósito geral e a noção de inteligência artificial, serviram de base para os que alguns, tais como Luciano Floridi em “Philosophy of Information” (Oxford Univ Press, 2011), chamam de "Quarta Revolução Tecnológica - A Revolução da Informação". Na Primeira Revolução, Nicolau Copérnico mostrou que não estamos no centro do universo. Porém, seríamos ao menos seres privilegiados. Na Segunda Revolução, no entanto, Charles Darwin revelou que não somos animais superiores e totalmente desconectados dos outros animais. O consolo seria acreditar que nós humanos seríamos os únicos seres racionais. Veio a Terceira Revolução com Sigmund Freud trazendo a constatação de que não somos seres totalmente racionais. Restaria o orgulho de que, no plano das idéias, não haveria limites para os humanos. Qual o que: na Quarta Revolução, Alan Turing demonstra que existem problemas matemáticos insolúveis. E agora?
A bem da verdade, antes de Turing outros personagens da história da ciência moderna já questionavam a possibilidade de se alcançar a certeza científica.

Em filme documentário de rara excelência, tanto no que diz respeito à forma quanto ao que concerne o conteúdo, intitulado “Conhecimento Perigoso”, e originalmente exibido na BBC 4 em 08/08/2007, o jornalista britânico David Malone conta a história de quatro mentes brilhantes, entre eles Alan Turing, cuja busca obsessiva pelos limites da certeza científica os levou à beira da loucura e da autodestruição. O roteiro começa por Georg Cantor (1845-1918), matemático de origem germânica cujas teorias sobre infinitudes revelaram profundos paradoxos e abismos lógicos nos fundamentos da Matemática, além de confirmar matematicamente a existência de números “transcendentais” tais como o número pi. A seguir, Malone aborda as revelações sobre a incerteza na Física trazidas à tona pelo austríaco Ludwig Boltzmann (1844-1906), um dos principais responsáveis pela introdução do conceito de entropia, medida matemática da imprevisibilidade de um sistema dinâmico. Antes de chegar a Turing, o filme relata a saga de um outro brilhante pensador austríaco, Kurt Gödel (1906-1978), na busca por uma prova de impossibilidade de um outro problema proposto por Hilbert, a demonstração matemática de que a aritmética era consistente. Em 1930 Gödel mostra que há enunciados na aritmética que não podem ser verdadeiros e demonstráveis ao mesmo tempo, indicando que nem toda verdade matemática dispõe de uma prova.

Para Turing, no entanto, as incursões de Cantor e Gödel no universo das infinitudes e das verdades indemonstráveis da Matemática que abalaram os fundamentos da certeza científica se tornaram questões sobre a mente humana. Em 1950, Turing procura uma resposta científica à pergunta: máquinas podem pensar? Reconhecendo a dificuldade de se chegar a um acordo sobre o que significa pensar, Turing propõe um experimento que hoje é conhecido como Teste de Turing: ponha-se um humano conversando, por meio de terminal, com uma máquina e um humano, sem saber quem é a máquina, e que pretende distinguí-los, podendo fazer qualquer tipo de pergunta a cada um deles, cuja resposta pode ou não ser verdadeira. Segundo Turing, a resposta à pergunta se a máquina pode pensar será respondida na afirmativa se ela puder imitar um ser humano nas suas respostas, e, portanto, impedir que o humano do outro lado consiga distinguí-la de um ser humano. Esse é o chamado “jogo da imitação”.

Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Startups escaláveis e a experimentação com modelos de negócio


Startups escaláveis e a experimentação com modelos de negócio

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Indo além do impressionante histórico de geração de riqueza através da criação de produtos tecnologicamente inovadores invariavelmente baseada no conhecimento científico agregado pela intensa participação da academia, o Vale do Silício parece estar inaugurando uma nova fase na fabulosa transformação da humanidade que se processa sobretudo desde os tempos de Bob Noyce e os pioneiros da revolução digital. Trata-se da aplicação do método científico ao desenvolvimento de modelos de negócio. Experimentação, definição e aplicação de métricas, tentativa e erro, redução da incerteza, desenvolvimento e refinamento de modelos, tudo o que tem sido até agora aplicado ao desenvolvimento de produtos, passa a ser usado na criação e na validação de modelos de negócio. E o objetivo é bem claro: reduzir a mortalidade dos empreendimentos nascentes de inovação tecnológica, as chamadas “startups”, maiores responsáveis pela criação de novos postos de trabalho nos EUA, e pela espetacular capacidade de geração de riqueza que faz daquela região da Baía de San Francisco uma referência mundial no que concerne à alavancagem de empreendimentos baseada na exploração do conhecimento científico na criação de valor econômico.
É bem verdade que o termo “startup” tem um significado especial no Vale do Silício: ao invés de simplesmente “empresa nascente”, que em geral se refere a novas e pequenas empresas com modelo de negócio conhecido, o que prevalece ali no território da inovação tecnológica é o sentido mais ambicioso traduzido no acréscimo do adjetivo “escalável”. Uma startup escalável busca atender a demandas de larga escala, a “transformar o mundo” com a oferta de serviços ou produtos inovadores, ainda que não esteja bem claro para seus fundadores como viabilizar o empreendimento. Tipicamente, uma startup requer capital de risco, e, diferentemente de uma empresa nascente não-escalável, consegue atrair esse tipo de capital em razão do alto retorno que tende a dar a seus investidores. “Uma startup é uma organização temporária utilizada para buscar por um modelo de negócio escalável e reprodutível”, é como define Steve Blank em sua palestra “The Democratization of Entrepreneurship”, em 02/03/2011 na Conferência sobre Empreendedorismo, realizada na Graduate School of Business, Stanford.
Em tempos de diminuição das barreiras tradicionais para se atingir escala, de abreviação dos ciclos de vida de produto, e de redução dramática dos custos de se iniciar novos negócios na área de tecnologia da informação, é natural que as oportunidades para o empreendedorismo tenham se expandido. Em sua palestra, Steve Blank, autor do bestseller “The Four Steps to the Epiphany” (Cafepress.com, 2005) e co-autor (com Bob Dorf) do ainda a ser lançado “The Startup Owner's Manual” (K & S Ranch, Março 2012) e uma autoridade mundial no modelo de empreendedorismo conhecido como “Desenvolvimento de Cliente” (em inglês, “Customer Development”), faz questão de enfatizar que startups buscam por modelos de negócio, enquanto que empresas já existentes os executam. Daí, para maximizar as chances de sucesso de uma startup é preciso experimentar com modelos de negócio, e testar continuamente o produto ou serviço, adaptando e ajustando antes que sejam desperdiçados recursos preciosos (capital, tempo, esforço humano) para se produzir algo que não terá clientela. Ao invés de adotar a tradicional estratégia de seguir um plano de negócio e trabalhar em modo sutil até que o produto idealizado esteja completamente disponível, o método de Desenvolvimento de Cliente preconiza mais agilidade: uma vez obtido um “produto mínimo viável” (“minimum viable product”), é importante “sair do prédio” para buscar feedback do cliente sobre o produto, suas características e funcionalidades, iterando e pivotando produto e modelo de negócio à medida que se aprende com o processo.
Como diz Eric Ries, empreendedor e autor do recém-lançado e já bestseller “The Lean Startup: How Today's Entrepreneurs Use Continuous Innovation to Create Radically Successful Businesses” (Crown Business, Setembro 2011), a maioria das startups fracassam, e uma grande parte das que sobrevivem acaba sendo adquirida por empresas maiores. Porém, ao que tudo indica, a maioria desses fracassos são evitáveis, e quase sempre seu calcanhar de Aquiles é a falta de clientes, independentemente da qualidade do produto. Aliás, muitos são os especialistas que têm chamado a atenção para o fato de que excelentes produtos estão se tornando cada vez mais uma commodity. Sendo assim, a combinação de excelentes produtos com ótimos modelos de negócio é que fará a diferença no mundo competitivo da inovação tecnológica.  
Segundo Ries, “uma startup é uma instituição humana desenhada para entregar um novo produto ou serviço sob condições de extrema incerteza”. Daí, a fórmula “lean”, com sua ênfase na constante busca por um casamento perfeito entre o produto e o cliente, baseia-se essencialmente na idéia de que startups são hipóteses, e que é preciso aplicar “o método científico na identificação da oportunidade de mercado.” O redirecionamento do produto em resposta a resultados não exatamente positivos faz parte do que se denomina de “pivô”: mudando a estratégia sem mudar a visão, nas palavras de Ries.
O problema é que a falta de uma definição precisa do que é um modelo de negócio dificulta a criação de ferramentas de experimentação. Justo com o intuito de preencher essa lacuna, é que Alexander Osterwalder, em sua tese de Doutorado intitulada “The Business Model Ontology - A Proposition in a Design Science Approach” (Universidade de Lausanne, Suíça, 2004), propõe uma ontologia de modelos de negócio definindo a semântica e os relacionamentos entre nove elementos básicos: segmentos de cliente, proposição de valor, canais, relacionamentos com o cliente, fluxos de receita, atividades, recursos, parceiros, e estrutura de custo. Com isso deu um grande passo para, não apenas transformar em algo mais concreto o conceito de modelo de negócio, mas também prover os subsídios necessários para a criação de ferramentas de software para manipulação e teste de modelos de negócio.  O material da tese acabou evoluindo para um texto menos carregado de linguagem acadêmica no bestseller “Business Model Generation: A Handbook for Visionaries, Game Changers, and Challengers”, de Alexander Osterwalder e Yves Pigneur (Wiley, Julho 2010). Recorrendo a uma linguagem visual, os autores definem uma diagramação específica desses elementos ontológicos numa página à qual se referem como “business model canvas” (“tela de modelo de negócio”), e daí estabelecem uma ferramenta gráfica para sistematicamente criar, representar, experimentar, avaliar e validar modelos de negócio.
Durante sua palestra “Tools for Business Model Generation”, em 26/01/2012 na Entrepreneurial Thought Leaders Lecture Series, Stanford, Osterwalder demonstra como, com auxílio de um aplicativo para iPad, é possível experimentar com modelos de negócio de uma forma descomplicada: desenhar, testar, criar e validar hipóteses, tudo isso através de uma linguagem visual de fácil entendimento. Tal qual ocorre na prática da pesquisa científica, a experimentação de hipóteses acompanhada de mecanismos de validação permite que padrões sejam revelados, correspondendo, nesse caso, às categorias de modelos de negócios.
Seria essa disponibilização de ferramentas automatizadas de geração e experimentação de modelos de negócio um divisor de águas no quesito “democratização do empreendedorismo”?


Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Bolhas, crises e prosperidade em revoluções tecnológicas


Bolhas, crises e prosperidade em revoluções tecnológicas

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 Em meio a uma turbulência significativa na economia mundial, o que tem se observado desde o início do ano de 2011 no Vale do Silício é uma verdadeira corrida ao ouro da inovação tecnológica, alimentada por gigantes da mídia social tais como Facebook, Twitter e LinkedIn, esta última alcançando em 2011, em seu dia de oferta pública inicial, a quinta maior valorização de ações em um só dia desde o estouro da bolha da internet. Empreendedorismo de internet, se é que assim se pode chamar essa nova frente de oportunidades e de pioneirismo, virou uma espécie de febre, e a criação de startups se transformou em algo “na crista da onda”. Como diz o investidor e blogueiro Fred Wilson, o empreendedorismo está em voga, inovadores estão inovando, investidores estão investindo, e, apesar de alguns sinais de retração na oferta de capital de risco, como relata o artigo “Web Start-Ups Hit Cash Crunch” (Wall Street Journal, 13/10/11) de Pui-Wing Tam, o clima ainda é bastante favorável.
A média das valorações das novas empresas de internet, que andavam nas alturas até bem pouco tempo, andou perdendo terreno, como lembra Naval Ravikant, empreendedor e fundador da rede social AngelList que serve de ponto de encontro entre empreendedores e investidores-anjo. Chamando a atenção para as possíveis semelhanças com o que ocorreu no final dos anos 1990’s quando o boom das empresas ponto-com começou a dar sinais de fraqueza e as pequenas startups se depararam com a dificuldade de levantar financiamento, a matéria do WSJ aponta para um possível descompasso fundamental: enquanto uma multidão de empresas de internet teriam sido fundadas recentemente, não haveria capital de ventura suficiente para alimentar toda essa nova geração de startups.
Uma visão mais otimista tem Fred Wilson (“What We Are Seeing”, AVC.com, 13/10/11): é normal que a dificuldade de obter financiamento esteja alta, pois, além do altissimo nível de competitividade do mercado de startups – o número de startups buscando capital de ventura praticamente triplicou nos últimos dois anos – por um lado, os VCs têm encontrado muita dificuldade para levantar capital, e, por outro lado, o investimento vindo de anjos parece estar passando por uma fase menos abundante. Aliado a tudo isso, o investimento em empresas de internet passa por um período de transformações: se nos últimos três a quatro anos a ênfase era no aspecto social (e não poderia ser diferente diante da evolução de Facebook e Twitter), sem contar que a computação móvel tem atraído grande parcela da atenção, hoje o investidor parece estar migrando para novas áreas como computação em nuvem, mercados peer-to-peer, e a adaptação para o mundo corporativo do que funcionou bem no universo do consumidor. Segundo Wilson, não há falta de interesse no investimento em empresas de internet, mas o investidor está se vendo obrigado a aprender a lidar com novos mercados e novos setores, e essa transição parece aliviar um pouco do calor de um mercado superaquecido.
Em 2011, houve, de fato, muita discussão em torno do possível superaquecimento do mercado de empresas de internet, dados os valores estratosféricos atribuídos a determinadas startups em busca de rodadas de investimento. Não obstante, em artigo de 26/05/11 (“Fight Of The Titans”), Carlota Perez, economista e destacada estudiosa da inovação da linha Schumpeteriana e defensora do paradigma da “destruição criativa” (“creative destruction”), já advertia que o atual momento não se caracteriza como uma bolha, mas como um sinal da importância da indústria da internet para o século XXI. A grande bolha do mercado de tecnologia que estourou em 2000 foi, segundo Perez, um experimento em grandes proporções, que sempre acontece entre o período de instalação e a fase de emprego de toda revolução tecnológica. Além de permitir que o mercado propicie a troca da velha pela nova economia e decida quem serão os vencedores nesse novo cenário, é nesse período que as novas infraestruturas são instaladas e financiadas antes que se tornem lucrativas.
Bem no espírito do que pregava Chris Freeman (economista inglês, 1921-2010, responsável pela retomada da tradição neo-Schumpeteriana, e defensor do papel crucial da inovação no desenvolvimento econômico assim como das atividades científicas e tecnológicas para o bem-estar da humanidade) de que a Economia é incapaz de entender o crescimento sem a interdisciplinaridade, Perez, em seu livro “Technological Revolutions and Financial Capital: the Dynamics of Bubbles and Golden Ages” (Elgar, 2002), desenvolve uma teoria sobre as regularidades históricas na difusão de revoluções tecnológicas, incluindo a articulação de sucessivos paradigmas tecno-econômicos e a recorrência de grandes booms financeiros seguidos de bolhas e quedas, que, por sua vez, dão lugar a períodos de grande prosperidade. Em sua apresentação na “FTTH Conference 2011” (Milão) em Fev/2011, Perez diz que todas as cinco transformações tecnológicas experimentadas pelo capitalismo de mercado desde a revolução industrial no final do século XVIII, trouxeram uma nova infraestrutura para o transporte de bens, energia, pessoas e informações. A primeira trouxe os canais; a segunda, as linhas férreas e o telégrafo; a terceira, as ferrovias de aço intercontinentais, o telégrafo a nível global e o transporte a vapor; e, finalmente, a quarta trouxe a eletricidade, as estradas e as rotas aéreas, e o telefone internacional. Por sua vez, a revolução tecnológica dos dias de hoje trouxe a internet para propiciar a transmissão instantânea e ubíqua de dados, permitindo uma gradual transformação de todos os meios de transporte físico e dos sistemas de geração e distribuição de energia, tornando-os ambientalmente sustentáveis.
Com efeito, Perez insiste no papel fundamental que o acesso verdadeiramente universal à internet de banda larga terá na consolidação de uma era dourada global sustentada e sustentável , demonstrando o quanto a mudança do paradigma da produção em massa para o da sociedade do conhecimento abre caminho para uma perspectiva bem mais promissora para uma economia “verde”: o modo de vida a ser almejado deixará de ser o do consumismo, e passará a envolver mais interação social, mesmo que à distância, e a busca por mais bens intangíveis e menos bens materiais. “Verde” não deve dizer respeito apenas a salvar o planeta, mas também a salvar a economia, e ter uma alta (porém diferente) qualidade de vida. É como se “verde” passasse a ser o modelo da “vida luxuosa”.
Acesso amplo e ilimitado à internet a baixo custo é equivalente à eletrificação e à suburbanização, fundamentais no paradigma anterior, no sentido da facilitação do tipo de demanda que deverá maximizar o crescimento econômico e o bem-estar social. Portanto, o melhor caminho para se chegar a uma recuperação sustentada na economia globalizada é através da construção de um espaço de oportunidades de demanda, nacional e globalmente, favorecendo a lucratividade de inovações “verdes”, aprofundando a globalização e propiciando amplo acesso à internet de qualidade. A combinação das tecnologias da informação e da comunicação, dos princípios fundamentais da economia verde e sustentável, e da globalização seria, segundo Perez, equivalente às condições que trouxeram o boom pós-Segunda Guerra nos EUA e na Europa Ocidental.
Em conversação com Fred Wilson na Web 2.0 Expo NY em 11/10/11, Perez revela que a chegada da era de ouro fruto da revolução tecnológica trazida pela internet depende fundamentalmente da participação mais pró-ativa dos líderes da indústria da tecnologia da informação, no sentido de fazer os governos se darem conta de que não é apenas resolvendo o déficit público ou cedendo às pressões do setor financeiro no sentido de manter o status quo que se vai retomar o crescimento econômico. É preciso fazer prevalecer os valores do novo paradigma e da nova economia. Admitindo que há razões históricas para que o Vale do Silício se mantenha distante de governos, Perez conclama os líderes da indústria das TIC’s a tomar uma posição mais politicamente engajada. É chegada a hora de criar os incentivos e as condições para redirecionar a inovação e para a criação de uma nova visão de qualidade de vida compatíveis com a limitada disponibilidade de recursos naturais, e com o novo paradigma trazido pela revolução tecnológica que estamos atravessando.


Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

domingo, 24 de julho de 2011

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

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O imenso contraste entre, por um lado os números preocupantes do desemprego de Junho revelados há pouco pelo governo americano e, por outro lado, os números recordes de desempenho da Apple, as fabulosas operações de IPO da LinkedIn e da Zillow (levando o emblemático investidor Frank Quattrone a chamar a LinkedIn de “a Netscape da era atual”), traz de volta a discussão em torno do papel da inovação tecnológica na geração de riqueza. Nunca é demais lembrar que através do conceito absolutamente inovador de “internet browser” (“navegador da internet”), a Netscape abriu caminho para uma onda multi-bilionária de criatividade na internet que transformaria praticamente todas as indústrias e vidas de bilhões de pessoas online atualmente. Em 1995 o IPO da Netscape, então uma empresa de 18 meses de idade que ainda não dava lucro, incendiou os mercados financeiros gerando uma das maiores valorizações de ações no primeiro dia de oferta em toda a história das bolsas de valores.
Com sorte de campeã, a Netscape teve seu IPO num momento em que estava se processando uma maior democratização do investimento em bolsa de valores, e, como disse Sarah Lacy em “How We All Missed Web 2.0's "Netscape Moment"” (Techcrunch, 03/04/2011), não foram os bancos de investimento os responsáveis pelo estrondoso sucesso da oferta inicial da Netscape, mas sim os investidores individuais invadindo as corretoras para comprar um exemplar do produto que desejavam e que experimentou valorização tão rápida e dramática no mercado de ações. E o co-fundador da Netscape, Marc Andreessen, hoje investidor anjo e capitalista de ventura, “foi um sinal para todo hacker ou geek de que você poderia mudar para o Vale do Silício e construir algo enorme (e ficar rico) em questão de meses – algo que nunca tinha sido possível antes.”
Aparecendo como um bastião de esperança no cenário econômico dos Estados Unidos, e, como diz Jon Bischke em seu artigo “A Tale Of Two Countries: The Growing Divide Between Silicon Valley And Unemployed America” (Techcrunch, 16/07/2011), uma das poucas coisas que ainda mantêm a expectativa de não deixar que o país perca a posição de uma das maiores superpotências econômicas mundiais, o efervescente setor de tecnologia parece ter retomado o ritmo alucinante de crescimento que se viu nos anos que antecederam o estouro da bolha da internet em 2000. Empresas de crescimento rápido como Facebook, Groupon e Twitter,cujas valorações de mercado atingem níveis estratosféricos, não apenas criam empregos, mas também atraem investimentos estrangeiros e geram enorme riqueza para seus empregados e acionistas que acaba circulando na economia do país. Até o mercado de automóveis de luxo se beneficia da efervescência do setor de tecnologia: em artigo publicado no Wall Street Journal (“Tech Boom Revs Up Demand for Luxury Cars”, 21/07/11), Shayindi Raice relata que no Vale do Silício as concessionárias de carros de luxo experimentam um aumento significativo nas vendas desde o final de Junho.
Muito já se falou dos impactos econômicos da internet, e, entre os fatores apontados por vários estudiosos está o fenômeno da generatividade analisado por Jonathan Zittrain em seu artigo “The Generative Internet” publicado no Harvard Law Review em 2006. Em poucas palavras, Zittrain oferece três razões fundamentais: (1) generatividade é o que faz uma rede global de PC’s interconectados se constituir numa tecnologia tão transformadora; (2) generatividade não é uma característica inerente ou imutável da rede de PC’s que forma a internet, mas sim o resultado de um certo número de decisões de projeto implementadas em código executável, que podem ser modificadas posteriormente; (3) vulnerabilidades de segurança servirão de balizadores cruciais na manutenção de um equilíbrio entre as demandas por maior segurança por parte de consumidores e órgãos governamentais reguladores e as necessidades de abertura fundamentais para manter a plataforma propícia à criatividade e à inovação.
Mais recentemente, Barbara van Schewick em seu livro “Internet architecture and innovation”  (The MIT Press,  Junho 2010) faz uma análise pormenorizada dos princípios que estão por trás das referidas decisões de projeto que têm feito da arquitetura da internet um terreno fértil para a inovação. Em destaque a advertência apontando os impactos econômicos que poderiam advir associados a mudanças na estrutura da internet de uma arquitetura aberta permitindo a qualquer inovador desenhar uma aplicação ou compartilhar um conteúdo para uma estrutura na qual os intermediários (i.e., os provedores de serviço de internet) têm que autorizar o acesso a conteúdo e desenhar as aplicações principais eles próprios. Valendo-se de uma retrospectiva da história da internet, van Schewick vai buscar na teoria econômica o apoio necessário à sua afirmação de que uma internet altamente controlada não apenas constituiria um desvio de sua característica convidativa à inovação, mas também, e infelizmente, resultaria em grandes prejuízos aos interesses econômicos, culturais e políticos da sociedade.
A bem da verdade, acrescenta van Schewick, a arquitetura original da Internet foi baseada em quatro princípios de desenho – modularidade, hierarquia em camadas, e duas versões do muito celebrado porém muito mal-entendido “argumento fim-a-fim” (i.e., o intermediário não decide, apenas repassa). Van Schewick demonstra que esse desenho tem servido de terreno fértil para a inovação em aplicações e permitiu que aplicações e serviços como e-mail, World Wide Web, eBay, Google, Skype, Flickr, Blogger e Facebook emergissem e fossem bem sucedidos. Em última análise, a capacidade da internet de propiciar maior liberdade ao indivíduo, devido à sua característica de plataforma apropriada a uma maior participação democrática, e sua capacidade de alimentar uma cultura mais crítica e auto-reflexiva estão fortemente associadas a características resultantes da versão mais ampla dos chamados argumentos fim-a-fim.
Um dos empreendedores de internet em maior evidência no momento, Reid Hoffman, co-fundador e Executive Chairman da LinkedIn, dá seu testemunho em palestra intitulada “Entrepreneurs Will Create The Future” no encontro “Endeavor Entrepreneur Summit” organizado em San Francisco de 28 a 30 de Junho de 2011. Chamando a atenção para o fato de que o empreendedor hoje tem o papel de criar o futuro, Hoffman sugere alguns princípios básicos que devem ser seguidos por aqueles que almejam navegar pelo processo de empreendedorismo e criação de startups de inovação tecnológica. Para se tornar um empreendedor eficaz, Hoffman recomenda seguir alguns princípios fundamentais: ( 1) buscar sempre por mudanças disruptoras; (2) almejar alto; (3) construir uma rede em torno de seu empreendimento; (4) planejar para a boa e a má sorte; (5) manter uma persistência flexível; (6) lembrar que essas regras são apenas guias e não leis.
Nesse pormenor Hofmann lembra que quase todas as startups bem sucedidas passarão por momentos críticos, os chamados momentos de
“vale da sombra”, quando todos na equipe inicial passam a se perguntar “por que é que essa é uma boa idéia?”. E aí é preciso entender como lidar com o processo de agir com “persistência flexível”, ou seja, adotar uma postura “pivotante” (i.e., girando em torno de um pivô): além de um plano A e um plano B, é preciso vislumbrar um plano Z na eventual necessidade de vender ou mesmo fechar a empresa.
Seja lá qual for o plano adotado, o fato é que, como diz Hoffman, empreendedores devem assumir o papel dos pioneiros modernos da era atual, no sentido de que devem estar procurando enxergar oportunidades e trazer produtos e serviços que permitam a sociedade inventar e se adaptar ao futuro, especialmente num momento de grandes mudanças como o aquecimento global, mudanças no mercado financeiro, e globalização.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

domingo, 17 de abril de 2011

A Ascensão dos Anjos e a Democratização do Acesso a Investidores


A Ascensão dos Anjos e a Democratização do Acesso a Investidores

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Também no universo naturalmente concentrador de poder e riqueza que é a indústria do investimento de capital de risco em inovação tecnológica, eis que aparece mais uma vez o efeito democratizante da internet e das mídias sociais. Uma rede social chamada AngelList, criada especificamente para propiciar um meio de comunicação entre empreendedores e investidores, está causando uma reviravolta no Vale do Silício. Agindo como se fosse uma rede de busca de parceiros amorosos, nesse caso entre startups e investidores-anjo, o site combina o fazer negócios com o uso de perfis em redes sociais para torná-lo “a maior inovação na indústria do capital de ventura desde que Paul Graham fundou a Y-Combinator cinco anos atrás”, segundo Dave McClure. Mais de 1.500 investidores já se registraram no site, incluindo cerca de 400 capitalistas de ventura. A grande maioria é constituída de investidores-anjo, termo associado àqueles que adquirem participação societária numa empresa jovem usando seu próprio dinheiro. A AngelList propicia maior visibilidade para um grande número de startups que têm que passar pelo processo de levantar capital, e que, sem esse novo canal de comunicação, não teria praticamente nenhum acesso a investidores.
O fato é que Vale do Silício tem testemunhado um significativo deslocamento do eixo de poder desde que a última grande bolha economico-financeira estourou, e, mais especificamente, nos últimos 18 meses. Empreendedores e investidores outrora membros do “baixo clero” tais como anjos, super-anjos, capitalistas de ventura de micro-capitalização, e incubadoras semente, estão começando a dar as cartas no cenário de investimento em empresas de web para o consumidor no estágio inicial. E, ao que tudo indica, trata-se de uma mudança definitiva, pois as próprias startups dos dias de hoje se diferenciam significativamente daquelas do início dos anos 2000. Como observa Naval Ravikant, co-fundador da AngelList, em palestra intitulada “The RiseoftheAngels” hospedada pela Capital Factory em Outubro de 2010, há uma clara ascensão dos investidores-anjo como consequência da ascensão dos empreendedores. E estes trazem novas exigências aos investidores: decisões independentes e rápidas, manutenção do controle da empresa, direito de vender, valorização dos relacionamentos entre pares, conhecimento específico, adiantamento do investimento em espécie.
Observa-se a formação de um novo ecossistema ao qual as startups terão que se adaptar. Um dos principais fatores para que essa mudança venha a ser concretizada foi a diminuição do nível de investimento mínimonecessário para se criar uma empresa no setor de web para o consumidor, caindo do patamar de milhões para centenas de milhares de dólares. E essa queda de patamar se justifica na medida em que alguns avanços tecnológicos se popularizaram: (i) os sistemas aplicativos podem ser hospedados “na nuvem” em servidores da Amazon, da Google, ou mesmo da Rackspace; (ii) os esforços de relações públicas podem ser alavancados com ajuda de Twitter e Facebook; e, não menos importante, (iii) as estratégias de vendas e de formação de uma carteira de clientes têm o suporte de plataformas de “software como serviço” tais como a Salesforce.com.
Dado que empreendedores carecem de bem menos capital que em outras épocas, é natural que a oferta de investidores seja maior, além do fato de que aspirantes a investidor-anjo passam a ter condições de atuar e causar impacto num segmento que há algum tempo atrás era dominado por altos investimentos. Entre esses aspirantes a investidor-anjo estão ex-funcionários de grandes empresas como Google e Facebook que saem com algum capital em mãos e, ao buscar opções de investimento, se dão conta de que o melhor retorno ainda reside em investir em inovação tecnológica.
Em decorrência desse estado de coisas, tudo aponta para uma nova bolha de investimentos no setor de tecnologia, sobretudo no seio da internet. Em 2010, os investimentos de risco (capital de ventura) cresceram pela primeira vez desde 2007. O volume de investimentos em empresas no estágio inicial cresceu 15 por cento em relação ao ano anterior, registrando o primeiro aumento desde 2007, segundo a National Venture Capital Association. E se há um segmento que parece estar atraindo todas as atenções no mercado de investimentos de risco, esse é sem dúvida o grupo de empresas que se encontram entre o estágio semente e o estágio inicial. Um espaço tradicionalmente ocupado pelos investidores-anjo passa agora a ser disputado por VC’s (capitalistas de ventura), por novos milionários, e até pelos chamados “super-anjos”. Emblemático é o fato de um nome de grande tradiçãona indústria do capital de ventura, tal como a Greylock,ter lançado recentemente seu “Discovery Fund” destinado a investir quantias tão pequenas quanto 25 mil dólares em startups.
Com todo esse movimento, é natural que as avaliações de preço de mercado têm subido assustadoramente. Segundo Dave McClure (prolífico investidor-anjo convertido em capitalista de ventura), além da investida dos VC’s, que, por tradição, são menos sensíveis a preços, no terreno do investimento sementehá de fato mais dinheiro disponível e menos oportunidades para empregar toda essa riqueza. No momento atual da economia mundial, investimentos em imóveis e em papéis do governo se revelam pouco atraentes, daí o aparecimento de uma bolha global em setores de menor risco, e, curiosamente, um portfólio diversificado de startups de repente parecer relativamente menos arriscado até mesmo do que letras do governo, o que não acontecia há dois anos atrás. Some-se a isso o fato de que, em função da redução drástica de custos para a criação de uma startup (comoditização da tecnologia, computação em nuvem, acesso à clientela através das redes sociais, etc.), sem falar na alavancagem praticamente gratuita oferecida por plataformas como iOS, Android, Facebook,Twitter, Google, Amazon, empreendedores estão conseguindo realizar mais, mesmo antes de levantar recursos de investidores.
Em artigo no seu blog Startupboy.com intitulado “Thereis No Angel Bubble. There are Many Angel Bubbles” (01/12/2010), Naval Ravikant diz que as avaliações de startups com fins de recebimento de investimento-anjo têm subido muito rapidamente, e, talvez, de forma insustentável. Para se ter uma idéia, conta Ravikant, vinte empresas do portfólio de um investidor avaliadas em X dólares podem hoje subitamente representar vinte pequenas bolhas numa avaliação de 2 vezes. Pode não ser possível viabilizar essas valorações numa micro-aquisição, ou mesmo levar a uma redução de valor numa rodada de financiamento de capital de ventura. Pode acontecer também que esses investimentos acabem dando um retorno abaixo da média para o que parecia candidatos a sucesso. O fato é que os preços têm subido, e isso vai atingir o retorno no investimento, afirma Navikant.
E a subida dos preços não se deve a uma enorme entrada de dinheiro, mas devido a um influxo modesto de dinheiro insensível a preços. Um pequeno número de investimentos-anjo de alta repercussão fazendo movimentar pequenas quantidades de capital porém com base em valorações muito altas pode fazer com que o mercado como um todo pareça oferecer valorações exageradas. Seriam essencialmente três as razões que têm guiado esses investidores insensíveis a preços: (1) fundos de capital de ventura – todo capitalista de ventura que anuncia um fundo semente de 20 milhões seria essencialmente um super-anjo insensível a preço; (2) empreendedores estabelecem os preços – rodadas de financiamento grupais e sem líder normalmente terminam com os empreendedores estabelecendo a valoração; (3) novos anjos – as pessoas que têm tido saídas (i.e., oferta de ações na bolsa de valores, aquisição ou fusão com empresa de maior porte) com valores modestos e hoje são anjos estão simplesmente montando seus portfólios, e sem a devida experiência para entender que preço é de suma importância muito embora a tendência seja “se essa a empresa certa, preço é irrelevante”.
Com bolha ou sem bolha, o fato é que a indústria do capital de ventura passa por mudanças estruturais que vieram para ficar, e as mídias sociais têm grande responsabilidade nisso tudo. “Capital de ventura é um negócio e está aberto a ataque por startups com novos e disruptores modelos de negócio e tecnologias”, diz Ravikant. Aos tradicionais capitalistas de ventura McClure avisa que, muito embora suas redes de conexões, recomendações e reputações agreguem valor, “se isso for tudo com o qual você negocia, então se prepare para sofrer disrupção por parte de LinkeIn, Quora, Facebook, Twitter, AngelList, etc.”
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE