domingo, 24 de julho de 2011

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

Empreendedorismo de Internet na Criação do Futuro

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O imenso contraste entre, por um lado os números preocupantes do desemprego de Junho revelados há pouco pelo governo americano e, por outro lado, os números recordes de desempenho da Apple, as fabulosas operações de IPO da LinkedIn e da Zillow (levando o emblemático investidor Frank Quattrone a chamar a LinkedIn de “a Netscape da era atual”), traz de volta a discussão em torno do papel da inovação tecnológica na geração de riqueza. Nunca é demais lembrar que através do conceito absolutamente inovador de “internet browser” (“navegador da internet”), a Netscape abriu caminho para uma onda multi-bilionária de criatividade na internet que transformaria praticamente todas as indústrias e vidas de bilhões de pessoas online atualmente. Em 1995 o IPO da Netscape, então uma empresa de 18 meses de idade que ainda não dava lucro, incendiou os mercados financeiros gerando uma das maiores valorizações de ações no primeiro dia de oferta em toda a história das bolsas de valores.
Com sorte de campeã, a Netscape teve seu IPO num momento em que estava se processando uma maior democratização do investimento em bolsa de valores, e, como disse Sarah Lacy em “How We All Missed Web 2.0's "Netscape Moment"” (Techcrunch, 03/04/2011), não foram os bancos de investimento os responsáveis pelo estrondoso sucesso da oferta inicial da Netscape, mas sim os investidores individuais invadindo as corretoras para comprar um exemplar do produto que desejavam e que experimentou valorização tão rápida e dramática no mercado de ações. E o co-fundador da Netscape, Marc Andreessen, hoje investidor anjo e capitalista de ventura, “foi um sinal para todo hacker ou geek de que você poderia mudar para o Vale do Silício e construir algo enorme (e ficar rico) em questão de meses – algo que nunca tinha sido possível antes.”
Aparecendo como um bastião de esperança no cenário econômico dos Estados Unidos, e, como diz Jon Bischke em seu artigo “A Tale Of Two Countries: The Growing Divide Between Silicon Valley And Unemployed America” (Techcrunch, 16/07/2011), uma das poucas coisas que ainda mantêm a expectativa de não deixar que o país perca a posição de uma das maiores superpotências econômicas mundiais, o efervescente setor de tecnologia parece ter retomado o ritmo alucinante de crescimento que se viu nos anos que antecederam o estouro da bolha da internet em 2000. Empresas de crescimento rápido como Facebook, Groupon e Twitter,cujas valorações de mercado atingem níveis estratosféricos, não apenas criam empregos, mas também atraem investimentos estrangeiros e geram enorme riqueza para seus empregados e acionistas que acaba circulando na economia do país. Até o mercado de automóveis de luxo se beneficia da efervescência do setor de tecnologia: em artigo publicado no Wall Street Journal (“Tech Boom Revs Up Demand for Luxury Cars”, 21/07/11), Shayindi Raice relata que no Vale do Silício as concessionárias de carros de luxo experimentam um aumento significativo nas vendas desde o final de Junho.
Muito já se falou dos impactos econômicos da internet, e, entre os fatores apontados por vários estudiosos está o fenômeno da generatividade analisado por Jonathan Zittrain em seu artigo “The Generative Internet” publicado no Harvard Law Review em 2006. Em poucas palavras, Zittrain oferece três razões fundamentais: (1) generatividade é o que faz uma rede global de PC’s interconectados se constituir numa tecnologia tão transformadora; (2) generatividade não é uma característica inerente ou imutável da rede de PC’s que forma a internet, mas sim o resultado de um certo número de decisões de projeto implementadas em código executável, que podem ser modificadas posteriormente; (3) vulnerabilidades de segurança servirão de balizadores cruciais na manutenção de um equilíbrio entre as demandas por maior segurança por parte de consumidores e órgãos governamentais reguladores e as necessidades de abertura fundamentais para manter a plataforma propícia à criatividade e à inovação.
Mais recentemente, Barbara van Schewick em seu livro “Internet architecture and innovation”  (The MIT Press,  Junho 2010) faz uma análise pormenorizada dos princípios que estão por trás das referidas decisões de projeto que têm feito da arquitetura da internet um terreno fértil para a inovação. Em destaque a advertência apontando os impactos econômicos que poderiam advir associados a mudanças na estrutura da internet de uma arquitetura aberta permitindo a qualquer inovador desenhar uma aplicação ou compartilhar um conteúdo para uma estrutura na qual os intermediários (i.e., os provedores de serviço de internet) têm que autorizar o acesso a conteúdo e desenhar as aplicações principais eles próprios. Valendo-se de uma retrospectiva da história da internet, van Schewick vai buscar na teoria econômica o apoio necessário à sua afirmação de que uma internet altamente controlada não apenas constituiria um desvio de sua característica convidativa à inovação, mas também, e infelizmente, resultaria em grandes prejuízos aos interesses econômicos, culturais e políticos da sociedade.
A bem da verdade, acrescenta van Schewick, a arquitetura original da Internet foi baseada em quatro princípios de desenho – modularidade, hierarquia em camadas, e duas versões do muito celebrado porém muito mal-entendido “argumento fim-a-fim” (i.e., o intermediário não decide, apenas repassa). Van Schewick demonstra que esse desenho tem servido de terreno fértil para a inovação em aplicações e permitiu que aplicações e serviços como e-mail, World Wide Web, eBay, Google, Skype, Flickr, Blogger e Facebook emergissem e fossem bem sucedidos. Em última análise, a capacidade da internet de propiciar maior liberdade ao indivíduo, devido à sua característica de plataforma apropriada a uma maior participação democrática, e sua capacidade de alimentar uma cultura mais crítica e auto-reflexiva estão fortemente associadas a características resultantes da versão mais ampla dos chamados argumentos fim-a-fim.
Um dos empreendedores de internet em maior evidência no momento, Reid Hoffman, co-fundador e Executive Chairman da LinkedIn, dá seu testemunho em palestra intitulada “Entrepreneurs Will Create The Future” no encontro “Endeavor Entrepreneur Summit” organizado em San Francisco de 28 a 30 de Junho de 2011. Chamando a atenção para o fato de que o empreendedor hoje tem o papel de criar o futuro, Hoffman sugere alguns princípios básicos que devem ser seguidos por aqueles que almejam navegar pelo processo de empreendedorismo e criação de startups de inovação tecnológica. Para se tornar um empreendedor eficaz, Hoffman recomenda seguir alguns princípios fundamentais: ( 1) buscar sempre por mudanças disruptoras; (2) almejar alto; (3) construir uma rede em torno de seu empreendimento; (4) planejar para a boa e a má sorte; (5) manter uma persistência flexível; (6) lembrar que essas regras são apenas guias e não leis.
Nesse pormenor Hofmann lembra que quase todas as startups bem sucedidas passarão por momentos críticos, os chamados momentos de
“vale da sombra”, quando todos na equipe inicial passam a se perguntar “por que é que essa é uma boa idéia?”. E aí é preciso entender como lidar com o processo de agir com “persistência flexível”, ou seja, adotar uma postura “pivotante” (i.e., girando em torno de um pivô): além de um plano A e um plano B, é preciso vislumbrar um plano Z na eventual necessidade de vender ou mesmo fechar a empresa.
Seja lá qual for o plano adotado, o fato é que, como diz Hoffman, empreendedores devem assumir o papel dos pioneiros modernos da era atual, no sentido de que devem estar procurando enxergar oportunidades e trazer produtos e serviços que permitam a sociedade inventar e se adaptar ao futuro, especialmente num momento de grandes mudanças como o aquecimento global, mudanças no mercado financeiro, e globalização.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

domingo, 17 de abril de 2011

A Ascensão dos Anjos e a Democratização do Acesso a Investidores


A Ascensão dos Anjos e a Democratização do Acesso a Investidores

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Também no universo naturalmente concentrador de poder e riqueza que é a indústria do investimento de capital de risco em inovação tecnológica, eis que aparece mais uma vez o efeito democratizante da internet e das mídias sociais. Uma rede social chamada AngelList, criada especificamente para propiciar um meio de comunicação entre empreendedores e investidores, está causando uma reviravolta no Vale do Silício. Agindo como se fosse uma rede de busca de parceiros amorosos, nesse caso entre startups e investidores-anjo, o site combina o fazer negócios com o uso de perfis em redes sociais para torná-lo “a maior inovação na indústria do capital de ventura desde que Paul Graham fundou a Y-Combinator cinco anos atrás”, segundo Dave McClure. Mais de 1.500 investidores já se registraram no site, incluindo cerca de 400 capitalistas de ventura. A grande maioria é constituída de investidores-anjo, termo associado àqueles que adquirem participação societária numa empresa jovem usando seu próprio dinheiro. A AngelList propicia maior visibilidade para um grande número de startups que têm que passar pelo processo de levantar capital, e que, sem esse novo canal de comunicação, não teria praticamente nenhum acesso a investidores.
O fato é que Vale do Silício tem testemunhado um significativo deslocamento do eixo de poder desde que a última grande bolha economico-financeira estourou, e, mais especificamente, nos últimos 18 meses. Empreendedores e investidores outrora membros do “baixo clero” tais como anjos, super-anjos, capitalistas de ventura de micro-capitalização, e incubadoras semente, estão começando a dar as cartas no cenário de investimento em empresas de web para o consumidor no estágio inicial. E, ao que tudo indica, trata-se de uma mudança definitiva, pois as próprias startups dos dias de hoje se diferenciam significativamente daquelas do início dos anos 2000. Como observa Naval Ravikant, co-fundador da AngelList, em palestra intitulada “The RiseoftheAngels” hospedada pela Capital Factory em Outubro de 2010, há uma clara ascensão dos investidores-anjo como consequência da ascensão dos empreendedores. E estes trazem novas exigências aos investidores: decisões independentes e rápidas, manutenção do controle da empresa, direito de vender, valorização dos relacionamentos entre pares, conhecimento específico, adiantamento do investimento em espécie.
Observa-se a formação de um novo ecossistema ao qual as startups terão que se adaptar. Um dos principais fatores para que essa mudança venha a ser concretizada foi a diminuição do nível de investimento mínimonecessário para se criar uma empresa no setor de web para o consumidor, caindo do patamar de milhões para centenas de milhares de dólares. E essa queda de patamar se justifica na medida em que alguns avanços tecnológicos se popularizaram: (i) os sistemas aplicativos podem ser hospedados “na nuvem” em servidores da Amazon, da Google, ou mesmo da Rackspace; (ii) os esforços de relações públicas podem ser alavancados com ajuda de Twitter e Facebook; e, não menos importante, (iii) as estratégias de vendas e de formação de uma carteira de clientes têm o suporte de plataformas de “software como serviço” tais como a Salesforce.com.
Dado que empreendedores carecem de bem menos capital que em outras épocas, é natural que a oferta de investidores seja maior, além do fato de que aspirantes a investidor-anjo passam a ter condições de atuar e causar impacto num segmento que há algum tempo atrás era dominado por altos investimentos. Entre esses aspirantes a investidor-anjo estão ex-funcionários de grandes empresas como Google e Facebook que saem com algum capital em mãos e, ao buscar opções de investimento, se dão conta de que o melhor retorno ainda reside em investir em inovação tecnológica.
Em decorrência desse estado de coisas, tudo aponta para uma nova bolha de investimentos no setor de tecnologia, sobretudo no seio da internet. Em 2010, os investimentos de risco (capital de ventura) cresceram pela primeira vez desde 2007. O volume de investimentos em empresas no estágio inicial cresceu 15 por cento em relação ao ano anterior, registrando o primeiro aumento desde 2007, segundo a National Venture Capital Association. E se há um segmento que parece estar atraindo todas as atenções no mercado de investimentos de risco, esse é sem dúvida o grupo de empresas que se encontram entre o estágio semente e o estágio inicial. Um espaço tradicionalmente ocupado pelos investidores-anjo passa agora a ser disputado por VC’s (capitalistas de ventura), por novos milionários, e até pelos chamados “super-anjos”. Emblemático é o fato de um nome de grande tradiçãona indústria do capital de ventura, tal como a Greylock,ter lançado recentemente seu “Discovery Fund” destinado a investir quantias tão pequenas quanto 25 mil dólares em startups.
Com todo esse movimento, é natural que as avaliações de preço de mercado têm subido assustadoramente. Segundo Dave McClure (prolífico investidor-anjo convertido em capitalista de ventura), além da investida dos VC’s, que, por tradição, são menos sensíveis a preços, no terreno do investimento sementehá de fato mais dinheiro disponível e menos oportunidades para empregar toda essa riqueza. No momento atual da economia mundial, investimentos em imóveis e em papéis do governo se revelam pouco atraentes, daí o aparecimento de uma bolha global em setores de menor risco, e, curiosamente, um portfólio diversificado de startups de repente parecer relativamente menos arriscado até mesmo do que letras do governo, o que não acontecia há dois anos atrás. Some-se a isso o fato de que, em função da redução drástica de custos para a criação de uma startup (comoditização da tecnologia, computação em nuvem, acesso à clientela através das redes sociais, etc.), sem falar na alavancagem praticamente gratuita oferecida por plataformas como iOS, Android, Facebook,Twitter, Google, Amazon, empreendedores estão conseguindo realizar mais, mesmo antes de levantar recursos de investidores.
Em artigo no seu blog Startupboy.com intitulado “Thereis No Angel Bubble. There are Many Angel Bubbles” (01/12/2010), Naval Ravikant diz que as avaliações de startups com fins de recebimento de investimento-anjo têm subido muito rapidamente, e, talvez, de forma insustentável. Para se ter uma idéia, conta Ravikant, vinte empresas do portfólio de um investidor avaliadas em X dólares podem hoje subitamente representar vinte pequenas bolhas numa avaliação de 2 vezes. Pode não ser possível viabilizar essas valorações numa micro-aquisição, ou mesmo levar a uma redução de valor numa rodada de financiamento de capital de ventura. Pode acontecer também que esses investimentos acabem dando um retorno abaixo da média para o que parecia candidatos a sucesso. O fato é que os preços têm subido, e isso vai atingir o retorno no investimento, afirma Navikant.
E a subida dos preços não se deve a uma enorme entrada de dinheiro, mas devido a um influxo modesto de dinheiro insensível a preços. Um pequeno número de investimentos-anjo de alta repercussão fazendo movimentar pequenas quantidades de capital porém com base em valorações muito altas pode fazer com que o mercado como um todo pareça oferecer valorações exageradas. Seriam essencialmente três as razões que têm guiado esses investidores insensíveis a preços: (1) fundos de capital de ventura – todo capitalista de ventura que anuncia um fundo semente de 20 milhões seria essencialmente um super-anjo insensível a preço; (2) empreendedores estabelecem os preços – rodadas de financiamento grupais e sem líder normalmente terminam com os empreendedores estabelecendo a valoração; (3) novos anjos – as pessoas que têm tido saídas (i.e., oferta de ações na bolsa de valores, aquisição ou fusão com empresa de maior porte) com valores modestos e hoje são anjos estão simplesmente montando seus portfólios, e sem a devida experiência para entender que preço é de suma importância muito embora a tendência seja “se essa a empresa certa, preço é irrelevante”.
Com bolha ou sem bolha, o fato é que a indústria do capital de ventura passa por mudanças estruturais que vieram para ficar, e as mídias sociais têm grande responsabilidade nisso tudo. “Capital de ventura é um negócio e está aberto a ataque por startups com novos e disruptores modelos de negócio e tecnologias”, diz Ravikant. Aos tradicionais capitalistas de ventura McClure avisa que, muito embora suas redes de conexões, recomendações e reputações agreguem valor, “se isso for tudo com o qual você negocia, então se prepare para sofrer disrupção por parte de LinkeIn, Quora, Facebook, Twitter, AngelList, etc.”
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Dimensão Tácita do Conhecimento e Uma Nova Cultura de Aprendizado


A Dimensão Tácita do Conhecimento e Uma Nova Cultura de Aprendizado

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Num mundo em constante mudança, e num ritmo cada vez mais acelerado de transformações, os próprios conceitos de saber e aprendizado passam por um momento de redefinição e reformulação. Os sistemas educacionais padronizados se deparam com o grande desafio de ter que se ajustar a uma época em que tudo em torno do conceito de informação, desde fatos, conhecimento, pesquisa, métodos, ferramentas, interpretações, e até contextos, se encontra em expansão e mudança a passos largos. As práticas educacionais baseadas na concepção de que o aprendizado se dá na medida em que o conhecimento é transferido do instrutor para o aprendiz simplesmente não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças.
Ainda que em melhor posição, as práticas que incorporam adaptação e ajuste a mudanças também se vêem passadas rapidamente para trás na medida em que o ambiente requer que o conteúdo seja atualizado praticamente na mesma velocidade em que é ensinado. Ao invés de tentar uma resistência quixotesca a todo esse contexto fluido e dinâmico, o desafio é encontrar um conjunto de princípios básicos que dê suporte a uma nova cultura de aprendizado.
Em seu novo livro “A New Culture of Learning: Cultivating the Imagination for a World of Constant Change” (CreateSpace, Jan 2011), Douglas Thomas e John Seely Brown buscam um entendimento de como as forças de mudança e as ondas emergentes de interesse associadas a essas forças podem nos inspirar e nos levar a imaginar um futuro para o aprendizado que seja, ao mesmo tempo, poderoso e repleto de otimismo. A idéia é que uma melhor compreensão dos processos de aprendizado que dão suporte às práticas que emergem da participação em redes digitais pode nos capacitar a conceber ambientes de aprendizagem que possam tirar proveito do poder da cultura de participação inerente às mídias sociais em prol da educação no século XXI.
Trata-se de uma perspectiva mais colaborativa da troca de conhecimento realizada no que os autores chamam de “o coletivo”. Enquanto que o espaço “público” invoca amplitude e anonimidade, o coletivo é formado por pessoas que compartilham valores e se vêem engajadas em práticas compartilhadas. Segundo Thomas & Brown, dois elementos compõem a nova cultura de aprendizado: (i) “uma rede maciça de informações que propicia acesso e recursos praticamente ilimitados para aprender sobre tudo” e (ii) “um ambiente limitado e estruturado que dá espaço para atuação ilimitada no sentido de construir e experimentar com coisas dentro desses limites”.
É fato que a combinação da internet com a telefonia móvel propiciaram tamanho grau de interconectividade e interatividade a ponto de dar surgimento a um novo sentido de tutoria propiciada pelo acesso a múltiplos níveis de expertise.Enquanto que no sentido tradicional tutoria era um meio de passar cultura a membros numa comunidade, tutoria no coletivo está mais relacionada a aprender e desenvolver relacionamentos entre-pares (“peer-to-peer”) temporários que são naturalmente fluidos e impermanentes.  E nesse caso, a expertise é compartilhada de forma aberta e espontânea, sem qualquer compromisso com uma missão institucional.
Por outro lado, o estímulo à curiosidade e à experimentação lúdica trazido pelos jogos eletrônicos, vem se somar a um ambiente propício a uma nova cultura de aprendizado. (É justamente nesse sentido que John Seely Brown chama os dispositivos móveis da nova geração – iPods, iPads, smartphones, vídeo games móveis – de “amplificadores da curiosidade”.) Além de fazer surgir na criança habilidades para lidar com condições novas, inesperadas e mutantes, o brincar é mais que uma ferramenta para administrar mudanças, pois permite fazer com que coisas novas se tornem familiares, experimentar com alternativas diferentes, e, fundamentalmente, assumir a mudança como inerente ao mundo atual—uma característica chave para o sucesso no século XXI, segundo os autores.
Fincada na idéia de que o aprendizado consiste na aquisição de habilidades ou na transmissão da informação, a concepção predominante no século XX seria definida como “aprender sobre” (“learning about”). Já no final do século passado começou a se consolidar a concepção denominada de “aprender a ser” (“learning to be”) caracterizada pela inserção do aprendizado num contexto situado que leva em conta, além da transmissão da informação, os aspectos relativos a sistemas e identidade. Dadaa fluidez com a qual as mudanças estão ocorrendo nos dias de hoje, os autores propõem a adoção de uma perspectiva mais apropriada aesses novos tempos: a abordagem “aprender a vir a ser” (“learningtobecome”).A idéia é que, enquanto que as teorias do aprendizado consideram o “vir a ser” como um estado de transição, essa nova abordagem vê o aprendizado como uma prática do vir a ser recorrente, e que pressupõe participação e engajamento.
Se, por um lado, a velha mídia assume que o aprendizado consistia na absorção ou interpretação de uma mensagem transmitida, por outro lado, a nova mídia parte do princípio de que o aprendizado é um processo de engajamento com a informação e seu uso num contexto social mais amplo como um componente fundamental da chamada “inquirição produtiva”, noção originalmente concebida no pragmatismo de John Dewey, que, aliás, se aplica também à velha mídia. A diferença, segundo Thomas & Brown, é que o arcabouço social da nova mídia começa a desvendar um aspecto da inquirição produtiva que nunca havia sido pensado nem sequer estava disponível antes do advento das mídias sociais: a capacidade de engajar a imaginação. Permitindo a fusão da tecnologia de redes, de comunidades de interesse e de um sentido compartilhado de presença mútua, a infraestrutura da nova mídia deu origem ao que os autores chamam de “imaginação em rede”. Dado que o paradigma para o aprendizado na velha mídia é a noção de transferência direta do conhecimento, como se este fosse uma substância, Thomson & Brown estão mais interessados em descobrir como seria uma teoria do aprendizado para as mídias coletivas, sociais e participatórias.
Em artigo intitulado “Learning for a World of Constant Change: Homo Sapiens, Homo Faber & Homo Ludens revisited”, apresentado por John Seely Brown no “7th GlionColloquium” realizado em 2009, Thomas & Brownexaminam o aprendizado no contexto de três pilares: saber, fazer e brincar. Com a intenção de argumentar que não é por transferência de conhecimento que o aprendizado funciona, os autores vão buscar no trabalho de Michael Polyani (“The Tacit Dimension”, 1967) a base para suas convicções de que o conhecimento tem uma dimensão essencialmente social: trata-se da dimensão tácita, que, segundo Polyani, complementa a dimensão explícita do conhecimento.
Ao observar a dimensão social da nova mídia, afirmam Thomas & Brown, é possível começar a ver que contextos sociais nos quais o saber, o fazer e o brincar surgem como elementos centrais do aprendizado e que a estrutura do aprendizado nesses novos contextos estão diretamente relacionados à interação entre esses três elementos. E, concluem, esses três domínios do aprendizado também correspondem a três componentes mais amplos: Homo Sapiens (humano como aquele que sabe), Homo Faber (humanocomo aquele que faz) e Homo Ludens (humano como aquele que brinca/joga).
Por fim, como recomendação para que floresça uma nova cultura de aprendizado, será preciso: (1) pensar sobre o problema como uma crise no aprendizado ao invés de no ensino; (2) prestar atenção ao poder das novas culturas do aprendizado que já estão acontecendo e entender o que as torna bem sucedidas; (3) lançar mão de novos recursos: aprendizado entre-pares, amplificado pelo poder do coletivo; (4) entender como otimizar os recursos (e a liberdade) de grandes redes, e ao mesmo tempo proporcionar atuação pessoal e individual dentro dos limites de um espaço de problemas criado por um ambiente de aprendizado limitado.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Democratização da Inovação Tecnológica e o Conceito de Pivô


A Democratização da Inovação Tecnológica e o Conceito de Pivô

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Muito além de um ecossistema de ferramentas de comunicação e de troca de informações, a internet tem se mostrado um extraordinário instrumento de democratização da capacidade de produzir inovação tecnológica. Desde a sua concepção no final dos anos 1960’s que a internet foi projetada para servir tanto como um meio de estabelecer uma rede no sentido abstrato do termo, como um instrumento para abrigar redes heterogêneas ao mesmo tempo em que permitisse que essas redes funcionassem independentemente, isto é, tanto como um conjunto de componentes quanto como a própria entidade que agrega esses componentes.
A capacidade generativa de audiências que não se conhecem e, não necessariamente gozam de mútua credibilidade, de construir e distribuir código executável através da internet para milhões de computadores pessoais transformou-se no estopim de um crescimento e um turbilhão de inovações em tecnologia da informação, ao mesmo tempo que propiciou terreno fértil para a criatividade e o empreendedorismo. A bem da verdade, tantas são as inovações já acalentadas pela internet que não seria exagero admitir que os impactos da rede na história da humanidade se situam no mesmo diapasão que os do carro Modelo T da Ford e os da prensa de Gutemberg.

Abertura tem sido, desde o início, uma das características fundamentais da internet: qualquer computador ou dispositivo de processamento de informações poderia fazer parte da rede, desde que houvesse uma interface apropriada, o que, via de regra, não era difícil de montar. Reproduzindo e, ao mesmo tempo, ampliando o crescimento explosivo da internet, a popularização de um dispositivo multifuncional e facilmente reconfigurável como o computador pessoal permitiu que o universo de usuários que escrevem software para esse dispositivo viesse a atingir larga escala e um alto grau de diversidade. Não obstante a mais recente tendência de criação de sistemas fechados sobre a rede aberta (veja-se o exemplo dos sítios de aplicativos dedicados a plataformas específicas), a diversidade e a escala têm levado a uma ampla variedade de aplicações responsáveis por inovações em áreas as mais diversas tais como política, entretenimento, jornalismo, educação, publicidade, economia.
O fato é que os baixos custos da inovação na forma de aplicação (software) sob uma arquitetura aberta permitem o surgimento de inovações sob os mais diversos modelos de financiamento. Dado que, regra geral, uma nova aplicação nem sempre demanda grandes investimentos em capital, o inovador pode buscar implementar sua idéia apenas durante seu tempo livre, sem ter que abandonar seu emprego ou ocupação atual. Trata-se de aspecto de grande valia, sobretudo se ainda há dúvida sobre sua viabilidade técnica ou mesmo sobre a existência de uma demanda. Além do mais, a queda de preços nos produtos de tecnologia, a disponibilidade de software de código aberto, a comoditização da tecnologia, o fácil acesso a serviços terceirizados de tecnologia (crowd-sourcing), e a computação em nuvem, todos esses fatores têm reduzido os custos necessários para a construção de novos produtos. Em palestra recente ao Stanford Technology Ventures Program (“FundingThunderLizardEntrepreneurs”, 27/10/10), a investidora Ann Miura-Ko, parceira da empresa de investimentos de risco Floodgate, destaca que esses elementos têm contribuído para criar uma grande flexibilidade de prototipagem rápida, e uma nunca dantes vista facilidade e capacidade de ajustar novos produtos para o mercado.
É justamente nesse sentido que Eric Ries, autor do blog “StartupLessonsLearned.com” e conhecido defensor do método “The Lean Startup” de desenvolvimento de produtos no contexto de tecnologia para inovação, defende que o paradigma “inovação através da experimentação” se aplica perfeitamente ao universo de startups (empresas recentemente criadas), principalmente, mas não apenas, as de serviços de internet. Segundo Ries, a maioria das startups fracassa, uma grande parte por razões que poderiam ser evitadas, e portanto não deveríamos nos acomodar e aceitar passivamente o baixo nível de sucesso que se observa na indústria do capital de risco. É preciso renunciar a alguns preciosos mitos do empreendedorismo como se pratica nos dias de hoje, e mudar a forma de operar no mercado de investimento em inovação tecnológica. Ries começa definindo: “uma startup é uma instituição humana desenhada para entregar um novo produto ou serviço sob condições de extrema incerteza”. O que diferencia uma startup bem sucedida é a capacidade de trazer à tona as melhores idéias sob extrema dificuldade, ou seja, a capacidade de encontrar o “pivô” – o ponto de reinvenção no qual a startup se dá conta de que suas idéias originais carecem de uma reinstrumentalização. E, mais importante, a startup bem sucedida é aquela que consegue encontrar seu mercado antes que o dinheiro acabe.
Conforme defende Miura-Ko, uma startup bem sucedida não floresce unicamente de uma grande idéia: o sucesso decorre da capacidade de fazer crescer um negócio em torno da grande idéia. O ecossistema do capital de risco, uma razoável base de clientes, canais de distribuição e fabricação acessíveis, todos esses fatores acabam convergindo para um modelo de negócios que se revela viável e escalável. Justamente, a internet serve de laboratório de experimentação no qual os empreendimentos podem testar com agilidade seus modelos de negócio, usando, por exemplo, mídia social alavancada por uma criação de demanda e estruturas de preço flexíveis.
Com base na premissa de que uma idéia inovadora não necessariamente tem um mercado que esteja pronto para absorvê-la, a proposta de Ries é que o desenvolvimento de um produto seja feito incremental e interativamente em parceria com o suposto universo de clientes, para que se minimize o tempo entre os pivôs. Ainda que correndo o risco de mal comparar, o lançamento de alguns produtos da Google, por exemplo, se dão por um método de espírito semelhante: através de versões “alfa”, “beta”, etc., o produto vai sendo experimentado e ajustado conforme a satisfação da eventual clientela, que aliás não era exatamente conhecida no início do processo. Daí, uma startup “lean” (“enxuta”) opera com um plano de negócios que pode ser dinamicamente reformulado até que um modelo de negócios bem sucedido possa ser encontrado. Através de uma rápida mudança de pivô com base na realimentação fornecida pela clientela, uma startup pode estender seu espaço de manobra sem que sofra diluição significativa decorrente de uma nova rodada de financiamento. No laço de realimentação “Construir-Medir-Aprender”, considerado como “uma unidade de progresso”, um pivô é um ciclo completo, e o crescimento da startup se dá através de uma aprendizagem validada por meio de uma série de pivôs.
O termo pivô vem do fato de que quando empreendedores obstinados descobrem algo errado em sua idéia original, eles não simplesmente abandonam tudo. Ao contrário, mantêm um pé firme sobre o que aprenderam com a experiência anterior, e avançam com o outro pé na nova direção. Segundo as estatísticas, esse padrão de comportamento “zigue-zague” predomina entre as startups bem sucedidas.
Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE