quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Anjos da Inovação e o Tempo Real

ARTIGOS ESPECIAIS
25/02 - 19:20
Anjos da Inovação e o Tempo Real

São Paulo, 25 de fevereiro de 2009 - Num momento em que muitos demonstram desânimo e pessimismo até mesmo com a capacidade transformadora da inovação tecnológica, eis que aparece a voz de um anjo: a entrevista de Marc Andreessen a Charlie Rose em 19/02/09 soa como o anúncio de uma nova era, a era da comunicação em tempo real. O entrevistado é ninguém menos que o autor dos primeiros navegadores da internet, desde o Mosaic que deu origem ao Internet Explorer até o Netscape que evoluiu para o Firefox, e hoje um dos mais bem sucedidos empreendedores do Vale do Silício: fundador de duas empresas bilionárias (a Netscape foi adquirida em 1999 pelo grupo AOL por US$4,2 bi, e em 2004 a Opsware foi vendida à Hewlett-Packard por US$1,6 bi), Andreessen declarou-se “investidor anjo” no Twitter, serviço de comunicação em tempo real pela internet. Entre outras declarações de confiança e visão inovadora, típicas do empreendedor do Vale do Silício, Andreessen afirma que a bola da vez é a comunicação móvel: com aparelhos supersofisticados, desenvolvedores de aplicações, conteúdo, e um catalisador fundamental que é o iPhone, tudo aponta para uma grande efusão de soluções inovadoras que ainda está por vir. O paralelo com a internet é imediato: apesar de ter sido inventada nos anos 1970’s, somente em 1994/95 com o surgimento dos navegadores a infraestrutura veio de fato servir ao grande boom de inovação experimentado até hoje. E eis que surgem as redes sociais, Facebook, Twitter e a web de tempo real. E isso é apenas o começo. À sugestão de Rose “se você puder conectar todo mundo, então está aí uma enorme oportunidade para fazer um monte de coisas”, Andreessen responde que se é possível levar 50, 100, ou 100 milhões de pessoas a fazer algo (como, por exemplo, se tornar membro de uma rede social), você vai conseguir que todo mundo o faça também. O potencial é enorme. Ainda mais quando se ouve do “pai” da internet, Vint Cerf, que somente 20% do mundo está conectado via web.

Em retrospecto, os navegadores nos trouxeram um mundo de páginas web, inicialmente produzidas por indivíduos, depois por pequenos e grandes negócios, e finalmente, vieram os blogs, transformando qualquer um em autor. Em “Andreessen in realtime” (TechCrunchIT, 21/02/09), Steve Gillmor lembra que a luta era com o tempo e a localização, e aí veio a indexação RSS e os engenhos de busca para nos ajudar. Mas o tempo desde a idéia até a publicação e o consumo do que é escrito tem se aproximado ao tempo real. Os dispositivos assumem o comando, alargando a quantidade de tempo para consumir o fluxo quase impossível de acompanhar. O Blackberry expandiu o horário de trabalho para todas as horas. O iPhone removeu a distinção entre trabalho e diversão. O Twitter juntou o privado e o público num único fluxo de atualizações. O Facebook embaçou as distinções entre amizades reais e virtuais. Os números estão crescendo — 175 milhões de usuários no Facebook, dezenas de milhares de seguidores no Twitter, constante troca de texto e conversações em vídeo entre os adolescentes — uma economia semi-secreta de mídia interativa que está aos poucos roubando a cena do setor tradicional de “broadcast”.

Segundo a Wikipedia, um investidor anjo, ou simplesmente anjo (conhecido na Europa como anjo de negócios ou investidor informal) é um indivíduo abastado que investe capital numa “start-up” (empresa jovem de inovação tecnológica), normalmente em troca de uma participação na sociedade ou de débitos conversíveis. Diferentemente dos capitalistas de aventura (“venture capitalists”) que gerenciam fundos provenientes de instituições e indivíduos reunidos em grupos, anjos tipicamente investem seus próprios fundos, e são frequentemente empreendedores ou executivos aposentados, que às vezes são guiados por razões que vão além do mero retorno monetário: servir de mentor a uma nova geração de empreendedores, e ao mesmo tempo manter-se ocupado fazendo uso de sua experiência mas sem o envolvimento em tempo integral. Além do capital, anjos normalmente agregam experiência gerencial e um importante círculo de contatos. O termo "anjo" tem origem na Inglaterra onde era usado para descrever indivíduos abastados que financiavam produções teatrais. Somente em 1978, William Wetzel, na época um professor na Universidade de New Hampshire e fundador do “Center for Venture Research”, realizou um trabalho pioneiro sobre como empreendedores levantam capital semente nos EUA, e começou a usar o termo “anjo” para se referir aos investidores desse tipo de capital. Pois, foi graças ao investimento inicial crítico de US$250 mil do anjo Mike Markkula em 1977, que a Apple de Steve Jobs e Steve Wozniak chegou a um mercado dominado pela gigantesca IBM. Markkula trouxe credibilidade, maturidade, experiência em engenharia e gerência de produtos, e um largo círculo de contatos no mundo dos negócios, assim como dinheiro próprio e de seus contatos entre os capitalistas de aventura do Vale do Silício. Hoje a Apple é sinônimo de inovação e criatividade, e tem sua imagem e seus produtos adjetivados tal qual o Taj Mahal, uma das sete maravilhas do mundo (“Intenso. Profundo. Simetria. Dedicação. Paixão. Amor. Humilhante. Perfeição”, no artigo de Om Malik “What the Taj Mahal and Apple have in common” publicado no portal GigaOm em 19/02/09). Tudo isso em boa medida devido ao carisma e ao dinamismo de Steve Jobs, que foi recentemente recomendado ao Presidente Obama pelo empreendedor Todd Dagres (fundador da Akamai Technologies e da Spark Capital) como salvador da indústria automobilística (“Letter to Obama: What the Car Industry Needs is a Steve Jobs”, 23/02/09, TechCrunch). Como diz Peggy Noonan no artigo “Remembering the Dawn of the Age of Abundance” de 20/02/09 no Wall Street Journal, o dinamismo tem vazado de nossa economia, mas não do cérebro e coração humanos. Tal qual nossa regeneração política acontecerá localmente, em estados e municípios que aprenderem a manter o controle e demonstrarem como governar eficazmente num tempo cheio de limites, assim será com a regeneração econômica. Isso vai começar na garagem de alguém, na cozinha de alguém, como foi o caso de Steve Jobs e Steve Wozniak. Parece que ninguém confia mais no grande. No futuro tudo será local. Aí estará a mágica. E nenhum pessimismo vai parar isso, uma vez que dê a partida.

(Ruy J.G.B. de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Otimismo e o Capital de Aventura

Otimismo e o Capital de Aventura

Ruy de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

Combustível da inovação tecnológica, o “venture capital” (traduzido para “capital empreendedor” ou “capital de risco”, ou “capital de aventura”), é destinado a empresa nova (“startup”, empresa jovem de inovação tecnológica) com grande potencial de crescimento, com a expectativa de gerar retorno ao investidor através de dois eventos: a venda a uma empresa maior (“merger and acquisition,” M&A) ou a transformação em sociedade aberta e o conseqüente oferecimento de ações na bolsa de valores (“initial public offering,” IPO). O investimento é feito sob forma de dinheiro em troca de participação na sociedade, e o capital tipicamente provém de investidores institucionais (Universidades através de seus “endowments”, e Fundações para inovação) e de grupos de indivíduos coordenados por empresas de investimento. Espera-se que o capitalista de aventura (“venture capitalist”, “VC”) traga, além do dinheiro, expertise técnica e gerencial, até porque esse tipo de capital é voltado para startup’s, que, por serem novas têm dificuldade em levantar capital nos mercados públicos e são muito imaturas para captar empréstimo bancário ou completar uma oferta de débito. Em troca pelo alto risco, normalmente transfere-se ao VC boa dose de responsabilidade sobre as decisões executivas da empresa financiada. De acordo com um estudo de 2007 da Global Insight, empresas financiadas com capital de aventura foram responsáveis por 10,4 milhões de empregos e US$2,3 tri em receita nos EUA em 2006. Alguns dos ícones que sobreviveram graças a esse investimento:  Intel, Apple, Amazon, Google.  Empresas financiadas por capital de aventura empregam mais de 11 milhões de americanos, e representam 18% do PIB do país.

Capitalistas de aventura investem em empresas pelo seu potencial, mas normalmente têm que aguardar até que a startup seja objeto de uma compra por uma empresa maior, i.e. ocorra um M&A, ou que aconteça um IPO, portanto, são tipicamente investidores otimistas – é preciso coragem para lidar com ativos de tão alto risco e de tão baixa liquidez. No auge do boom da web (1999 a 2001) foram investidos mais de US$70 bi só em empresas de internet. Porém, nesses tempos de crise de confiança nos mercados financeiros, o otimismo está ferido: numa pesquisa recente (final de 2008) realizada pela National Venture Capital Association, que representa cerca de 450 investidoras, 92% dos VCs prevêem uma desaceleração nos investimentos de capital de aventura em 2009 em relação a 2008, e espera-se que o total de investimentos chegue a US$30 bi. Alguns setores podem ainda ver seus investimentos crescerem (energia limpa, ciências da vida), porém outros deverão perder: 79% acreditam que haverá um declínio nos investimentos na indústria de semicondutores; 71% prevêem perda de investimentos no setor de mídia e entretenimento; e 60% dizem que haverá menos investimentos em comunicações sem fio. Cerca de 72% dos VCs acreditam que o mercado de IPO será fraco em 2009, enquanto que 87% dizem que o valor das aquisições em M&A vai diminuir.

Enfim, ao final de 2008, o capital de aventura tinha sido dado como morto, praticamente todas as startup’s tinham realizado demissões, e as fontes tradicionais haviam sangrado tanto que mesmo os mais confiantes em “ativos alternativos” haviam declarado uma moratória para o capital de aventura. O mercado de IPO então, nem se fala. Eis que surge um otimista. Em um artigo em seu blog, David Hornik (“Innovation doesn’t take a vacation in an economic downturn”, Venture Blog, 21/01/08) vê uma luz no fim do túnel nesse início de 2009, e prevê que grandes empreendimentos surgirão da própria crise. Isso porque o empreender é um vício, não uma escolha, e porque inovação não tira férias durante uma depressão econômica. Se o acesso a recursos pode variar com o clima econômico, o desejo – a necessidade – de inovar nunca se esvai. E o capital de aventura é exatamente o combustível dessa inovação.


Jornal do Commercio (Recife), 17/02/2009, http://jc.uol.com.br/jornal/2009/02/17/not_319862.php

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A libertária Björk e o capital de aventura

A libertária Björk e o capital de aventura

Ruy José Guerra B. de Queiroz // Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

Emblemático o caso da cantora pop islandesa Björk que recentemente cedeu seu nome e imagem (e algo do seu próprio patrimônio) à indústria do "venture capital" (que poderia ser traduzido como "capital de aventura", mas que já tem sua denominação em português como "capital empreendedor", ou "capital de risco"): um fundo de capital empreendedor com seu nome foi lançado no final de 2008 pela Audur Capital, uma empresa de Reykjavik fundada por mulheres, e que concentra suas atenções em empresas criadas por mulheres ou voltadas para uma clientela do sexo feminino. O fundo Björk foi idealizado com o objetivo de catalisar a recuperação da economia da Islândia, conforme o portal da Audur. A empresa vai investir 100 milhões de kronur (US$832 mil) em negócios social e ambientalmente responsáveis que estejam na sua fase inicial, e que promovam a paisagem e a cultura únicas da Islândia. O curioso é que Björk tem uma imagem de libertária e de ativista política, além de ferrenha ambientalista. Esteve envolvida em controvérsia por diversas ocasiões, entre elas a dedicatória da música "Declare Independence" à Groenlândia e às Ilhas Faroe, assim como aos povos do Kosovo e do Tibet. "Nattura," uma música que ela gravou com Thom Yorke (da banda Radiohead) foi lançada no iTunes em prol da ONG ambientalista de mesmo nome. Agora ela quer que a Islândia - um país à beira da bancarrota - promova empreendimentos "verdes" ao invés de extração de alumínio e fábricas.

Não chega a ser um exagero associar o espírito "libertário" ao capital de aventura: trata-se de capital tipicamente destinado a empresas novas com alto potencial de crescimento, com o objetivo de gerar retorno ao investidor através essencialmente de dois caminhos, seja pela venda a uma empresa maior ("merger and acquisition", M&A) ou pela transformação em sociedade aberta e o consequente oferecimento de ações na bolsa ("initial public offering", IPO). O investimento é geralmente feito sob forma de dinheiro em troca de participação na sociedade da empresa, e o capital tipicamente provém de investidores institucionais (Universidades através de seus "endowments", e Fundações para inovação) e de grupos de indivíduos coordenados por firmas de investimento. Espera-se que o capitalista de aventura (conhecido como "VC", abrev. de "venture capitalist") traga, além do dinheiro, expertise técnica e gerencial, até porque esse tipo de capital é mais interessante para novas empresas com uma história curta de operações, e que por essa razão têm dificuldade em levantar capital nos mercados públicos e são demasiado imaturas para obter empréstimo bancário ou completar uma oferta de débito. Em troca pelo alto risco que os VCs assumem ao investir em empresas menores e menos maduras, normalmente transfere-se ao VC boa dose de responsabilidade sobre as decisões executivas da empresa financiada, além de uma parte na sociedade. Curiosamente, 75% dos casos de sucesso do capital de aventura estão dentro de umraio de 40Km em torno de uma universidade cujo motto é "Os Ventos da Liberdade Estão Soprando" (em alemão: "Die Luft der Freiheit Weht"): cravada no faroeste aventureiro, e vizinha à lendária Sand Hill Road, endereço-mor do capital de aventura, Stanford é o eixo da inovação tecnológica, desde os anos 1970s graças à política de estímulo à criação de "empresa montada numa garagem, para explorar uma ideia maluca utilizando tecnologia". Desde a pioneira Hewlett-Packard até a toda-poderosa Google, passando por Yahoo, Cisco e YouTube, formou-se ali um poderoso ecossistema de ideias, empreendedorismo, e investimento de capital de aventura. Que os ventos continuem soprando!

Diário de Pernambuco, 14/02/2008, http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/02/14/opiniao.asp

Portal do IBDI, 16/02/2009, http://www.ibdi.org.br/site/artigos.php?id=215

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Infraestrutura para Inovação: Bandalargando a Economia

ARTIGOS ESPECIAIS

13/02 - 18:45

Infraestrutura para Inovação: Bandalargando a Economia

São Paulo, 12 de fevereiro de 2009 - Vale o cliché: na dificuldade é que se enxerga as novas oportunidades. Em um recente editorial de opinião no Wall Street Journal, Samuel Palmisano, chairman e CEO da IBM, faz um chamado ao novo governo americano que parece ser consensual no setor de tecnologia: mesmo em meio ao desespero (“há que se fazer algo, qualquer coisa, de modo a fazer a economia voltar a fluir”), é preciso aproveitar o momento para criar mais e melhores empregos, cultivar competências de verdadeiro valor, e não simplesmente reparar mas preparar a economia para o novo milênio. Ao invés de assumir projetos simplesmente pela mera criação de atividade econômica, é preciso transformar. Argumentando que investir em inovação custará menos e produzirá resultados mais rápidos que investir em renovação, Palmisano afirma que a infraestrutura é de longe o melhor caminho para a criação de novos empregos e o estímulo ao crescimento. Tendo sido solicitados pela equipe de transição de Obama para fazer um levantamento, pesquisadores da IBM chegaram à conclusão que um pacote de investimentos da ordem de US$30 bilhões em três áreas – redes elétricas inteligentes, assistência médica, e banda larga – poderia levar à criação de 1 milhão de novos empregos em um ano. E isso seria possível porque esses tipos de infraestrutura têm efeitos multiplicadores sociais muito mais significativos que as tradicionais infraestruturas como pontes e estradas.

Em analogia com a construção das grandes rodovias interestaduais nos anos 1950s que permitiram o transporte rápido de ativos físicos, com o conseqüente crescimento econômico, hoje no mundo digital em que os principais ativos estão online e são negociados virtualmente, é de se esperar que as comunidades com acesso a banda larga verão crescer sua oferta de empregos a uma taxa bem mais favorável. Evidências científicas de que esse impacto é real e mensurável estão num relatório para o Departamento de Comércio intitulado “Measuring Broadband’s Economic Impact” (Fev 2006), em que pesquisadores do MIT concluem que entre 1998 e 2002, as comunidades nas quais banda larga estava amplamente disponível experimentaram um crescimento mais rápido em empregos, número total de empresas, e mais especificamente no número de empresas nos setores de uso intensivo da tecnologia da informação. Embora não tenha sido encontrado um impacto estatisticamente significativo nos níveis de salários, os efeitos da disponibilidade da banda larga até 1999 podem ser observados em valores mais altos de propriedades em 2000. A pesquisa utiliza os dados da Federal Communications Commission, “Form 477”, com dados demográficos e econômicos do US Population Censuses and Business Establishment Surveys. A análise classificou os 22390 códigos de endereçamento postal pela disponibilidade de banda larga, e comparou os indicadores econômicos por um longo período, de modo a ver se desvios consistentes da tendência secular eram observáveis, e ao mesmo tempo buscando por fatores que sabidamente influenciam a disponibilidade de banda larga e a atividade econômica, tais como renda, níveis de educação, e localização urbana versus rural.

Supreendentemente, os Estados Unidos “inventaram” a internet mas é apenas o 12o país no mundo em penetração de banda larga, e o 15o em velocidade média de banda larga, conforme um levantamento da OECD divulgado em Junho de 2008. Considerando que US$6 bilhões seria pouco para reparar tamanho “vexame”, Saul Hansell escreve no seu artigo “Banda Larga Precisa de Estímulo?” (NY Times, 21/01/08), que a proposta está correta, pois o vexame não procede: com a nova tecnologia de modem para transmissão a cabo sendo disponibilizada, 19 de 20 domicílios americanos serão capazes de ter serviço de internet mais rápido que qualquer um hoje disponível em qualquer parte do mundo. E isso sem que um novo cabo sequer seja instalado. Segundo Hansell, instalar um novo cabo de fibra ótica para cada domicílio americano pode muito bem aumentar a competição entre provedores de banda larga, mas não é necessário para fornecer serviço de internet de alta velocidade. Os atuais modems utilizados em transmissão a cabo usam apenas um dos mais de 100 canais num sistema de cabo típico, e podem oferecer velocidades de 16 megabits por second ou mais. A próxima geração de modems, usando uma tecnologia chamada Docsis 3, permite que vários canais de video sejam combinados para oferecer o que, em última análise, pode ser o serviço de internet tão rápido quanto 1 gigabit por segundo — 10 vezes mais rápido do que o que é oferecido no Japão, que é o país geralmente considerado como tendo a infraestrutura de banda larga mais rápida.

Na mesma semana da publicação do texto de Palmisano, em artigo para o Mercury News intitulado “It’s time to broadband our economy”, John Chambers (CEO da Cisco) vai mais adiante ao argumentar que a banda larga tem o potencial de verdadeiramente transformar a economia pois deverá criar empregos exatamente nos setores de crescimento — empregos que impulsionam a economia de colaboração e interação. O poder econômico da banda larga provém de duas fontes: a primeira é o alcance — quantas pessoas estão usando banda larga no trabalho, em casa, e na comunidade. A segunda é velocidade — as velocidades da conexão determinam o impacto sobre o comportamento do usuário. Com efeito, a circulação de bens e serviços na rede deverá aumentar significativamente uma vez que os meios de transporte se tornem mais rápidos, mais estáveis e mais seguros.

Dos US$825 bilhões do pacote de estímulo econômico estão previstos US$6 bilhões para melhorar a infraestrutura de banda larga – porém sem a tão reivindicada redução/isenção de impostos. Um resumo da proposta revelada por congressistas do Partido Democrata pede que o dinheiro seja usado para "projetos de banda larga e rede-sem-fio em áreas mal servidas de modo a fortalecer a economia e prover oportunidades de negócios e de empregos em cada recanto da América, com benefícios ao comércio eletrônico, à educação, e à assistência médica. Para cada dólar investido em banda larga, a economia vê um retorno dez vezes maior sobre aquele investimento." Chambers traz alguns dados numéricos importantes: incluir banda larga no pacote de estímulo econômico não é apenas uma visão de longo prazo — a criação de empregos será imediata, pois a Communications Workers of America estima que 97.500 empregos resultariam de cada US$5 bilhões investidos em infraestrutura de banda larga. A longo prazo, um aumento de 10% no uso da banda larga nos EUA significaria um acréscimo de 2 milhões de empregos, conforme o grupo Connected Nation. E, somente na Califórnia, aumentar o uso da banda larga poderia adicionar 1,8 milhões de empregos nos próximos 10 anos, conforme o Sacramento Regional Research Institute. Um relatório da Information Technology & Innovation Foundation (ITIF) diz que um pacote de estimulo de US$10 bilhões em um ano em redes de banda larga deve levar à criação de 510 mil novos empregos, aí incluídos os instaladores de cabos de fibra ótica, mas cuja maioria virá de negócios que criam novos produtos e serviços usando a capacidade melhorada das redes de comunicação – isso é o que o ITIF chama de “efeitos em rede”. Entre esses novos serviços podem estar incluídos novos serviços de educação e treinamento online, e assistência médica. Por sua vez, Palmisano lembra que o investimento em registros eletrônicos de saúde (usados por menos de 20% de organizações de assistência médica, conforme um estudo recente financiado pelo Department of Health and Human Services) estimularia a integração e a eficiência em todo o sistema de assistência médica, pois significaria integração – desde o diagnóstico, a descoberta da droga e dos hospitais/clínicas até as seguradoras, empregadores, pacientes e comunidades.

Recentemente, num artigo intitulado “Um Plano de Estímulo à Banda Larga. Será que os investimentos do governo em tecnologia das comunicações sem fio e internet conseguirão disparar uma nova onda de crescimento de empregos?”, Michael Mendel (“chief economist”, BusinessWeek) começa lembrando que, em meio à crise econômica, pelo menos um setor tem demanda ainda crescente: o número de mensagens de texto, telefones sem fio, e usuários de internet ainda parece continuar crescendo. “Mais do que nunca, estamos na Era das Comunicações, em que as pessoas demandam mais e melhores conexões à aldeia global”. Após algumas analogias com o setor automobilístico, beneficiado no passado com o investimento governamental na infraestrutura, Mendel conclui, num tom positivo, que nos dias de hoje criar empregos no setor de comunicações, onde a demanda está crescendo, tem tudo para ser mais fácil que criar empregos em indústrias como a automobilística, onde a demanda está encolhendo. “É sempre mais fácil empurrar uma porta aberta”.

Se forem dadas as devidas chances (e a infraestrutura, naturalmente) à sorte, quem sabe o otimismo de David Hornik (“Innovation Doesn’t Take a Vacation in an Economic Downturn”, Venture Blog, 21/01/08) vingará, e grandes empreendimentos surgirão da própria crise. Como diz Hornik, o empreender é um vício, não uma escolha: grandes empreendedores não são levados a criar empresas porque é fácil, ou porque há abundância de capital disponível, ou mesmo porque os mercados estão engolindo qualquer coisa que a comunidade de capital empreendedor (“venture capital”) lhes atira. Eles vêem um problema ou uma solução, ou um espaço em branco, ou uma oportunidade, e logo têm que fazer alguma coisa. Inovação não tira férias durante uma depressão econômica. Inovação é uma constante. Se o acesso a recursos pode variar com o clima econômico, o desejo – a necessidade – de inovar nunca se vai. E o capital empreendedor é o combustível da inovação.

(Ruy de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Gazeta Mercantil, 13/02/2009, http://gazetamercantil.com.br/GZM_News.aspx?parms=2341200,408,100,1

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Academia, empreendimento e inovação tecnológica

Academia, empreendimento e inovação tecnológica

Ruy J.G.B. de Queiroz 

Professor associado, Centro de Informática da UFPE 


Tão profundas são as transformações resultantes dos avanços tecnológicos que não parece exagero chamar esse processo de novo Renascimento. Tampouco seria injusto atribuir a Stanford o papel de "Nova Florença". Em 1º de Outubro último foram completados 117 anos de serviços prestados (embora fundada oficialmente em 1885, a Leland Stanford Jr University abriu suas portas em 01/10/1891). Em Cities of Knowledge: Cold War Science and the Search for the Next Silicon Valley (Princeton U Press, 2004), referindo-se a um prédio construído em Goa (India) no estilo arquitetônico hispânico predominante em Stanford para abrigar uma empresa de alta tecnologia, Margaret O'Mara diz que "todo mundo quer ser não apenas um outro Vale do Silício, mas também se parecer com o Vale do Silício". Estilo arquitetônico à parte, um tanto original é o princípio norteador de Stanford: ao invés da referência direta à procura pela "verdade" (Veritas, em latim, é o slogan de Harvard), a busca pelo conhecimento como busca da liberdade vem estampada no seu motto, "Die Luft der Freiheit Weht", embora que numa língua estrangeira ainda viva. A idéia de usar tal motto veio de David Starr Jordan, primeiro presidente do "rancho do faroeste transformado em Universidade" (com 33Km2 de área e 43.000 árvores, Stanford é conhecida como "A Fazenda"), que se inspirou na reação do poeta alemão Ulrich von Hutten revoltado com a prisão de Martin Lutero: "vejam que os ventos da liberdade estão soprando!" (videtis illam spirare libertatis auram, em latim). Não sem resistência, até do conselho de curadores (que preferiram o slogan "Semper Virens", significando "sempre verdejante", nome científico da espécie de sequóia comum naquela região que pode viver mais de 2000 anos, e é a criatura viva mais alta do planeta), Jordan buscou no sentimento mais profundo de fé na primazia do indivíduo a força maior para imprimir a impressionante marca da harmonia entre o saber e a liberdade. Stanford veio a revelar toda a sua vocação de Nova Florença a partir dos anos 1970s com a chamada "cultura das start-up's": criação de empresa numa garagem, para explorar uma idéia maluca utilizando tecnologia. 

Diversas têm sido as tentativas de reprodução do ambiente criado no Vale do Silício. Em Maio último, numa palestra ao programa de empreendedorismo de Stanford, Beth Seidenberg (da grande empresa de venture capital KPCB) diz que "o ambiente em torno de Stanford é diferente de qualquer outro que eu já vi e que já foi criado por quem quer que seja. (...) Boston e San Diego podem até reivindicar a disponibilidade de infra-estrutura [para inovação], mas o Vale do Silício é verdadeiramente o eixo da inovação tecnológica". Os fatos estão aí para comprovar, pois brotaram n'A Fazenda: Google, Yahoo, Hewlett-Packard, YouTube, Sun, Cisco, eBay, PayPal, Electronic Arts, Silicon Graphics, Netflix, Nvidia, VMWare, Orkut, Dolby. Através de um simples motto invocando a liberdade do pensar, Jordan enraizou o sentimento de fé na primazia do indivíduo que parece ter protegido Stanford de sucumbir ao arquétipo da fábula da galinha dos ovos de ouro. E esse sentimento persiste nos seus ex-alunos sob forma de doações generosas: US$400 mi de William Hewlett (HP), US$100 mi de Phil Knight (Nike), US$75 mi de Jerry Yang (Yahoo), US$33 mi de Lorry Lokey (Business Wire), US$30 mi de Jen-Hsun Huang (Nvidia). Dentre os programas de arrecadação de doações de ex-alunos e simpatizantes, o The Stanford Challenge, lançado em Outubro de 2006, já se encontra bem próximo à meta traçada para 2011 (US$4,3 bi): os números de 14/10/08 indicam uma arrecadação parcial de US$3,9 bi. Difícil imaginar forma mais explícita de respeito e retribuição à alma mater.

A ciência como inspiração

A ciência como inspiraçãoArtigo do leitor Ruy J.G.B. de Queiroz

Completa exatamente dez anos de fundação, em 1º de setembro de 2008, a empresa cujo nome se transformou em verbo "universal": "se você nunca Googlou, provavelmente não está encontrando nada do que deseja online". Assim começa a descrição do perfil financeiro da Google Inc na AOL. Larry Page e Sergey Brin fundaram a Google quando ainda faziam doutorado em Stanford. Chegou um momento em que o negócio cresceu demais para ser administrado a partir do dormitório da universidade, e aí entrou em cena um professor que lhes passou um cheque de US$ 100 mil. No início, Larry e Sergey ainda tentaram licenciar a Google a outras empresas, pois queriam concluir seus PhDs, mas ninguém se interessou. Consta que a Google foi iniciada no desespero: eles não tiveram outra opção senão começar tudo sozinhos.

Segundo Judy Estrin, em "Closing the Innovation Gap" (McGraw-Hill, 2008), para que a Google viesse a ser a potência tecnológica que é hoje foi necessário mais que transformar pesquisa acadêmica sobre algoritmos de busca num espertíssimo engenho de busca para a internet. A empresa também teve que desenvolver um modelo de negócio que lhe daria uma sólida fonte de receita no longo prazo. Os programas AdWords e AdSense - que exibem discretamente anúncios pagos ao lado dos resultados do algoritmo de busca - se revelaram tão inovadores e eficazes quanto o próprio engenho de busca.

Em palestra de 2002, conjunta com o CEO Eric Schmitt, disponibilizada no portal de educação de empreendedores em tecnologia de Stanford, Larry Page revela que pesquisa básica e boas idéias são a chave para se criar tremendas oportunidades no mercado de tecnologia. Até aí, nenhuma novidade. Mas não demora muito para que o diferencial venha à tona: "uma quantidade enorme de novos conhecimentos está sendo criada o tempo todo, e muitos podem ser utilizados como fundamento para inovação". E vai mais adiante, mostrando um exemplo no qual um projeto do biólogo Robert Full (Berkeley) resultou num "robô-barata": observando que a barata vence incríveis obstáculos somente pelo fato de que suas pernas se comportam como molas, e que mesmo com pouca "inteligência" ultrapassa obstáculos difíceis, foi proposto um robô no qual a inteligência estaria no "design" e não no "cérebro" do bicho.

O título desse trecho específico da palestra é bem sugestivo: "Science as Inspiration". E a explicação é bem simples: isso é algo que as empresas freqüentemente deixam passar, e que podem realmente significar grande coisa, e o quão enormes são as oportunidades de se chegar ao sucesso em empreendimentos. "Não há como exagerar nesse ponto; há tremendas oportunidades para se usar pesquisa básica e boas idéias que você ou outras pessoas tenham. (.) Meu ponto é que existe um monte de grandes inovações por aí, muito conhecimento novo que surge o tempo todo, e, se você se depara com uma dessas coisas, e a utiliza como fundamento para uma empresa ou para inovação empreendedora em geral, você vai estar numa posição muito mais forte em termos de negócios. E esse é um bom lugar para se posicionar, se você está começando uma empresa".

Antes de Larry e Sergey, muitos foram os pioneiros de Stanford: em 1969, o Stanford Artificial Intelligence Lab, fundado por John McCarthy, tornou-se um dos primeiros nós da ARPAnet, a precursora da internet. Cinco anos depois, Vinton Cerf ajudou a desenvolver o protocolo TCP, e em 1984 Leonard Bosack e a aluna de economia Sandy Lerner fundaram a Cisco. Dez anos mais tarde, Jerry Yang e David Filo, doutorandos em engenharia elétrica, iniciaram a Yahoo!

Tendo sido fundada em 1891, Stanford somente veio a revelar ao mundo sua vocação de "transformar o mundo através da inovação tecnológica" a partir dos anos 1970 com a simples idéia de estimular a criação de uma "empresa montada numa garagem, para explorar uma idéia maluca utilizando tecnologia" (Bill Hewlett e David Packard abrindo o caminho com a HP no final dos anos 1930). Hoje, muitas são as iniciativas de tentativa de reprodução do ambiente criado no "Vale do Silício", seja no próprio território americano (Seattle, por exemplo), seja na Europa ou na Ásia. Todavia, conforme Ron Conway (Angel Investors LP, escolhido como número 6 na lista "Midas" de maiores "dealmakers" da Forbes Magazine em 2006) e Mike Mapels Jr (Maples Investments) declaram numa palestra intitulada "Silicon Valley: Ground Zero for the Deal", para o Stanford University's Entrepreneurship Corner, ali o ecossistema de idéias, empreendedorismo, e investimento de capital de risco é tão poderoso que nenhuma outra região sequer chega próximo: trace um raio de 40 km em torno da Stanford University e aí estão 75% dos casos de sucesso da indústria do chamado "venture capital".

O fato concreto é que nada menos que Google, Yahoo, Hewlett-Packard, YouTube, Sun, Cisco, eBay, PayPal, Orkut, Electronic Arts, Dolby, e outros ícones da sociedade da informação brotaram no campus de Stanford. Nem mesmo Harvard (aí incluindo o MIT), que em quase todos os sistemas de pontuação acadêmica se põe à frente de Stanford, e com o dobro do endowment (US$ 35 bi contra US$ 17 bi), tem registro minimamente comparável de empreendimentos tecnológicos transformadores já consolidados.

Embora a capacidade empreendedora não tenha sido fator de sucesso acadêmico em Stanford, o espírito de respeito mútuo entre academia e empreendimento que tem prevalecido ali é reflexo do desejo de fazer impacto em escala global. Em março de 2006, por ocasião da cerimônia de celebração dos 40 anos de ciência da computação em Stanford, Bill Dally (chefe do depto. de computação) dizia: "É um equilíbrio delicado, pois você não quer que valores acadêmicos sejam comprometidos por valores corporativos (...). Uma universidade é para criar conhecimento, e uma empresa é para criar valor. Acho que Stanford encontrou um equilíbrio apropriado".

Vencer o impasse entre a desconfiança de cada lado (acadêmicos só pensam no conhecimento, empreendedores só pensam no lucro) deve ser encarado como um desafio a ser constantemente perseguido, sobretudo nos países emergentes. A China parece ter entendido bem a lição. Rebecca Fannin, em "Silicon Dragon: How China is Winning the Tech Race" (McGraw-Hill, 2007), faz um alerta para velocidade com que os chineses caminham para tomar a frente no setor de inovação tecnológica: "a China tem o mercado de capital empreendedor que mais cresce no mundo e também o maior crescimento no número de novos pedidos de registro de patente". E lembra que a nação que nos deu o ábaco, a seda, o papel e a pólvora já está em oitavo lugar no ranking de novas patentes, caminhando rapidamente para assumir o terceiro lugar, atrás apenas dos EUA e do Japão.

Pesquisa científica esperta, desenvolvimento, e aplicação em inovação com base em conhecimento científico, tudo isso tem desempenhado um papel fundamental no sucesso da Google, e por que não aprender e procurar assimilar bem o exemplo?


O Globo Online, 02/09/2008,http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/09/02/a_ciencia_como_inspiracao-548050565.asp