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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Startups criam Empregos

ARTIGOS ESPECIAIS

08/06 - 07:30

Startups criam Empregos

São Paulo, 8 de junho de 2009 - Conforme a Wikipedia, uma “startup” (ou “start-up”) é uma empresa com uma história de operação limitada. Essas empresas, geralmente recém-criadas, estão numa fase de desenvolvimento e pesquisa por mercados, e por essa razão não têm acesso a crédito nos moldes tradicionais. É aí que entram os investidores de capital privado (investidor anjo, capitalista de aventura, etc.), que são atraídos pela relação entre risco e recompensa, além da escalabilidade de tais empresas: se, por um lado, os riscos são maiores, por outro lado, os custos de inicialização são mais baixos e o retorno no investimento é potencialmente recompensador. Startups bem sucedidas são frequentemente mais escaláveis que empresas já estabelecidas porque tipicamente crescem mais rapidamente mesmo com limitações de capital e de força de trabalho. A empresa deixa de ser uma startup à medida que sobrevive às diversas fases de evolução, desde o período verdadeiramente inicial chamado “vale da morte” em função do altíssimo risco enfrentado, até se tornar rentável ou entrar no mercado de bolsa de valores através de um IPO (abreviação de “initial public offering”, oferta pública inicial), ou ainda deixar de existir como uma entidade independente através de uma fusão ou aquisição por empresa maior. O termo é usualmente associado a empresas de tecnologia com alto potencial de crescimento, e se tornou popular internacionalmente durante o período do estouro da bolha ponto-com quando um grande número de empresas de internet foram fundadas. A maior concentração da atividade de criação de startups está localizada no Vale do Silício, uma região no norte da Califórnia em torno da Stanford University.

Em meio a um recorde de desemprego, um estudo de Janeiro passado do US Census Bureau financiado pela Ewing Marion Kauffman Foundation já mostrava que empresas startups são um principal ator na criação de empregos. As “Estatísticas de Dinâmica de Negócios” (Business Dynamic Statistics) indicam que enquanto as startups de negócios diminuem levemente na maioria das baixas cíclicas, tais empresas permanecem robustas mesmo na mais severa recessão durante o mesmo período de amostragem (no início dos anos 1980s). Os dados das BDS mostram que o emprego contabilizado ao setor de empresas privadas startups dos EUA durante o período 1980-2005 foi de cerca de 3% por ano. Embora ainda uma pequena fração do total de empregos, esses postos de startups refletem novos empregos, que é uma grande percentagem comparada com a média anual líquida de crescimento de empregos no setor privado nos EUA para o mesmo período (cerca de 1,8%). Tal padrão implica que, se forem excluídos os empregos das novas empresas, a taxa líquida de crescimento do emprego nos EUA é negativa na média. Em outras palavras, o relatório indica que, de 1980 a 2008, as startups, definidas nesse caso como empresas com menos de 5 anos, foram responsáveis por todo o crescimento líquido de empregos nos EUA.

Um relatório mais recente da Kauffman (“High Growth and Failure of Young Firms”, 07/04/09) mostra que empresas muito jovens (um ano de existência) apresentam uma taxa de crescimento do emprego de cerca de 15%, caso sobrevivam, mas cerca de 20% dos empregos são perdidos devido ao fechamento de negócios durante o primeiro ano. Empresas mais maduras (29 anos ou mais), por outro lado, criam empregos a uma taxa de cerca de 4%, e têm uma taxa semelhante de perda de empregos devido ao fechamento. Um dado interessante é que, entre as empresas sobreviventes, as taxas médias de crescimento do emprego diminuem com a idade da empresa. Segundo Robert Litan, vice-presidente de Pesquisa e Política da Kauffman Foundation, “como empresas empreendedoras geralmente assumem riscos maiores e têm o potencial de criação de empregos que corresponde a crescimento rápido, os dados revelam a necessidade de que se assegure um ambiente que permita aos empreendedores acesso a financiamento, orientação e outros recursos que os ajudará a sobreviver e progredir.” E foi nesse espírito que, em palestra recente ao Programa de Empreendedorismo da Stanford University (“Emerging Opportunities in a Post IT Marketplace”, 11/02/09), Thomas Siebel lembrou que no perído de 1980 a 2000, a indústria da tecnologia da informação, impulsionada por uma lei tecnológica (“Lei de Moore”) e uma lei jurídica (“Bayh-Dole Act”), experimentou um crescimento anual sem precedentes de 17%. Naquele período vigoravam nos EUA políticas públicas extremamente favoráveis a investimentos de risco. “Risco era um problema dos negócios, não um anátema.” A Lei de Moore (“o número de transistores que podem ser colocados a custo razoável num circuito integrado cresce exponencialmente, duplicando aproximadamente a cada dois anos”) levou a um ambiente em que as oportunidades de negócios pareciam não ter limite. Mudanças na tecnologia eram substituições totais, ao invés de incrementais, o que significava que todo cliente tinha que comprar e continuar comprando ou se ver ficando para trás na obsolescência. A Lei Bayh-Dole de 1980 permitiu que as universidades poderiam escolher reter o título de invenções desenvolvidos sob programas com fundos federais, desde que (1) o produto resultante fosse substancialmente produzido nos EUA, (2) ao comercializar uma invenção, a universidade deveria dar preferência a empresas pequenas (menos de 500 empregados), (3) a universidade deveria compartilhar com o(s) inventor(es) uma parte da receita recebida do licenceamento. E o resultado foi incentivo à inovação, empreendedorismo, a absorção de conceitos amplos tais como propriedade do empregado de base ampla, e um ambiente regulatório largamente favorável aos negócios.

Mas, segundo aponta o relatório, e é repetido num artigo do Wall Street Journal (“Start-Ups Create - And Lose - The Most Jobs”, 07/04/09), em termos de crescimento e sobrevivência, empresas jovens estão melhores e piores que empresas mais maduras. E esse padrão “sobe e desce” enfatiza a natureza de tentativa e erro das empresas jovens que parece ser uma característica inerente à dinâmica de negócios nos EUA.

Em artigo recente no portal VentureBeat.com (“StartUpHire says venture-backed startups really do create Jobs”, 20/05/09), Anthony Ha revela alguns números representativos da oferta de empregos das startups: o portal StartUpHire diz que atualmente lista mais de 10.000 empregos em 2.500 empresas. Por sua vez, o portal Startuply lista 1.037 empregos em 957 startups. Geograficamente, 37% desses empregos estão na Califórnia, e em termos do tipo de indústria, 31% estão em software, sem falar nos 18% em “IT Services” (“serviços de tecnologia da informação”. Os números confirmam o papel do Vale do Silício e da Stanford University no espetacular desenvolvimento de novas soluções tecnológicas, sobretudo na área da tecnologia da informação. Conforme o portal do “Office for Technology Licensing” (OTL) de Stanford, o mundo pensa no Vale do Silício como o um dos maiores centros de atividade de start-up e que a comunidade de Stanford desempenha um papel importante, e isso é verdadeiro pois a mair parte das startups "Stanford" são criadas por ex-alunos de Stanford que se graduam e se tornam empreendedores. Embora a grande maioria dessas empresas sejam formadas sem o envolvimento de Stanford, muitas brotaram da Universidade pelas mãos de professores e estudantes, tomando por base tecnologias criadas no campus. Desde a criação do OTL em 1970, Stanford registra um histórico invejável: 546 invenções renderam royalties; das 7500 revelações (“disclosures”) de invenção, 2814 estão ativas, e 36 delas renderam mais de US100 mil em royalties, das quais 3 ultrapassaram a marca dos US$1 milhão. No período 2007–2008, o OTL permitiu que Stanford recebesse mais de US$62,5 milhões em receita bruta de royalties de 344 tecnologias. Nesse mesmo período o OTL concluiu 107 novas licenças e avaliou 430 novas descrições de invenção em 2008.

O trecho de uma palestra de Larry Page (co-fundador da Google) proferida em 2002 no Programa de Empreendedorismo de Stanford traduz bem a relação entre conhecimento e empreendimento que predomina em Stanford: “A ciência como inspiração”. Page diz que “há tremendas oportunidades para se usar pesquisa básica e boas idéias que você ou outras pessoas tenham.” Em trecho de documentário sobre Stanford e o “Novo Renascimento” (“Silicon Valley: A 100 Year Renaissance”, 1998), o ex-reitor e hoje Editor da revista Science, Donald Kennedy, declara que “Stanford sempre teve afeição por aplicações assim como por teoria”.

Nesse espírito e em nota triste, porém emblemática, registre-se aqui que Rajeev Motwani, ex-orientador de doutorado de Larry Page e Sergey Brin (co-fundadores da Google), Professor de Ciência da Computação de Stanford, morreu em 05/06/2009 num acidente na piscina em sua casa na Califórnia. Motwani era muito conhecido por sua pesquisa em Computação Teórica, a ponto de em 2001 ter sido um dos agraciados com o prestigioso Prêmio Gödel, além do Okawa Foundation Research Award e da Arthur Sloan Research Fellowship. Foi também um ávido investidor anjo, um dos primeiros investidores na Paypal, um consultor especial da Sequoia Captial, e tinha fundado ou ajudado a fundar várias startups bem-sucedidas que saíram de Stanford, incluindo Google, e outras ainda em fase de desenvolvimento como TokBox, Tapulous, Flowgram, Anchor Intelligence, Simply Hired, e Kaboodle. Atuava como membro do conselho de diretores de diversas startups, tais como Mimosa Systems, Adchemy, Baynote, Vuclip e Stanford Student Enterprises, além de ser membro ativo da Business Association of Stanford Engineering Students (BASES). Em seu blog, Sergey Brin declara que “desde que a Google emergiu de Stanford, Rajeev permaneceu um amigo e conselheiro da mesma forma que foi com muitas pessoas e startups desde então.”

Tudo indica que o equilíbrio entre a busca do conhecimento e a sua transformação em empreendimento é o grande segredo do sucesso de Stanford. Sem maniqueísmos do tipo “a academia é distanciada da realidade”, ou “o mercado não se interessa pela descoberta do conhecimento”, Stanford segue adiante sem sucumbir ao espírito do dono da galinha dos ovos de ouro. Oxalá exemplo tão nobre seja seguido por muitos!

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 08/06/2009, 07:30hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2528369,408,100,1

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 08/06/2009, 12:17hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/06/08/startups_criam_empregos_47967.php


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Otimismo e o Capital de Aventura

Otimismo e o Capital de Aventura

Ruy de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

Combustível da inovação tecnológica, o “venture capital” (traduzido para “capital empreendedor” ou “capital de risco”, ou “capital de aventura”), é destinado a empresa nova (“startup”, empresa jovem de inovação tecnológica) com grande potencial de crescimento, com a expectativa de gerar retorno ao investidor através de dois eventos: a venda a uma empresa maior (“merger and acquisition,” M&A) ou a transformação em sociedade aberta e o conseqüente oferecimento de ações na bolsa de valores (“initial public offering,” IPO). O investimento é feito sob forma de dinheiro em troca de participação na sociedade, e o capital tipicamente provém de investidores institucionais (Universidades através de seus “endowments”, e Fundações para inovação) e de grupos de indivíduos coordenados por empresas de investimento. Espera-se que o capitalista de aventura (“venture capitalist”, “VC”) traga, além do dinheiro, expertise técnica e gerencial, até porque esse tipo de capital é voltado para startup’s, que, por serem novas têm dificuldade em levantar capital nos mercados públicos e são muito imaturas para captar empréstimo bancário ou completar uma oferta de débito. Em troca pelo alto risco, normalmente transfere-se ao VC boa dose de responsabilidade sobre as decisões executivas da empresa financiada. De acordo com um estudo de 2007 da Global Insight, empresas financiadas com capital de aventura foram responsáveis por 10,4 milhões de empregos e US$2,3 tri em receita nos EUA em 2006. Alguns dos ícones que sobreviveram graças a esse investimento:  Intel, Apple, Amazon, Google.  Empresas financiadas por capital de aventura empregam mais de 11 milhões de americanos, e representam 18% do PIB do país.

Capitalistas de aventura investem em empresas pelo seu potencial, mas normalmente têm que aguardar até que a startup seja objeto de uma compra por uma empresa maior, i.e. ocorra um M&A, ou que aconteça um IPO, portanto, são tipicamente investidores otimistas – é preciso coragem para lidar com ativos de tão alto risco e de tão baixa liquidez. No auge do boom da web (1999 a 2001) foram investidos mais de US$70 bi só em empresas de internet. Porém, nesses tempos de crise de confiança nos mercados financeiros, o otimismo está ferido: numa pesquisa recente (final de 2008) realizada pela National Venture Capital Association, que representa cerca de 450 investidoras, 92% dos VCs prevêem uma desaceleração nos investimentos de capital de aventura em 2009 em relação a 2008, e espera-se que o total de investimentos chegue a US$30 bi. Alguns setores podem ainda ver seus investimentos crescerem (energia limpa, ciências da vida), porém outros deverão perder: 79% acreditam que haverá um declínio nos investimentos na indústria de semicondutores; 71% prevêem perda de investimentos no setor de mídia e entretenimento; e 60% dizem que haverá menos investimentos em comunicações sem fio. Cerca de 72% dos VCs acreditam que o mercado de IPO será fraco em 2009, enquanto que 87% dizem que o valor das aquisições em M&A vai diminuir.

Enfim, ao final de 2008, o capital de aventura tinha sido dado como morto, praticamente todas as startup’s tinham realizado demissões, e as fontes tradicionais haviam sangrado tanto que mesmo os mais confiantes em “ativos alternativos” haviam declarado uma moratória para o capital de aventura. O mercado de IPO então, nem se fala. Eis que surge um otimista. Em um artigo em seu blog, David Hornik (“Innovation doesn’t take a vacation in an economic downturn”, Venture Blog, 21/01/08) vê uma luz no fim do túnel nesse início de 2009, e prevê que grandes empreendimentos surgirão da própria crise. Isso porque o empreender é um vício, não uma escolha, e porque inovação não tira férias durante uma depressão econômica. Se o acesso a recursos pode variar com o clima econômico, o desejo – a necessidade – de inovar nunca se esvai. E o capital de aventura é exatamente o combustível dessa inovação.


Jornal do Commercio (Recife), 17/02/2009, http://jc.uol.com.br/jornal/2009/02/17/not_319862.php

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A libertária Björk e o capital de aventura

A libertária Björk e o capital de aventura

Ruy José Guerra B. de Queiroz // Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

Emblemático o caso da cantora pop islandesa Björk que recentemente cedeu seu nome e imagem (e algo do seu próprio patrimônio) à indústria do "venture capital" (que poderia ser traduzido como "capital de aventura", mas que já tem sua denominação em português como "capital empreendedor", ou "capital de risco"): um fundo de capital empreendedor com seu nome foi lançado no final de 2008 pela Audur Capital, uma empresa de Reykjavik fundada por mulheres, e que concentra suas atenções em empresas criadas por mulheres ou voltadas para uma clientela do sexo feminino. O fundo Björk foi idealizado com o objetivo de catalisar a recuperação da economia da Islândia, conforme o portal da Audur. A empresa vai investir 100 milhões de kronur (US$832 mil) em negócios social e ambientalmente responsáveis que estejam na sua fase inicial, e que promovam a paisagem e a cultura únicas da Islândia. O curioso é que Björk tem uma imagem de libertária e de ativista política, além de ferrenha ambientalista. Esteve envolvida em controvérsia por diversas ocasiões, entre elas a dedicatória da música "Declare Independence" à Groenlândia e às Ilhas Faroe, assim como aos povos do Kosovo e do Tibet. "Nattura," uma música que ela gravou com Thom Yorke (da banda Radiohead) foi lançada no iTunes em prol da ONG ambientalista de mesmo nome. Agora ela quer que a Islândia - um país à beira da bancarrota - promova empreendimentos "verdes" ao invés de extração de alumínio e fábricas.

Não chega a ser um exagero associar o espírito "libertário" ao capital de aventura: trata-se de capital tipicamente destinado a empresas novas com alto potencial de crescimento, com o objetivo de gerar retorno ao investidor através essencialmente de dois caminhos, seja pela venda a uma empresa maior ("merger and acquisition", M&A) ou pela transformação em sociedade aberta e o consequente oferecimento de ações na bolsa ("initial public offering", IPO). O investimento é geralmente feito sob forma de dinheiro em troca de participação na sociedade da empresa, e o capital tipicamente provém de investidores institucionais (Universidades através de seus "endowments", e Fundações para inovação) e de grupos de indivíduos coordenados por firmas de investimento. Espera-se que o capitalista de aventura (conhecido como "VC", abrev. de "venture capitalist") traga, além do dinheiro, expertise técnica e gerencial, até porque esse tipo de capital é mais interessante para novas empresas com uma história curta de operações, e que por essa razão têm dificuldade em levantar capital nos mercados públicos e são demasiado imaturas para obter empréstimo bancário ou completar uma oferta de débito. Em troca pelo alto risco que os VCs assumem ao investir em empresas menores e menos maduras, normalmente transfere-se ao VC boa dose de responsabilidade sobre as decisões executivas da empresa financiada, além de uma parte na sociedade. Curiosamente, 75% dos casos de sucesso do capital de aventura estão dentro de umraio de 40Km em torno de uma universidade cujo motto é "Os Ventos da Liberdade Estão Soprando" (em alemão: "Die Luft der Freiheit Weht"): cravada no faroeste aventureiro, e vizinha à lendária Sand Hill Road, endereço-mor do capital de aventura, Stanford é o eixo da inovação tecnológica, desde os anos 1970s graças à política de estímulo à criação de "empresa montada numa garagem, para explorar uma ideia maluca utilizando tecnologia". Desde a pioneira Hewlett-Packard até a toda-poderosa Google, passando por Yahoo, Cisco e YouTube, formou-se ali um poderoso ecossistema de ideias, empreendedorismo, e investimento de capital de aventura. Que os ventos continuem soprando!

Diário de Pernambuco, 14/02/2008, http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/02/14/opiniao.asp

Portal do IBDI, 16/02/2009, http://www.ibdi.org.br/site/artigos.php?id=215

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Infraestrutura para Inovação: Bandalargando a Economia

ARTIGOS ESPECIAIS

13/02 - 18:45

Infraestrutura para Inovação: Bandalargando a Economia

São Paulo, 12 de fevereiro de 2009 - Vale o cliché: na dificuldade é que se enxerga as novas oportunidades. Em um recente editorial de opinião no Wall Street Journal, Samuel Palmisano, chairman e CEO da IBM, faz um chamado ao novo governo americano que parece ser consensual no setor de tecnologia: mesmo em meio ao desespero (“há que se fazer algo, qualquer coisa, de modo a fazer a economia voltar a fluir”), é preciso aproveitar o momento para criar mais e melhores empregos, cultivar competências de verdadeiro valor, e não simplesmente reparar mas preparar a economia para o novo milênio. Ao invés de assumir projetos simplesmente pela mera criação de atividade econômica, é preciso transformar. Argumentando que investir em inovação custará menos e produzirá resultados mais rápidos que investir em renovação, Palmisano afirma que a infraestrutura é de longe o melhor caminho para a criação de novos empregos e o estímulo ao crescimento. Tendo sido solicitados pela equipe de transição de Obama para fazer um levantamento, pesquisadores da IBM chegaram à conclusão que um pacote de investimentos da ordem de US$30 bilhões em três áreas – redes elétricas inteligentes, assistência médica, e banda larga – poderia levar à criação de 1 milhão de novos empregos em um ano. E isso seria possível porque esses tipos de infraestrutura têm efeitos multiplicadores sociais muito mais significativos que as tradicionais infraestruturas como pontes e estradas.

Em analogia com a construção das grandes rodovias interestaduais nos anos 1950s que permitiram o transporte rápido de ativos físicos, com o conseqüente crescimento econômico, hoje no mundo digital em que os principais ativos estão online e são negociados virtualmente, é de se esperar que as comunidades com acesso a banda larga verão crescer sua oferta de empregos a uma taxa bem mais favorável. Evidências científicas de que esse impacto é real e mensurável estão num relatório para o Departamento de Comércio intitulado “Measuring Broadband’s Economic Impact” (Fev 2006), em que pesquisadores do MIT concluem que entre 1998 e 2002, as comunidades nas quais banda larga estava amplamente disponível experimentaram um crescimento mais rápido em empregos, número total de empresas, e mais especificamente no número de empresas nos setores de uso intensivo da tecnologia da informação. Embora não tenha sido encontrado um impacto estatisticamente significativo nos níveis de salários, os efeitos da disponibilidade da banda larga até 1999 podem ser observados em valores mais altos de propriedades em 2000. A pesquisa utiliza os dados da Federal Communications Commission, “Form 477”, com dados demográficos e econômicos do US Population Censuses and Business Establishment Surveys. A análise classificou os 22390 códigos de endereçamento postal pela disponibilidade de banda larga, e comparou os indicadores econômicos por um longo período, de modo a ver se desvios consistentes da tendência secular eram observáveis, e ao mesmo tempo buscando por fatores que sabidamente influenciam a disponibilidade de banda larga e a atividade econômica, tais como renda, níveis de educação, e localização urbana versus rural.

Supreendentemente, os Estados Unidos “inventaram” a internet mas é apenas o 12o país no mundo em penetração de banda larga, e o 15o em velocidade média de banda larga, conforme um levantamento da OECD divulgado em Junho de 2008. Considerando que US$6 bilhões seria pouco para reparar tamanho “vexame”, Saul Hansell escreve no seu artigo “Banda Larga Precisa de Estímulo?” (NY Times, 21/01/08), que a proposta está correta, pois o vexame não procede: com a nova tecnologia de modem para transmissão a cabo sendo disponibilizada, 19 de 20 domicílios americanos serão capazes de ter serviço de internet mais rápido que qualquer um hoje disponível em qualquer parte do mundo. E isso sem que um novo cabo sequer seja instalado. Segundo Hansell, instalar um novo cabo de fibra ótica para cada domicílio americano pode muito bem aumentar a competição entre provedores de banda larga, mas não é necessário para fornecer serviço de internet de alta velocidade. Os atuais modems utilizados em transmissão a cabo usam apenas um dos mais de 100 canais num sistema de cabo típico, e podem oferecer velocidades de 16 megabits por second ou mais. A próxima geração de modems, usando uma tecnologia chamada Docsis 3, permite que vários canais de video sejam combinados para oferecer o que, em última análise, pode ser o serviço de internet tão rápido quanto 1 gigabit por segundo — 10 vezes mais rápido do que o que é oferecido no Japão, que é o país geralmente considerado como tendo a infraestrutura de banda larga mais rápida.

Na mesma semana da publicação do texto de Palmisano, em artigo para o Mercury News intitulado “It’s time to broadband our economy”, John Chambers (CEO da Cisco) vai mais adiante ao argumentar que a banda larga tem o potencial de verdadeiramente transformar a economia pois deverá criar empregos exatamente nos setores de crescimento — empregos que impulsionam a economia de colaboração e interação. O poder econômico da banda larga provém de duas fontes: a primeira é o alcance — quantas pessoas estão usando banda larga no trabalho, em casa, e na comunidade. A segunda é velocidade — as velocidades da conexão determinam o impacto sobre o comportamento do usuário. Com efeito, a circulação de bens e serviços na rede deverá aumentar significativamente uma vez que os meios de transporte se tornem mais rápidos, mais estáveis e mais seguros.

Dos US$825 bilhões do pacote de estímulo econômico estão previstos US$6 bilhões para melhorar a infraestrutura de banda larga – porém sem a tão reivindicada redução/isenção de impostos. Um resumo da proposta revelada por congressistas do Partido Democrata pede que o dinheiro seja usado para "projetos de banda larga e rede-sem-fio em áreas mal servidas de modo a fortalecer a economia e prover oportunidades de negócios e de empregos em cada recanto da América, com benefícios ao comércio eletrônico, à educação, e à assistência médica. Para cada dólar investido em banda larga, a economia vê um retorno dez vezes maior sobre aquele investimento." Chambers traz alguns dados numéricos importantes: incluir banda larga no pacote de estímulo econômico não é apenas uma visão de longo prazo — a criação de empregos será imediata, pois a Communications Workers of America estima que 97.500 empregos resultariam de cada US$5 bilhões investidos em infraestrutura de banda larga. A longo prazo, um aumento de 10% no uso da banda larga nos EUA significaria um acréscimo de 2 milhões de empregos, conforme o grupo Connected Nation. E, somente na Califórnia, aumentar o uso da banda larga poderia adicionar 1,8 milhões de empregos nos próximos 10 anos, conforme o Sacramento Regional Research Institute. Um relatório da Information Technology & Innovation Foundation (ITIF) diz que um pacote de estimulo de US$10 bilhões em um ano em redes de banda larga deve levar à criação de 510 mil novos empregos, aí incluídos os instaladores de cabos de fibra ótica, mas cuja maioria virá de negócios que criam novos produtos e serviços usando a capacidade melhorada das redes de comunicação – isso é o que o ITIF chama de “efeitos em rede”. Entre esses novos serviços podem estar incluídos novos serviços de educação e treinamento online, e assistência médica. Por sua vez, Palmisano lembra que o investimento em registros eletrônicos de saúde (usados por menos de 20% de organizações de assistência médica, conforme um estudo recente financiado pelo Department of Health and Human Services) estimularia a integração e a eficiência em todo o sistema de assistência médica, pois significaria integração – desde o diagnóstico, a descoberta da droga e dos hospitais/clínicas até as seguradoras, empregadores, pacientes e comunidades.

Recentemente, num artigo intitulado “Um Plano de Estímulo à Banda Larga. Será que os investimentos do governo em tecnologia das comunicações sem fio e internet conseguirão disparar uma nova onda de crescimento de empregos?”, Michael Mendel (“chief economist”, BusinessWeek) começa lembrando que, em meio à crise econômica, pelo menos um setor tem demanda ainda crescente: o número de mensagens de texto, telefones sem fio, e usuários de internet ainda parece continuar crescendo. “Mais do que nunca, estamos na Era das Comunicações, em que as pessoas demandam mais e melhores conexões à aldeia global”. Após algumas analogias com o setor automobilístico, beneficiado no passado com o investimento governamental na infraestrutura, Mendel conclui, num tom positivo, que nos dias de hoje criar empregos no setor de comunicações, onde a demanda está crescendo, tem tudo para ser mais fácil que criar empregos em indústrias como a automobilística, onde a demanda está encolhendo. “É sempre mais fácil empurrar uma porta aberta”.

Se forem dadas as devidas chances (e a infraestrutura, naturalmente) à sorte, quem sabe o otimismo de David Hornik (“Innovation Doesn’t Take a Vacation in an Economic Downturn”, Venture Blog, 21/01/08) vingará, e grandes empreendimentos surgirão da própria crise. Como diz Hornik, o empreender é um vício, não uma escolha: grandes empreendedores não são levados a criar empresas porque é fácil, ou porque há abundância de capital disponível, ou mesmo porque os mercados estão engolindo qualquer coisa que a comunidade de capital empreendedor (“venture capital”) lhes atira. Eles vêem um problema ou uma solução, ou um espaço em branco, ou uma oportunidade, e logo têm que fazer alguma coisa. Inovação não tira férias durante uma depressão econômica. Inovação é uma constante. Se o acesso a recursos pode variar com o clima econômico, o desejo – a necessidade – de inovar nunca se vai. E o capital empreendedor é o combustível da inovação.

(Ruy de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil, 13/02/2009, http://gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2341200,408,100,1