terça-feira, 3 de novembro de 2009

Humanos como Sensores

Humanos como Sensores

TER, 03 DE NOVEMBRO DE 2009 07:53 IN
3 de novembro de 2009 - Com a disponibilidade do iPhone, assim como de uma gama de aparelhos celulares de última geração conhecidos como smartphones, que, via de regra, dispõem de sensores tais como camera (foto e vídeo), acelerômetro, sensor de posicionamento global (GPS), sensor de proximidade, e magnetômetro (bússola digital), além do fácil acesso à internet, cada ser humano passa a ter a capacidade concreta de agir como um sensor inteligente, e suas observações podem ser cruciais numa situação de desastre natural.
Eventos de grande impacto tais como o tsunami que devastou partes do sudeste da Ásia, e o Furacão Katrina que tantos estragos trouxe a Nova Orleans, chamaram à atenção para a importância da informação geográfica em todos os aspectos do gerenciamento da emergência, assim como para os problemas que surgem logo após o evento ainda nos momentos em que as imagens ainda não estão disponíveis aos organismos de socorro e assistência. Não apenas os satélites de observação da Terra podem não passar pelas áreas afetadas durante dias, como também as próprias imagens eventualmente coletadas assim como as ações de aeronaves deslocadas para a região podem estar prejudicadas por nuvens e possivelmente fumaça. As condições em terra também podem estar dificultando a captura e o registro de imagens, seja por falta de energia, conexões de internet, ou pane em computadores ou software.
Por outro lado, a população da área atingida, além da inteligência humana, tem o privilégio da familiaridade com a região, e hoje tem à sua disposição uma combinação extremamente poderosa: a telefonia móvel e a internet interativa. Trata-se de uma realidade que se consolida a cada dia: o amplo e crescente engajamento de grandes quantidades de cidadãos comuns, frequentemente com pouca qualificação formal, na criação de informações geográficas, uma função que durante séculos tem sido reservada a agências oficiais. Em sua grande maioria, são cidadãos sem o devido treinamento científico (por isso sua participação nessa coleta de informações tem sido chamada de “ciência do cidadão”), cujas ações são quase sempre voluntárias, e cujos resultados podem ou não ser cientificamente precisos. Mas, coletivamente representam uma espetacular inovação que deverá ter profundos impactos sobre sistemas de informação geográfica. Trata-se da “informação geográfica voluntarizada” (em inglês, “volunteered geographic information”), termo inventado pelo geógrafo Michael Goodchild em seu artigo “Citizens as Sensors: The World of Volunteered Geography” (“Cidadãos como Sensores: O Mundo da Geografia Voluntarizada”), publicado em 2007 no International Journal of Spatial Data Infrastructures Research, para se referir a um caso especial do fenômeno de internet mais geral concernente a conteúdo gerado pelo usuário.
A Wikipedia é um exemplo amplamente conhecido e extremamente bem sucedido desse processo também denominado “crowdsourcing”, termo cunhado por Jeff Howe num artigo publicado no número de Junho de 2006 da revista Wired para se referir ao ato de tomar tarefas tradicionalmente executadas por um empregado ou um contratado, e terceirizá-las a um grupo de pessoas ou comunidade – em inglês, “crowd” – na forma de uma chamada aberta. Nesse processo, indivíduos são capazes, por exemplo, de fornecer os verbetes de uma vasta enciclopédia que é gerenciada por um grupo comparativamente pequeno de revisores e administradores. Tais serviços tipicamente permitem o registro e a manutenção do que se chama tecnicamente de “metadados” de forma razoavelmente estruturada. No caso da Wikipedia, por exemplo, os usuários são capazes de acessar a história completa de qualquer verbete, inclusive todas as versões anteriores e as respectivas modificações. A mudança em relação ao processo tradicional de produção de uma enciclopédia é marcante: ao invés de uma estrutura administrativa elaborada que recruta um certo número de autores, espera por suas contribuições, edita, harmoniza, e imprime o resultado, um processo que pode durar anos, a Wikipedia é montada continuamente, e seus verbetes aparecem praticamente de forma instantânea. Erros normalmente são identificados e retificados pelos próprios usuários. Mesmo não tendo a autoridade conferida por uma editora reconhecida, a Wikipedia já serviu de base para mais de muitas sentenças judiciais emitidas nos EUA: um artigo de 2007 do New York Times (“Courts Turn to Wikipedia, but Selectively”, por Noam Cohen, 29/01/07) dizia que “mais de 100 sentenças judiciais se basearam na Wikipedia, começando em 2004, incluindo 13 dos tribunais de apelação, um degrau antes da Suprema Corte”.
Com o advento do Twitter, surge o crowdsourcing de tempo real, que aliás ganhou ainda mais utilidade quando a ênfase em sua página inicial passou de “O que você está fazendo agora?” para “Veja o que as pessoas estão falando sobre...” . Trata-se de um convite a uma busca a ser realizada sobre os comentários que circulam “agora” na rede social. Pois bem, o U.S. Geological Survey (“Serviço de Pesquisa Geológica dos EUA”) reconhece o valor da informação de crowdsourcing proveniente do Twitter, e desenvolve um sistema que utiliza resultados de busca do serviço de microblog para recuperar e mapear informações sobre terremotos em tempo real. O “USGS: Twitter Earthquake Detector” pretende coletar mensagens relacionadas a terremotos e mapeá-las de modo a propiciar a detecção de terremoto dentro de 60 segundos do ocorrido, um grande avanço em relação aos 2 a 20 minutos necessários aos sistemas científicos atuais de alerta. Usando o Twitter para esse propósito permite não apenas o conhecimento relativamente instantâneo do terremoto, mas também a disponibilidade em primeira mão do grau de destrutibilidade através de fotos e imagens do local do evento fornecidas por “humanos como sensores”.
Durante a Conferência “Web 2.0 Summit 2009”, realizada de 20 a 22/10/09 em San Francisco, Brady Forrest do grupo O'Reilly Media organizou um painel intitulado “Humans As Sensors”, para o qual convidou representantes de quatro organizações que trabalham com aplicativos inovadores utilizando sensores: Markus Tripp (Mobilizy), Deborah Estrin (Departamento de Ciência da Computação, UCLA), Sharon Biggar (Path Intelligence), e Di-Ann Eisnor (Waze).
O Waze é um aplicativo de crowdsourcing de tempo-real e de mapeamento ao vivo. Funciona nos principais modelos de smartphone, e seu serviço é denominado por seus criadores de “cartografia transacional”, pois propicia navegação passo a passo no trânsito baseada em informações de crowdsourcing de tempo real coletadas das mais diversas fontes: Twitter, banco de dados sobre informações típicas daquela localização (velocidade média de tráfego, por exemplo).
A Path Intelligence traz inovação ao mundo das vendas a varejo, em particular os chamados shopping centers, através de um aplicativo chamado “FootPath”: o sistema consiste de um pequeno número de unidades de monitoração instaladas num shopping Center que calculam o movimento de consumidores sem que haja a necessidade de que os consumidores estejam portando algum equipamento, pois as pquenas “torres” medem os sinais que vêm dos seus aparelhos celulares usando uma tecnologia que pode localizar a posição de um determinado consumidor com uma margem de 1 a 2 metros. As unidades alimentam esses dados (24 horas por dia, 7 dias por semana) a um centro de processamento no qual os dados são auditados e uma análise estatística sofisticada é aplicada para criar informações continuamente atualizadas sobre o fluxo de consumidores dentro do shopping center. E a qualquer momento a gerência do shopping center pode acessar esses dados através da internet, e tomar providências baseadas em informações de tempo real. Sharon Biggar, representante da Path Intelligence, sugere uma analogia com o Google Analytics, pois trata-se de coletar dados de sensores, e analisá-los, tudo isso disparado por sinais dos próprios aparelhos celulares, sem a necessidade de instalação de software ou equipamento especial.
Exemplo de verdadeiro engajamento de humanos como sensores, o projeto de “sensoriamento participativo” liderado pela Professora Deborah Estrin da Universidade da Califórnia em Los Angeles, impressiona pelo seu potencial cívico: numa das aplicações de sensoriamento participativo, visitantes de determinados parques nacionais americanos podem contribuir diretamente no controle de ervas daninhas invasivas cujas espécies já se sabe que atacam determinadas regiões, informando a um portal específico (“whatisinvasive.com”), através de imagens e localizações exatas, a ocorrência de tais plantas nocivas ao ecossistema do parque sendo visitado. No mesmo sentido, cidadãos podem informar ao portal quais ervas invasivas ainda não cadastradas estão prejudicando a flora e/ou fauna em sua região, de modo a tentar clamar por ajuda. Ao mesmo tempo que oferece ao indivíduo a chance de contribuir explicitamente com dados para o bem comum, o sensoriamento participativo pode ser usado para o benefício imediato do indivíduo, no que Estrin classifica como captura implícita de dados: o projeto “bikestatic.com” mantém um banco de dados sobre rotas de ciclistas urbanos que são coletados com base nos dados capturados pelos sensores de localização e locomoção dos celulares de ciclistas participantes, e essa informação serve ao indivíduo na medida que o informa sobre duração da jornada, nível de poluição sonora e ambiental nos trechos do percurso, e até mesmo o grau de violência urbana que o ciclista pode encarar conforme o trecho.
E a mensagem do projeto de sensoriamento participativo é cativante: “se você não pode ir a campo com o sensor que você deseja, vá com o sensor que você tem”.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO ( TER, 03 DE NOVEMBRO DE 2009 07:56 )

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Natureza e a Evolução da Tecnologia

A Natureza e a Evolução da Tecnologia

TER, 27 DE OUTUBRO DE 2009 00:42 IN

27 de outubro de 2009 - Embora cientes de que a tecnologia se faz cada vez mais presente na vida contemporânea, não raro nos deparamos com um sentimento dúbio. Foi devido a avanços tecnológicos que muitas vidas têm sido salvas quando em outras épocas teriam perecido, e certamente é a tecnologia que nos separa da Idade Média, e, naturalmente, da forma como vivíamos há 50 mil anos ou mais.
Hoje a tecnologia é parte integrante do nosso modus vivendi: ora nos traz divertimento, ora frustrações, ora deslumbramento com o que nós humanos criamos, e às vezes indagações sobre o que está fazendo de nossas vidas. Mais do que qualquer coisa, a tecnologia tem moldado o nosso mundo, pois tem sido fundamental na criação de riqueza, no desenvolvimento da economia e da própria interação social. Ainda assim permanece um profundo desconforto, e não é apenas devido ao receio de que a tecnologia cause novos problemas para cada problema que ela resolve. Depositamos confiança de que serão os avanços tecnológicos que farão nossas vidas melhorar, e que resolverão alguns de nossos problemas mais graves, de modo a nos livrar do sofrimento e a garantir o futuro das novas gerações. Não obstante, nossa confiança não está nessa esperança, mas na nossa verdadeira origem que é a natureza. É claro que diante da tecnologia utilizada na terapia regenerativa com células-tronco vem um sentimento de esperança, mas ao mesmo tempo surge um questionamento mais profundo: quão natural é essa tecnologia? Como diz W. Brian Arthur em seu mais novo livro “The Nature of Technology: What It Is and How It Evolves” (“A Natureza da Tecnologia: O Que É e Como Evolui”, Free Press, Agosto 2009), “somos apanhados no meio de duas enormes e inconscientes forças: nossas esperanças mais profundas como humanos residem na tecnologia, mas nossa mais profunda confiança repousa sobre a natureza. Essas forças são como placas tectônicas esfregando inexoravelmente uma contra a outra numa colisão longa e lenta.”
E essa colisão não seria nova, ao contrário, mais do que qualquer outra coisa ela estaria definindo nossa era. “A tecnologia está permanentemente criando as questões e as convulsões dominantes do nosso tempo. Estamos saindo de uma era na qual máquinas melhoravam o natural – aceleravam nossos movimentos, economizavam nosso suor, costuravam nossas roupas – para uma que traz tecnologias que se parecem com ou substituem o natural – engenharia genética, inteligência artificial, dispositivos médicos implantados em nosso corpo.” “À medida que aprendemos a usar essas tecnologias, estamos passando de usar a natureza para intervir diretamente na natureza. E portanto a estória desse século será sobre o choque entre o que a tecnologia oferece e aquilo com o qual nos sentimos confortáveis,” acrescenta Arthur.
Brian Arthur, engenheiro e economista, é um pensador influente em tecnologia, economia, e a chamada ciência da complexidade (a ciência do como padrões e estruturas se auto-organizam), tendo sido recipiente do prestigioso “Schumpeter Prize in Economics”, e do “Lagrange Prize in Complexity Science”. É mais conhecido por seu trabalho sobre o impacto dos retornos crescentes (em inglês, “increasing returns”) nas economias: a lei econômica que regula os negócios modernos baseados no conhecimento tal como o software. Arthur demonstrou como, particularmente nas indústrias orientadas a tecnologia, vantagens iniciais e eventos aleatórios podem levar a posições de monopólio. Sua pesquisa ganhou importância e influência na época do processo anti-truste movido nos anos 1990’s pelo Departamento de Justiça dos EUA contra a Microsoft.
Motivado pelo fato de que certas questões fundamentais sobre tecnologia ainda não dispõem de respostas satisfatórias, tais como ‘de onde vêm as novas tecnologias?’, ‘como funciona a invenção?’, ‘o que constitui inovação e como se chega até ela?’, Arthur apresenta sua teoria sobre as origens e a evolução da tecnologia, oferecendo uma explicação de como as novas tecnologias transformadoras emergem e como a inovação realmente funciona. Segundo ele, a tecnologia evolui tal qual um recife de corais se forma a partir de atividades de pequenos organismos – criando-se a partir de si próprio –, e toda tecnologia é uma combinação de tecnologias anteriores. O recife é um sistema ecológico com muitas espécies, e a tecnologia no sentido mais amplo é uma estrutura em constante mudança feita de milhares de tecnologias discretas, elas próprias compostas de outras tecnologias.
A intenção é estabelecer um arcabouço de uma teoria evolucionária da tecnologia que possa explicar por que certas regiões como Cambridge (Inglaterra) nos anos 1920’s e o Vale do Silício nos dias de hoje agem como viveiros da inovação. Arthur acredita que sem evolução, isto é, sem um sentido de relacionamento comum, tecnologias parecem nascer independentemente e melhorar independentemente. Cada uma delas deve vir de algum processo mental não explicado, alguma forma de “criatividade” ou “thinking outside the box” (expressão em inglês usada para se referir ao pensar diferente, de forma não convencional, ou a partir de uma nova perspectiva, normalmente no sentido de pensamento inteligente, criativo, novo) que a faz existir e a desenvolve separadamente. Por outro lado, com evolução (se nos for dada a chance de descobrir como funciona), as novas tecnologias nasceriam de uma forma precisa a partir de tecnologias anteriores, mesmo que com a ajuda de uma considerável “parteira mental”, e se desenvolveriam através de um certo processo de adaptação bem entendido. Assim, se pudéssemos entender a evolução, poderíamos entender aquele que é o mais misterioso dos processos: inovação.
A busca por uma teoria abrangente da inovação levou a conclusões pouco convencionais, como por exemplo, a de que o relacionamento entre ciência e tecnologia é mais simbiótico do que normalmente se acredita. A visão que prevalece é a de que a tecnologia é a serva da ciência – menos pura, mais comercial – porém Arthur defende que ciência e tecnologia andam juntas numa espécie de co-evolução. Como lembra John Markoff em matéria recente no New York Times (“Rethinking What Leads the Way: Science, or New Technology?”, 19/10/09), considere qual seria o estado da ciência sem o microscópio, o telescópio, ou sem os avanços mais recentes como o seqüenciamento automatizado de DNA. Ainda assim haveria ciência, enraizada na percepção e na razão humanas, mas seria bem menos potente que a ciência moderna, que expandiu tecnologicamente os sentidos através de instrumentos de medição altamente sensíveis, e o intelecto por meio de computadores.
Segundo Arthur, as tecnologias evoluem baseadas na constante e caótica recombinação de tecnologias já existentes. Nessa visão, todas as descobertas tecnológicas surgem como novas combinações de componentes tecnológicos existentes, eles próprios tendo surgido da mesma forma. O progresso científico, assim como o tecnológico, é guiado por humanos buscando por um meio para um fim que já tinham definido. Nesse sentido, o argumento de Arthur se assemelha ao de Thomas Kuhn no clássico e controverso “The Structure of Scientific Revolutions” (“A Estrutura das Revoluções Científicas”, University of Chicago Press, 1962) que explora a idéia das “mudanças de paradigma” para explicar o progresso científico. Segundo Kuhn, as teorias científicas acumulariam gradualmente anomalias à medida em que uma nova evidência se desenvolvesse, até que uma crise levasse a um novo paradigma ou modelo teórico. Kuhn defendia que o avanço científico não é evolucionário, mas sim “uma série de interlúdios pacíficos pontuados por revoluções intelectualmente violentas”, e nessas revoluções “uma visão conceitual do mundo é substituída por outra”. No caso do progresso tecnológico, o mercado faz o papel do árbitro na emergência de novas tecnologias, segundo Arthur.
Trata-se de uma visão profundamente social da inovação: o “inventor solitário” é, na verdade, uma invenção, parte da mitologia econômica americana. O gênio aparentemente é sempre alguém que tem um profundo conhecimento das tecnologias existentes e tem a inspiração de combiná-las de novas maneiras. Por essa razão a economia de alta tecnologia é muito mais sobre o “juntar as peças” do que sobre o refinamento de operações fixadas. A economia está se tornando generativa, conclui Arthur. Seu foco está se deslocando de otimizar operações fixadas para criar novas combinações, novas ofertas configuráveis.
O fato é que a tecnologia representativa de hoje não é mais uma máquina com arquitetura fixa realizando uma função fixa. Ao contrário, é um sistema, uma rede de functionalidades – um metabolismo de coisas-executando-coisas que pode sentir seu ambiente e reconfigurar suas ações para executar apropriadamente: trata-se de uma mudança em direção a sistemas “inteligentes”. No futuro tais sistemas não apenas serão auto-configuráveis, auto-otimizadores, e cognitivos, mas também serão auto-montadores, auto-curadores, e auto-protetores. Arthur chama à atenção para o fato de que no passado esses termos não seriam associados à tecnologia, pois trata-se de termos da biologia. O que acontece é que à medida que a tecnologia se torna mais sofisticada, ela também se torna biológica.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO ( TER, 27 DE OUTUBRO DE 2009 00:44 )



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Os Magnatas da Mídia e a Economia de Colaboração

Os Magnatas da Mídia e a Economia de Colaboração

SEG, 19 DE OUTUBRO DE 2009 10:00 IN
19 de outubro de 2009 - Apesar de todos os indicadores apontarem para a necessidade de mudança no modelo de negócios da indústria da mídia jornalística, alguns de seus líderes dão a impressão de que ainda não entenderam o recado. Em um encontro de executivos da mídia jornalística realizado em Pequim no dia 09/10/09, Tom Curley (Associated Press) e Rupert Murdoch (News Corp.) declararam em tom emocional e desafiador que “está na hora dos engenhos de busca e outros que usam conteúdo de notícias gratuitamente começarem a pagar”. Já há algum tempo que algumas empresas de notícias reclamam que sítios como a Google têm feito fortuna a partir de suas matérias, fotos e vídeos sem produzir uma devida compensação às organizações de notícias que produziram o material. “Nós, criadores de conteúdo, temos sido demasiado lentos em reagir à livre exploração de notícias por terceiros sem retorno ou permissão”, afirmou Curley, executivo da AP diante de uma platéia de 300 líderes da mídia. “Serviços de Web do tipo ‘crowd-sourcing’ tais como Wikipedia, YouTube e Facebook têm se tornado destinos preferidos do consumidor para notícias em primeira mão, desbancando sítios da Web de agências de notícias tradicionais. Nós, criadores de conteúdo, temos que agir rapida e decisivamente para retomar o controle de nosso conteúdo,” continuou Curley. Murdoch, por sua vez, afirmou que “os agregadores e plagiadores em breve terão que pagar um preço pela cooptação de nosso conteúdo. Mas se não aproveitarmos o atual movimento pelo conteúdo pago, serão os criadores de conteúdo—as pessoas nesta audiência—que pagarão o preço no final das contas, e serão os cleptomaníacos de conteúdo que triunfarão.”

Numa palestra em Hong Kong proferida poucos dias antes, Curley já havia declarado que a AP estava considerando vender matérias a alguns clientes online exclusivamente por um certo período, digamos meia hora. Atualmente a AP licencia suas matérias e fotografias a muitos dos principais portais da internet, incluindo Google, Yahoo e o MSN da Microsoft, e seu trabalho é usado também por centenas de sítios da Web de propriedade de jornais e redes de notícias.

Por mais compreensível que seja a manifestação de desespero dos magnatas – afinal de contas a indústria passa por um momento difícil – cabe indagar por que, apesar desse “roubo” estar acontecendo há um bom tempo, não foram tomadas providências para evitá-lo? Em matéria no portal da Newsweek intitulada “Rupert Murdoch Says Google Is Stealing His Content. So Why Doesn't He Stop Them?”(“Rupert Murdoch Diz Que A Google Está Roubando Seu Conteúdo. Portanto, Por Que Ele Não A Impede?”, 09/10/09), Weston Kosova sugere que trata-se de bravata, e explica por que. Se visitarmos a Google News ou fizermos uma busca no portal da Google com uma manchete importante (por exemplo, “Obama wins Nobel”), obtemos links para matérias de diversas agências de notícias. Ao clicar nesses links, somos levados àquele portal de notícias onde a matéria está publicada, e que é normalmente recheado de anúncios. Nesse caso, o que fez a Google? Sem clicar no link não vemos a matéria, mas em caso positivo vamos direto ao portal de notícias que originou a matéria. Daí, ao invés de roubar, a Google na verdade forneceu um serviço gratuito que direciona leitores a portais de notícias que talvez não teriam tanto tráfego sem essa “ajuda”. E os magnatas sabem disso, pois se eles de fato achassem que a Google estava roubando e quisessem impedi-la de direcionar todos aqueles leitores a seus portais de notícias sem pagar nada, eles simplesmente impediriam a Google de fornecer os links a seus portais. De fato, a Google não força os sítios a serem incluídos em suas listas de busca. A rigor, os administradores de um sítio podem removê-lo da lista de resultados da Google simplesmente acrescentando a um arquivo de nome “robots.txt”, residente no sítio, duas linhas: “User-agent: Googlebot”, e “Disallow: /”. Dessa forma o sítio se torna invisível à Google. E isso não é nenhum grande segredo. A própria Google explica, em página de seu portal, o procedimento passo a passo para se chegar a esse efeito. Mesmo assim, nem a AP nem a News Corp. tomaram qualquer atitude para impedir que seus sítios apareçam na lista de resultados da Google. A razão é simples: eles sabem que seu tráfego desapareceria do dia para a noite. Ao que parece, eles preferem encontrar um culpado para suas próprias incapacidades de competir num mercado em constante mudança, conclui Kosova.

Em matéria no portal do Center for Internet and Society da Stanford University intitulada “The Hard Truths about Journalism” (“As Duras Verdades sobre Jornalismo”, 08/09/09), Sarah Hinchliff comenta que às vezes as mudanças são tão básicas e revolucionárias que elas podem ser difíceis de reconhecer. Após ter concluído a leitura do livro mais recente do premiado jornalista da Harvard Kennedy School, Alex Jones, intitulado “Losing the News: The Future of the News That Feeds Democracy” (“Perdendo as Notícias: O Futuro das Notícias que Alimentam a Democracia”, Oxford Univ Press, Setembro 2009), Hinchliff sentiu-se lembrada mais uma vez do quão difícil parece ser para as pessoas na indústria da mídia jornalística reconhecer a simples verdade: a internet eliminou a necessidade da mídia de massa. Embora admitindo que o jornalismo profissional ainda seja de inestimável benefício para a sociedade, no seu entender não vivemos mais num mundo onde cidadãos têm necessariamente que depender de um grupo seleto de “porteiros” para repassá-los informação e notícias. Trata-se de uma mudança de paradigma, e enquanto continuar a não ser reconhecido, as visões para o futuro do jornalismo serão fundamentalmente capengas. Assim, no espírito de catarse, Hinchliff enumera quatro princípios que acredita se constituírem nas verdades sobre o ecossistema das comunicações criado pela internet: (1) somos todos jornalistas hoje em dia, pois jornalismo não é mais uma profissão, mas uma atividade; (2) os dias de glória da mídia de massa comercial já se passaram, pois qualquer um pode ser uma fonte de notícias, e portanto os produtores de notícias têm diante de si dois novos obstáculos: competição ilimitada e escrutinabilidade; (3) os chamados parasitas da notícia são bons para a democracia, e portanto soa no mínimo irônico que as organizações tradicionais de jornalismo tenham atirado a pecha de parasita aos agregadores de notícias e blogueiros; (4) precisamos de menos nostalgia e mais inovação, pois a questão de se o jornalismo sério e investigativo pode ou não ser comercialmente sustentável requer inovação, e a simples nostalgia pelos anos dourados de jornalismo não vai levar a lugar algum.

Ironicamente, a indústria da mídia vive o melhor e o pior dos tempos, como diz L. Gordon Crovitz em artigo de opinião no Wall Street Journal intitulado “Media Moguls and Creative Destruction” (“Magnatas da Mídia e Destruição Criativa”, 12/10/09): melhor porque o custo de publicar notícias, vídeo ou distribuir música nunca esteve tão baixo, e pior pois é difícil encontrar uma empresa, seja da velha ou da nova mídia, tem surgido com um modelo de negócios sustentável. Em recente exemplo de contraste entre a supervalorização de empresas da chamada “nova mídia” e a perda de valor da velha mídia: enquanto que a startup Twitter foi avaliada em US$ 1 bilhão, a revista Gourmet, um ícone em sua categoria, anuncia seu fechamento a partir de Novembro deste ano.

O fato concreto é que na era da internet a indústria da mídia está sob extrema pressão, mas há quem diga que não é apenas por causa da internet. A indústria teria cometido alguns erros fatais baseados em estratégias malfadadas de crescimento e convergência. Além disso, a maioria das empresas de mídia têm tido consistentemente um fraco desempenho por mais de uma geração, mesmo antes da internet surgir como uma força competitiva. Várias estratégias de investimento e aquisição criaram o paradoxo de que, em mídia, quanto mais rápido as receitas crescem, pior é o desempenho das ações na bolsa. E aí veio a internet. De 1995 a 2005, as ações da Disney, Viacom, Time Warner, e News Corp. subiram meros 2,5%, enquanto o índice da Standard & Poors subiu 9%. Adicionalmente, o valor de mais de 100 negócios da era digital realizados desde 2000 por Sony, Time Warner, NBC, Disney, Viacom e News Corp. chegaram a um valor praticamente nulo.

Um novo livro intitulado “The Curse of the Mogul: What’s Wrong with the World’s Leading Media Companies” (“A Maldição do Magnata: O Que Está Errado Com As Empresas Líderes da Mídia”, Portfolio, Outubro 2009), escrito por Jonathan Knee, Bruce Greenwald e Ava Seave, todos professores da Columbia Business School, analisa as razões pelas quais a indústria está em tal estado de penúria. Em artigo no Washington Post (“Good Media Moguls vs. Bad Media Moguls”, 14/10/09), o primeiro autor Jonathan Knee, especialista em investimentos na indústria de mídia, diz que os magnatas da mídia têm sido responsáveis por uma destruição de valores sem precedentes durante um longo período de tempo. “Mesmo numa era de derretimento financeiro e resgates governamentais, os mais de US$200 bilhões em perda de ativos durante essa década por apenas três conglomerados de mídia – Time Warner, Viacom (incluindo sua aquisição da CBS) e News Corp. – ainda chega a tirar a respiração,” acrescenta Knee. E continua: “As vantagens de escala mais frequentemente encontradas na mídia digital tendem a vir dos efeitos em rede ao invés dos requisitos de custo-fixo alto das franquias de mídia tradicionais.” Entre as poucas empresas da nova mídia a construir negócios consolidados estão a Google e a eBay, que criaram redes enormes. Isso também justifica as altas avaliações atribuídas a empresas de mídia social como Facebook e Twitter.

Entre os pontos cegos das lideranças da velha mídia, estaria justamente o valor das redes, segundo Jeff Jarvis, uma espécie de “guru” da nova mídia, em matéria em seu blog BuzzMachine.com provocativamente intitulada “The economy of collaboration” (“A economia da colaboração”, 16/10/09). Aos executivos da velha mídia seria urgente perceber o quanto a economia da colaboração agrega valor, cria eficiência, e opera novas “moedas”. Jarvis acredita que esses executivos ainda não se permitiram abrir os olhos para a nova realidade econômica: os imperativos da chamada “economia do link”, a necessidade e o benefício de se renunciar ao controle, as vantagens de se criar plataformas abertas sobre sistemas fechados, a economia da “pós-escassez” e a arte de se explorar a abundância, a necessidade de ser “buscável” para ser encontrado, a deflação que a inovação traz consigo, o valor do gratuito, e o triunfo do processo sobre o produto.

Em referência à afirmação de Curley, executivo da AP, de que “existe um excesso, pelo menos no curto prazo, de nós”, Jarvis diz que isso somente é verdade quando se pensa que se pode “possuir” notícias e o acesso a elas e portanto a seu preço. Mas na economia da colaboração é diferente: todos esses agentes em excesso agregam valor e eficiência. Jarvis acredita que é assim que a Google nos vê, capturando nossos links e cliques para descobrir o valor daqueles trilhões de páginas, e que foi assim que a Wikipedia e a Craigslist criaram seu valor, lidando com confiança e pertinência como uma nova moeda. E continua: “É assim que desejo que as organizações de notícias de nova-geração olhem para nós, como as pessoas que criarão notícias enquanto que as organizações agregam valor às notícias: avaliando, corrigindo, organizando, promovendo, vendendo. As organizações e seus jornalistas então se tornam tão mais eficientes porque trabalham colaborativamente com o público. É assim que elas se tornam sustentáveis e lucrativas novamente. Mas isso acontece somente se você confia e dá valor aos outros e entende a economia da colaboração.”

Tudo isso faria parte de uma nova era capitaneada por uma instituição que parece verdadeiramente entender e prosperar na era da internet: a Google. Em seu livro recente sobre a gigante da busca, “What Would Google Do” (“O Que A Google Faria”, HarperBusiness, Janeiro 2009), Jarvis relaciona entre as novas regras da nova era o princípio de que permitir que os clientes colaborem com você na criação, distribuição, marketing e no apoio a produtos é o que cria um diferencial no mercado de hoje. “Deter a propriedade de canais, pessoas, produtos, ou mesmo propriedade intelectual não é mais a chave para o sucesso. Abertura o é.”

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE )

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO ( SEG, 19 DE OUTUBRO DE 2009 10:04 )

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

As Moedas Virtuais Entre Pares e a Revolução Monetária

ARTIGOS ESPECIAIS

28/09 - 11:00

As Moedas Virtuais Entre Pares e a Revolução Monetária

28 de setembro de 2009 - No mundo digital, onde quer que haja um intermediário entre um recurso e o consumidor final, a internet está mostrando desnecessária a presença desse “homem-no-meio”. Vejam-se os exemplos do que ocorre na indústria de conteúdo de mídia (música, filmes), assim como na indústria da informação (jornalismo). Presença mais forte dessa implacável tendência para a eliminação do intermediário surge com o conceito de redes “peer-to-peer” (“par-a-par”, ou “entre-pares”), que veio a permitir que qualquer máquina na rede, em dado momento, possa atuar como servidor à disposição de um cliente (seu par). Com efeito, segundo a Wikipedia, peer-to-peer (abrev. “P2P”) é um termo que teve origem no conceito popular de desenho de aplicações entre-pares para computador, massificado pelos grandes sistemas distribuídos de compartilhamento de arquivos, tais como o Napster, o primeiro portal desse tipo criado no final dos anos 1990’s. Tamanho é o simbolismo de descentralização que traz consigo, o conceito tem inspirado novas estruturas e filosofias em outras áreas do relacionamento humano. Em certos contextos o termo é utilizado para se referir ao networking social igualitário que parece estar emergindo amplamente na sociedade contemporânea, e que é viabilizado pelas tecnologias da internet.

Desde a sua origem, a internet foi concebida como uma rede ponto-a-ponto consistindo de pares “iguais”, de modo que o transporte de dados entre pares poderia ser feito utilizando, em momentos distintos, diferentes conjuntos de recursos, estes permanecendo transparentes aos pontos extremos. Mais ainda, em sua evolução a web tem natureza essencialmente orgânica ao invés de centralizada. Daí, o termo P2P se refere a uma forma específica de dinâmica relacional, baseada na pressuposta equipotência de seus participantes, organizada através da cooperação livre de iguais com vistas ao desempenho de uma tarefa comum, para a criação de um bem comum, com formas de tomada de decisão e autonomia que são amplamente distribuídas na rede. A conotação ideológica parece inescapável. Segundo Michel Bauwens, autor do ensaio “P2P and Human Evolution: Peer to peer as the premise of a new mode of civilization” (“P2P e Evolução Humana: Peer to peer como a premissa de um novo modo de civilização”, 2005), trata-se de uma “forma de organização humana baseada-em-rede que se apóia na livre participação de parceiros equipotentes, engajados na produção de recursos comuns, sem recorrer à compensação monetária como o fator chave de motivação, e que não é organizada de acordo com métodos hierárquicos de comando e controle.”

A mera existência de uma rede de comunicações de amplo alcance e de característica essencialmente orgânica como a internet está trazendo mudanças profundas. Em seu livro “The Wealth of Networks – How Social Production Transforms Markets and Freedom” (“A Riqueza das Redes – Como a Produção Social Transforma os Mercados e a Liberdade”, Yale University Press, 2006), Yochai Benkler afirma que “possibilitadas pela mudança tecnológica, estamos começando a ver uma série de adaptações econômicas, sociais e culturais que tornam possível uma transformação radical de como construímos o ambiente de informações que ocupamos como indivíduos autônomos, cidadãos, e membros de grupos sociais e culturais. (…) A mudança trazida pelo ambiente de informações em rede é profunda. É estrutural. Vai aos próprios fundamentos de como mercados liberais e democracias liberais têm coevoluído por quase dois séculos.”

Em tempos de crise financeira global, de enfraquecimento do dólar, e de questionamentos sobre regulação do mercado financeiro, eis que surge o supra-sumo da descentralização financeira: a noção de “moeda peer to peer”, que, em se consolidando, poderia ser um forte indicador de que estaria por vir uma “revolução monetária global”. Em matéria intitulada “The Currency Revolution” (Wall Street Journal, 09/09/09), Andy Jordan chama à atenção para o fato de que em tempos como este em que as discussões inevitavelmente se voltam para moedas alternativas ou complementares, muitos dos envolvidos em redes sociais alimentam a esperança de que as moedas virtuais peer to peer tenham vindo para ficar. O fundador de uma rede social de viajantes aventureiros chamada Hub Culture, e autor do livro “Hub Culture: The Next Wave of Urban Consumers” (Wiley, 2002) seria o que se pode chamar de evangelizador das moedas peer to peer: “Você vai ver inexoravelmente, o movimento em direção às finanças peer to peer”, diz Stan Stalnaker. E vai mais além: “As pessoas negociarão individual e independentemente entre si, no mundo todo. Vai acontecer, não há como negar.”

Em parte para atender às necessidades dos membros de sua rede social Hub Culture, em sua maioria viajantes contumazes que se deparam frequentemente com a necessidade de comprar e vender moeda estrangeira, Stalnaker criou uma moeda digital chamada Ven, atrelada ao dólar, que permite que os membros da rede social Hub Culture negocie mercadorias e serviços assim como conhecimento. Tendo sido lançada em Julho de 2007, ven é uma moeda digital peer to peer com circulação tendo chegado à casa dos 700 mil vens em Julho último, segundo a DGC Magazine. A palavra “ven” tem sua origem na tradição budista, que lhe atribui o significado “compartilhamento que vem da doação”.

Uma contribuição de Stalnaker ao blog da Harvard Business School intitulada “Here Comes the P2P Economy” (“Aqui Vem a Economia P2P”, 26/02/08) já fazia a previsão: um choque como o que aconteceu com a mídia tem tudo para acometer também outras indústrias, algumas delas de forma mais rompedora. Aliás, já está sendo sentido nos serviços financeiros. O fenômeno do microcrédito iniciou o processo: o empréstimo de pequenas somas a grupos sociais carentes (e entre tais grupos) em economias mais pobres mostrou que os membros coletivamente acabaram garantindo o próprio retorno do empréstimo ao banco. “Combine isso com o poder de uma rede digital global, e um novo modelo de banco começa a tomar forma.”

Segundo Stalnaker, é aí que os sistemas financeiros P2P estão prontos para fazer com a indústria bancária o que aconteceu com a indústria de mídia. Já existe, inclusive, uma série de sítios que realizam o que se caracteriza como “banco peer to peer”: um sistema online que permite a seus membros individuais completarem transações financeiras entre si usando um processo no estilo leilão através do qual são feitas ofertas para uma quantia específica a uma dada taxa de juros, e aí os interessados têm a opção de procurar pela combinação quantia-taxa que está de acordo com suas necessidades. Embora tendo iniciado em economias subdesenvolvidas ou em desenvolvimento (África, México, etc.) alguns portais mais conhecidos já realizam operações de empréstimo peer to peer e microcrédito nos países desenvolvidos, incluindo Kiva.org, Proper.com, LendingClub.com, além de alguns “novatos” tais como Lubbus.com (Espanha), Loanio.com, PertuityDirect.com e Smava.pl (Polônia). “É apenas uma questão de tempo para que tais sistemas digitais eliminem a arbitragem realizada pelos grandes bancos”, continua Stalnaker.

Além disso, Stalnaker acredita que muito em breve serão usadas as chamadas “moedas pessoais” para fazer pagamento por serviços relacionados ao conhecimento propiciados por outros indivíduos, tais como a apresentação a pessoas ou grupos de pessoas e dicas de compra. Além de estarem sujeitas às mesmas flutuações e cotações determinadas pelo mercado, tais moedas terão seu valor atrelado à reputação e ao tamanho da rede (medido pelo status como especialista e pelo número de amigos), ao invés de expectativas de mercado e tamanho da economia. Embora pouco ortodoxa, a idéia de Stalnaker obteve destaque na lista das principais idéias revolucionárias para 2008 da Harvard Business Review, citada também na lista de 2009: “Ano passado Stan Stalnaker exuberantemente esboçou um futuro no qual comunidades P2P intercambiariam tudo desde energia elétrica a crédito de reputação pessoal” (“The 2009 HBR List of Breakthrough Ideas”, Lew McCreary, 28/01/09).

Em entrevista a Andy Jordan para a matéria do Wall Street Journal, Stalnaker diz que uma rede social é um lugar ideal para se começar uma moeda personalizada, pois tem confiança já embutida na infraestrutura. Com efeito, intangíveis tais como “confiança,” “reputação,” e até mesmo “atenção” passam naturalmente a fazer parte integrante dessas novas moedas. Como exemplo concreto, Jordan menciona a Seriosity, empresa co-fundada pelo Professor de Comunicação Social da Stanford University, Byron Reeves, especialista em respostas psicológicas à mídia interativa, que comercializa um produto chamado “Attent” que é adicionado ao Microsoft Outlook. O Attent utiliza uma moeda digital chamada “Serios,” que é anexada a mensagens eletrônicas (emails) para significar urgência. Cada empregado recebe uma cota, digamos semanal, de serios, e a cada mensagem a ser enviada o empregado associa seu “valor” (i.e., importância, urgência), podendo avaliar sua repercussão pelo número de serios que a mensagem de resposta lhe traz. Quando alguém deseja ganhar a atenção de seu chefe, o Attent descobre a “taxa aberta” do chefe de forma a indicar quantos serios serão necessários para ao menos garantir que a mensagem será lida. Além do mais, como cada usuário tem uma cota limitada de serios, o Attent cria um mercado para o intangível “atenção”. Como política de incentivo à produtividade, pode-se estabelecer que usuários têm a chance de “ganhar” serios uns dos outros realizando algo como concluir uma tarefa antes da data planejada, por exemplo.

Em meio a alguns exemplos bem sucedidos do bom funcionamento do conceito de moeda virtual (os “Linden dollars” do Second Life, e os e-Rewards do Upromise, por exemplo), das dificuldades do governo americano em manter o controle sobre as transações no portal de leilão eletrônico da eBay assim como de transações de parceiros da Amazon.com, e diante da fortíssima participação da Ásia na concretização das moedas virtuais – segundo matéria de Brenda Goh na Reuters, os asiáticos gastam cerca de US$5 bilhões ao ano em compras virtuais em websites como Ozone e Cyworld – resta saber se a idéia da moeda virtual peer to peer virá de fato a desbancar 800 anos de práticas financeiras centralizadoras.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 28/09/2009, 11:00hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2653374,408,100,1

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 28/09/2009, 06:51hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/09/28/as_moedas_virtuais_entre_pares_e_a_revolucao_monetaria_54789.php



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Mercado do Anúncio Gráfico na Internet

ARTIGOS ESPECIAIS

21/09 - 08:00

O Mercado do Anúncio Gráfico na Internet

21 de setembro de 2009 - No coração da economia da internet reside a indústria do anúncio interativo, que veio a se consolidar a partir de 2002. Naquela época, a tecnologia preferida para os anúncios na internet eram os vistosos banners exibidos em portais como Yahoo! e MSN, que ainda existem mas hoje representam cerca de 20% dos investimentos em propaganda online. Mais da metade desses investimentos vão para a chamada “propaganda de busca” (em inglês, “search advertising”), modalidade amplamente dominada pela Google, que exibe textos curtos ao lado dos resultados de busca baseados na palavra-chave da consulta, e o anunciante paga apenas quando o usuário clica no anúncio. Na propaganda de marca (em inglês, “brand advertising”), os anúncios de “mídia rica” estão substituindo os banners, pois permitem que os usuários interajam através de cliques, e dessa forma seu engajamento possa ser rastreado. E tudo isso faz com que o dispêndio em propaganda seja menos especulativo, passando a ser tratado como um custo de vendas. Segundo especialistas, essa é uma das razões pelas quais o setor tem sofrido menos com a recessão econômica que outros setores.

A propaganda online é diferente da propaganda tradicional no mínimo devido ao fato de que a internet dispõe de recursos para estender a função da propaganda bem além daquilo que a mídia tradicional é capaz de realizar. Exemplo disso, utilizado no artigo “Internet Advertising Formats and Effectiveness” (“Formatos e Eficácia da Propaganda na Internet”, por Hairong Li e John D. Leckenby, 2004), é que consumidores podem clicar num anúncio em forma de banner de um livro eletrônico, consultar o índice do livro, encomendar o livro, e baixar o “e-book” para o seu computador, tudo isso através da conexão com a internet. Nenhuma das mídias tradicionais poderia oferecer tal capacidade combinada de comunicação, transação e distribuição. A função expandida da propaganda pela internet, segundo Li e Leckenby, vem de sua integração horizontal de três capacidades fundamentais de canal de marketing (comunicação, transação e distribuição), e de sua integração vertical de comunicações de marketing, incluindo anúncio, relações públicas, promoção de vendas e marketing direto.

Em relatório de Maio último sobre a nova realidade do dispêndio das empresas americanas em propaganda, a eMarketer diz que a parcela da internet no investimento em anúncio em mídia estava crescendo por pelo menos um ponto percentual a cada ano. Duas tendências estariam produzindo esses ganhos rápidos: marqueteiros gastariam mais com anúncios online, ao mesmo tempo em que gastariam menos em anúncios colocados em outras mídias tais como jornal impresso, rádio e lojas. E esses deslocamentos no dispêndio seriam anteriores à recessão, mas as forças econômicas atuais tanto reforçariam os novos modelos de propaganda quanto estariam tornando-os mais permanentes. Dessa forma, apesar da crise econômica, o dispêndio total com anúncios online cresceria em 2009 para um valor sem precedentes de US$24,5 bilhões. Após o ganho incremental de US$1,1 bilhões deste ano, a eMarketer projetava que o dispêndio em anúncios online continuaria a galgar novos patamares a cada ano até 2013. Quatro seriam as razões para a expansão continuada: (1) muitos marqueteiros consideram que os anúncios pela internet são mais mensuráveis do que os anúncios em outras mídias; (2) os marqueteiros vêem os anúncios na internet como mais direcionáveis, e isso propiciaria melhor eficiência no gasto com propaganda; (3) marqueteiros continuam a reequilibrar seus orçamentos de propaganda, levando uma parcela maior para o anúncio online de forma a acompanhar o aumento do tempo em que as pessoas estão passando conectadas à internet. Segundo Randall Rothenberg, presidente e CEO da Interactive Advertising Bureau, uma outra razão para o otimismo é que a propaganda online está tornando obsoleta a distinção entre o dispêndio de marketing “acima da linha” e “abaixo da linha”. O primeiro alimenta a sensibilização ou a consideração da marca por um consumidor que planeja uma compra, e esse dispêndio é normalmente cortado em períodos de recessão. Por outro lado, o gasto abaixo-da-linha inclui promoções ou cupons para estimular a preferência do consumidor pela marca quando ele se aproxima de uma compra, ou até mesmo bônus em esquemas de fidelização, o que torna tal alocação de dispêndio mais robusta. De modo geral, o marketing online a cada vez mais busca sensibilização, consideração, preferência e fidelidade, tudo ao mesmo tempo.

Ainda segundo a eMarketer, o crescimento seria desigual, considerando a heterogeneidade da internet. Os anúncios em vídeo, por exemplo, estariam rapidamente ganhando uma parcela maior no bolo dos investimentos em propaganda. Em compensação, os marqueteiros gastariam, em 2009, menos que ano anterior com banners, isto é, anúncios gráficos estáticos também conhecidos através do termo em inglês “display ads”.

Apesar de bastante atraente ao internauta, o problema com esses anúncios gráficos é que, com a diversidade de formatos, e os milhares de sítios nos quais o anunciante quer inserir seu anúncio, normalmente leva horas para planejar e gerenciar uma campanha publicitária com esse tipo de anúncio online. Em razão dessa complexidade, muitos anunciantes simplesmente nem cogitam utilizar “display ads”, ou não investem o tanto quanto gostariam. Por outro lado, alguns veículos acabam ficando com até 80% de seu espaço para propaganda sem vender. Em seu anúncio oficial do AdExchange, novo produto da Google, Neal Mohan, Vice Presidente de Gerência de Produtos, compara a uma companhia aérea voando a maior parte do tempo com suas aeronaves vazias.

Lançado em 17/09/09 no blog oficial da Google, e com o objetivo de simplificar o sistema de compra e venda de anúncios gráficos (“display ads”), ao mesmo tempo em que propicia ferramentas para medir o desempenho do anúncio, o AdExchange deve servir como um mercado em tempo real tanto para os veiculadores de anúncios quanto para as redes de agências publicitárias negociarem espaço de “display advertising”.

A julgar pela descrição fornecida pela gigante da propaganda de busca – que tenta sair da posição inferior que ocupa em propaganda em display – o produto promete revolucionar o mercado, e transformar em realidade a expectativa de seu CEO Eric Schmidt de que esse seria um dos caminhos para expansão da receita da empresa em tempos de desaceleração do crescimento da propaganda de busca. Desenha-se o seguinte cenário: um usuário solicita uma página web de um sítio que está participando na rede de troca de anúncios gráficos, e aí o veiculador notifica a rede que o espaço naquela página está disponível, podendo também passar à rede algo sobre aquele usuário, baseado em suas atividades online ou seus hábitos de compra. A partir desse ponto, os anunciantes se engajam num leilão para adquirir o espaço para o anúncio, cada um oferecendo quantidades diferentes dependendo dos atributos daquele usuário, da hora e possivelmente de outros fatores. O “display ad” do vencedor é então encaixado na página, tudo isso acontecendo quase que instantaneamente.

Trata-se de uma evolução do que chamamos de propaganda direcionada, que, aliás, tem se mostrado significativamente mais eficaz – e confiável – em dados níveis de dispêndio do que muitos tipos de propaganda tradicionais. E isso deve incrementar o deslocamento dos orçamentos publicitários para o anúncio online. Tudo isso resultado da melhoria significativa que se vislumbra na capacidade de aliar relevância dos anúncios com mensurabilidade da resposta. A desconfiança de que pelo menos uma dessas características estaria aquém de um mínimo esperado tem impedido que marqueteiros explorem o verdadeiro potencial da internet como a mídia mais mensurável da história do marketing.

Segundo especialistas, o fato das respostas aos anúncios gráficos online serem tão ruins justifica-se, em grande medida, pela irrelevância do conteúdo. Com o AdExchange, a promessa é de que essa situação deverá mudar significativamente. Há, obviamente, preocupações relativas à privacidade do usuário, mas espera-se que o sistema esteja efetivamente interessado nos interesses de compra do usuário, e não em sua identidade ou quaisquer outras informações pessoalmente identificáveis.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 21/09/2009, 08:00hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2644510,408,100,1


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dispositivos Sociais e o Impacto sobre Privacidade

ARTIGOS ESPECIAIS

15/09 - 19:18

Dispositivos Sociais e o Impacto sobre Privacidade

15 de setembro de 2009 - Quando se fala no impacto da tecnologia na privacidade do cidadão imediatamente vêm à tona as questões relativas à proteção a informações de natureza privada. Em recente artigo intitulado “People Can Be So Fake: A New Dimension To Privacy And Technology Scholarship” (“Gente Pode Ser Tão Falsa: Uma Nova Dimensão aos Estudos de Privacidade e Tecnologia”, 27/08/09, Stanford Center for Internet and Society, http://ssrn.com/abstract=1458637), Ryan Calo enriquece a discussão tradicional, que, desde a publicação, em 1890, do clássico “The Right to Privacy” (“O Direito à Privacidade”) de Samuel Warren e Louis Brandeis, tem se concentrado na capacidade da tecnologia de manipular a informação, ao incluir uma nova dimensão ao estudo do impacto à privacidade exercido pelo chamado desenho antropomórfico ou social. Em particular, Calo chama à atenção para a influência dos chamados “dispositivos sociais” no pleno exercício da privacidade. Equipamentos que respondem à voz e alguns até com resposta também sob forma de voz, além de dispositivos com interfaces que os fazem se assemelhar a humanos, todos têm demonstrado sua utilidade e conveniência, fazendo-nos aceitar que máquinas tais como robôs de serviço pessoal ou social desempenhem todo um novo elenco de tarefas. O fato é que a natureza da interface homem-máquina está mudando, e, mais especificamente, se tornando menos passiva e mais “social”. Segundo Calo, tal socialização da interface traz consigo o potencial de afetar valores fundamentais de privacidade simplesmente nos fazendo sentir observados e avaliados.

Há uma rica literatura em comunicações e psicologia sugerindo que o ser humano está, em sua essência, condicionado a reagir a essas interfaces como se uma pessoa estivesse verdadeiramente presente. E, naturalmente, as interfaces sociais são desenhadas de forma a capturar nossa atenção e avançar no quesito interatividade, liberando-nos para outras tarefas. Ao mesmo tempo, porém, as tecnologias que emulam pessoas podem ter efeitos indesejáveis, e um deles que, segundo Calo, se encontra bem documentado por estudos científicos, é a mudança de atitude, comportamento e estado psicológico que nos acomete diante de uma dessas interfaces. A adoção em larga escala dessas tecnologias pode vir a limitar as oportunidades não apenas de se sentir a sós, como de despertar a curiosidade e o auto-desenvolvimento. E tais efeitos trazem verdadeiro perigo pois não podem ser enfrentados através das técnicas tradicionais propiciadas pelas novas tecnologias de proteção ao sigilo da informação tais como cifragem e anonimização.

A propósito, essa necessidade de “estar a sós” já havia sido enfatizada por Warren & Brandeis: “A intensidade e a complexidade da vida, atendente aos avanços da civilização, têm tornado necessário algum retiro do mundo, e o homem, sob a influência refinadora da cultura, tem se tornado mais sensível à vida em público, de modo que a solidão [no bom sentido] e a privacidade têm se tornado essencial ao indivíduo”. Em seu tratado sobre privacidade e liberdade (“Privacy and Freedom”, Atheneum, NY, 1967), Alan Westin descreve, em termos da linguagem das artes dramáticas, a necessidade dos “momentos fora do palco” (em inglês, “moments off-stage”): “Como atores no palco dramático, (...) indivíduos podem sustentar papéis somente por períodos razoáveis de tempo, e nenhum indivíduo pode representar indefinidamente, sem alívio, a variedade de papéis que a vida demanda. Tem que haver momentos ‘fora do palco’ quando o indivíduo pode ser ‘ele próprio’.”

Em um forum de discussão sobre seus escritos a respeito da socialização da interface homem-máquina, Calo esclarece que, após ter ouvido a opinião de um grande número de acadêmicos da área de comunicações, engenheiros da Google, da Intel, e de outras empresas de tecnologia, além de ter, ele próprio, conduzido pesquisas na mídia especializada em tecnologia, foi levado a concluir que, de fato, tudo se encaminha para que os computadores e dispositivos eletrônicos inteligentes se tornem mais socialmente ativos e mais espertos, fazendo uso de algo do que se chama de inteligência artificial de modo a se parecerem humanos. Como exemplo, cita as palavras de Marissa Mayer, vice-presidente de “Serviços de Busca e Experiência do Usuário” da Google, numa palestra recente, dizendo que a tecnologia de busca ainda estava em sua infância, e que a gigante da busca estava explorando uma interface mais conversacional que permitiria aos usuários fazer perguntas ao buscador em viva voz como se estivessem conversando com uma pessoa.

Num outro artigo em seu blog no Center for Internet and Society (“Weegy: The Future Of Search?”, 18/06/09), Calo convida o leitor a experimentar uma “prévia” do que a tecnologia de busca na internet pode vir a ser nos próximos cinco a dez anos, visitando o portal Weegy—“um ser artificial online, equipado com um engenho de busca avançada e especialistas vivos.” Weegy usa uma combinação de técnicas de busca padrão, inteligência artificial de baixo nível, e “crowd-sourcing” (um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet para resolver problemas, criar conteúdo ou desenvolver novas tecnologias) para responder a perguntas dos usuários em áreas tão diversas quando “Família e Paternidade” e “Eletrônica”. Embora ainda longe da perfeição, Weegy parece elevar o patamar de interatividade ao qual estarão galgando as tecnologias de buscas do futuro. Arriscando previsões, Calo acredita que a próxima geração das interfaces de busca serão mais sociais, e provocarão uma certa diluição da distinção entre o trabalho da máquina e o trabalho humano. E tudo isso contribuirá para que o ser humano vá reagir a máquinas sociais como se elas fossem verdadeiramente humanas e sociais. Em decorrência disso, será mais difícil para o cidadão fazer buscas na internet sobre tópicos “incômodos”, impopulares ou embaraçosos. Trata-se, obviamente, de uma restrição à nossa privacidade na medida em que estaríamos deixando de fazer algo que poderíamos vir a fazer, caso a sensação de estar a sós prevalecesse.

O fato é que vários estudiosos, entre eles Byron Reeves e Clifford Nass (autores do livro “The Media Equation: How People Treat Computers, Television, and New Media Like Real People and Places”, CSLI, Stanford, 2003), têm demonstrado exaustivamente que as pessoas respondem a máquinas sociais como se estas fossem verdadeiramente humanas. Em geral, a explicação para tal fenômeno do subconsciente vem sob forma de duas alternativas: evoluímos numa época em que as coisas que se pareciam com humanos eram de fato humanas, ou humanos são super-afinados com outros humanos de forma a capitalizar em nossas maiores vantagens evolucionárias de linguagem e cooperação.

De concreto, sabemos que num nível bem básico, temos dificuldade em distinguir entre vozes, rostos e conversações reais, e os produtos da chamada tecnologia social que os imita. Em decorrência disso, adotamos involutariamente tecnologias com o potencial para interromper o “estar a sós” e esfriar a iniciativa e a livre expressão. É preciso estar atento para o fato de que danos dessa natureza são extremamente perigosos pois se dão no subconsciente, e não podem ser remediados com as salvaguardas tradicionais de privacidade.

Por outro lado, levando-se em consideração as reconhecidas falhas no regime de políticas de privacidade expressas sob forma de textos que, efetivamente, nunca são lidos, pode estar aí uma oportunidade para se dar um passo adiante: ao invés de atrair sensações desnecessárias de observação, deveríamos considerar a criação daquelas sensações onde de fato há o perigo de que nossas informações serão utilizadas e coletadas de formas que nos afetem. E é nesse sentido que Calo afirma que as propriedades únicas da tecnologia social também oferecem uma oportunidade de melhorar o panorama da proteção à privacidade, mais particularmente no ciberespaço. O uso cuidadoso do desenho antropomórfico (por exemplo, através do emprego de avatares) poderia um dia substituir as políticas de privacidade ineficazes por uma advertência visceral e direta que alinhasse a nossa experiência com a prática real da informação.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 15/09/2009, 19:18hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2639678,408,100,2


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O Capital de Aventura e a Democratização das Oportunidades de Geração de Riqueza

ARTIGOS ESPECIAIS

07/09 - 16:35

O Capital de Aventura e a Democratização das Oportunidades de Geração de Riqueza

7 de setembro de 2009 - Nos dias de hoje é inegável a importância da inovação tecnológica na democratização das oportunidades de geração de riqueza. Na lista dos 400 americanos mais ricos, segundo a Forbes, está o mais jovem de todos: Mark Zuckerberg, fundador da Facebook, tendo se tornado, já aos 23 anos de idade (em 2007), o mais jovem bilionário “self-made” de toda a história. Entre os 15 primeiros da lista de 2008 figuram seis “celebridades” do mundo da tecnologia da informação: Bill Gates (Microsoft), Lawrence Ellison (Oracle), Paul Allen (Microsoft), Sergey Brin (Google), Larry Page (Google), Steve Ballmer (Microsoft). Em comum entre eles, além do aspecto “self-made” (i.e., fortuna não-herdada), está o “combustível” inicial para os respectivos empreendimentos que lhes trouxeram o patrimônio bilionário: o chamado “venture capital”, frequentemente traduzido como “capital de risco”, ou “capital empreendedor”, mas que pode muito bem ser chamado de “capital de aventura” (como, aliás, o é na língua espanhola), dada a natureza aventureira da empreitada, pois envolve alto risco, alto retorno, longo prazo, ausência de liquidez, e normalmente está restrita a investimentos em nova tecnologia, novos conceitos de marketing ou novas possibilidades de aplicação de um produto.

Recente pesquisa da National Venture Capital Association (NVCA) traz dados de empregos e vendas que conclusivamente mostram a importância das empresas apoiadas pelo capital de aventura na economia americana. É possível encontrar empresas financiadas com capital de aventura em todos os setores da economia, embora com maior facilidade nos setores de tecnologia da informação e de assistência à saúde. Empreendimentos inovadores tais como Genentech, Medtronic, Microsoft, Amazon, Fedex, e Intel estão entre as diversas empresas americanas que receberam investimento de capital de aventura nos seus estágios iniciais. Juntas, as empresas alimentadas com esse tipo de capital empregaram mais de 10,4 milhões de trabalhadores americanos em postos de alta-qualidade, e geraram cerca de US$2,3 trilhões em receita em 2006. O total de receita das empresas apoiadas pelo capital de aventura compreendeu 17,6% do produto interno bruto, e 9,1% do emprego no setor privado dos EUA em 2006.

A mesma pesquisa revela que as empresas recipientes do capital de aventura bateram seus competidores que não tiveram esse tipo de investimento tanto em criação de empregos quanto em crescimento da receita. Entre 2003 e 2006, o emprego em empresas apoiadas por esse tipo de capital aumentou em 3,6%, enquanto que nacionalmente o emprego cresceu apenas 1,4%. No mesmo período, o crescimento das vendas nos EUA cresceu 6,5%, enquanto que as empresas apoiadas pelo venture capital experimentaram um crescimento de 11,8% nas vendas. Como se não bastasse, empresas inovadoras e de tecnologia de ponta que recebem investimentos de capital de aventura mantêm firmes os índices de emprego e de receita, em diversos setores da indústria, desde computadores e periféricos, vendas a varejo e distribuição, semicondutores, software, e telecomunicações, até biotecnologia, serviços financeiros, serviços de assistência à saúde, e dispositivos médicos. Ainda segundo o relatório da NVCA, em 2006, essas empresas do setor de computadores e periféricos empregavam cerca de 2 milhões de americanos, seguidas da indústria de energia industrial com 1,3 milhões de empregos. O setor de computadores e periféricos foi também o líder em 2006 com receita de US$533 bi, seguido do setor de energia com US$302,4 bi em receita naquele ano. Além do mais, os produtos revolucionários gerados pelos setores de biotecnologia e dispositivos médicos com apoio do capital de aventura sustentou em 2006 cerca de 494.000 postos de trabalho com altos salários e de mão de obra altamente especializada.

Ainda conforme o estudo da NVCA, o fato concreto é que o capital de aventura tem propiciado aos EUA um apoio inestimável ao talento e ao apetite empreendedores de seus cidadãos, transformando idéias e pesquisas científicas em produtos e serviços sem paralelo no resto do mundo. Trata-se de uma classe de ativos privados que financiam empresas desde a forma mais simples – muitas vezes apenas um empreendedor e uma idéia expressa sob forma de um plano de negócios – até organizações maduras e consolidadas. Empresas de capital de aventura são, na sua grande maioria, formadas por profissionais e administradores de capital de risco que financiam e agregam inteligência gerencial às empresas mais inovadoras e promissoras, que, regra geral, são empresas jovens e emergentes. Nesse sentido, o dinheiro financia novas idéias que não poderiam ser financiadas através das linhas de crédito mais tradicionais, e que, em geral, ameaçam produtos e serviços estabelecidos, e, tipicamente, demandam de cinco a oito anos para serem lançadas. Dessa forma, o capital de aventura se revela um tanto peculiar enquanto classe de ativo de investidor institucional, pois o investimento é feito numa empresa cujas ações, em termos práticos, não tem liquidez tampouco valor, até que a empresa amadureça por um período de cinco a oito anos. O acompanhamento e os futuros financiamentos seguem o desenvolvimento da empresa, servindo de checkpoints as chamadas “rodadas”, que ocorrem tipicamente a cada um ou dois anos, ocasião em que as ações são alocadas entre os investidores e a equipe administradora dos fundos com base numa “valoração” de comum acordo.

Além do dinheiro propriamente dito, o investimento de capital de aventura acrescenta inteligência gerencial, pois os parceiros de capital se põem diretamente envolvidos nos aspectos gerenciais da empresa, tipicamente assumindo posições no conselho de administração. Esse envolvimento é crítico para o sucesso de um jovem empreendimento, o que significa que os parceiros de capital têm o direito e a obrigação de recrutar talentos executivos e gerenciais capazes de escalar o empreendimento. Numa startup, é comum haver interação intensa e direta entre os fundadores e/ou empreendedores e a equipe executiva e gerencial, e isso limita o número de startups nas quais um dado fundo pode investir.

Curiosamente, toda essa nova cultura americana de investimento e suporte à inovação através do capital de aventura encontra num imigrante francês (que chegou a servir no exército americano) o seu nascedouro. Segundo Spencer Ante, colunista da BusinessWeek, em seu mais recente livro “Creative Capital: Georges Doriot and the Birth of Venture Capital” (“Capital Criativo: Georges Doriot e o Nascimento do Capital de Aventura”, HarvardBusiness School Press, Abril 2008), a emergência do capital de aventura moderno acontece na era do pós-Segunda-Guerra, e, não obstante a dominação do Vale do Silício, nasceu na Costa Leste pelas mãos de Georges Doriot. A noção de investir num negócio com dinheiro obtido além da própria família – o ponto crucial desse segmento nos dias de hoje – foi uma democratização sem precedentes do mundo dos negócios. A carreira de Doriot, por muitos anos professor da Harvard Business School, como capitalista de aventura começou formalmente em 1946, quando ele e diversos políticos de liderança, executivos de negócios, e acadêmicos da área de Boston, fundaram a American Research and Development (ARD). Embora o capital de risco já existisse há séculos, a ARD estabeleceu um novo modelo com três características fundamentais. Primeiramente, a ARD formava um “pool” de dinheiro de investidores, alguns deles instituições, que não tinham necessariamente qualquer relação entre si nem com a própria ARD. Em segundo lugar, a administração da ARD, sobre a qual Doriot não detinha quase nenhum controle, determinava como investir esse pool de dinheiro sem a influência dos investidores. Finalmente, após dar errado em alguns casos iniciais, a ARD buscou financiar empresas pequenas, cujos produtos se baseavam em pesquisa científica básica, ou mesmo simplesmente idéias para empresas. O caso mais célebre foi o de uma indústria de computadores que, no final dos anos 1950’s, desejava competir com a IBM trazendo como inovação os conceitos de interatividade e compartilhamento de tempo (“time-sharing”). De um investimento de US$70.000, a Digital Equipment Corporation evoluiu para uma entidade multimilionária, propiciando a seus investidores os frutos de um retorno-no-investimento de nada menos que 70.000 por cento. Segundo Ante, esse foi o primeiro gol de placa do capital de aventura, e o primeiro indicador de que esse setor viria a se consolidar definitivamente no mundo das finanças.

Conforme relato apaixonado de Ante, apesar do término trágico de sua carreira, todos os veios da vida de Doriot se conectam para formar algo profundo. Na segunda metade do século XX, os EUA experimentaram uma transformação histórica, na qual uma sociedade dominada por grandes corporações como Standard Oil, US Steel, e General Motors se tornou uma nação conduzida por startups apoiadas por capital de aventura tais como Digital Equipment Corporation, Intel Corporation, Microsoft, Starbucks, e tantas outras. Desde então, essas empresas pequenas e inovadoras têm criado novos mercados e milhões de postos de trabalho de alto-salário, ao mesmo tempo que forçado as velhas indústrias a se tornarem mais eficientes e produtivas. Doriot teria se tornado o profeta dessa nova “Nação de Startups”, o líder de uma cruzada econômica e social que democratizou o “clubinho” no qual havia se transformado o mundo das finanças. Ante considera que, mais que qualquer outra pessoa, Doriot – através de seus ensinamentos, escritos e liderança na vida militar, acadêmica e nos meios financeiros – foi o grande pioneiro da transição para uma economia baseada no empreendedorismo e na inovação. Por essa razão, Doriot deveria ser reverenciado tanto quanto outros titãs do mundo dos negócios como J.P. Morgan, John D. Rockefeller, ou Andrew Carnegie.

Numa palestra recente intitulada “The History of Venture Capital”, proferida no Programa de Empreendedorismo da Stanford University, Ante chama o Vale do Silício de “capital do capital de aventura”, e credita vários fatores para o deslocamento dessa cultura para a Costa Oeste dos Estados Unidos. Entre eles, a iniciativa de Frederick Terman, ex-reitor-executivo de Stanford e considerado o “arquiteto acadêmico do Vale do Silício”, ao estabelecer uma relação de mútuo respeito e benefício entre a academia e a indústria que acabou levando à formação do inigualável eixo de inovação em torno de Stanford. Contribuíram também uma maior aceitação da diversidade étnica na Costa Oeste, e uma educação universitária abundante no Vale do Silício. Fator fundamental, as empresas de capital de aventura em torno da lendária Sand Hill Road, que beira o campus de Stanford, começaram a surgir a partir dos anos 1960’s, incluindo as líderes Kleiner Perkins Caufields & Byers e Sequoia Capital.

A indústria do capital de aventura tem sentido bastante a crise econômica, alguns analistas chegando a sugerir a morte do modelo de negócios que foi tão bem-sucedido nessa revolução tecnológica da era da internet. Representantes tradicionais dessa indústria reagem e, em contraponto, afirmam que o melhor momento chegou: Tim Draper (Managing Director da Draper Fischer Juvertson), em palestra intitulada “Seizing the Economic Bull” (“Domando o Touro Econômico”) no Programa de Empreendedorismo de Stanford em 25/02/2009, diz que a depressão econômica do início de 2009 é, na verdade, uma grande dádiva para capitalistas de aventura, e até mesmo uma boa nova para os aspirantes a empreendedor. Segundo Draper, algumas das marcas mais dominantes foram iniciadas durante depressões e recessões, beneficiando-se de uma competição enfraquecida e um mundo com receio de se mexer. Essa é a hora de agir para aqueles que têm uma idéia inovadora. É preciso coragem.

E, como dizia Doriot, “o homem verdadeiramente corajoso é aquele que faz algo corajoso quando ninguém está olhando”.

(Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE)

Investimentos e Notícias (São Paulo), 07/09/2009, 16:35hs, http://investimentosenoticias.com.br/IN_News.aspx?Parms=2628474,408,100,1

Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online, Recife), 07/09/2009, 09:12hs, http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/artigos/2009/09/07/o_capital_de_aventura_e_a_democratizacao_das_oportunidades_de_geracao_de_riqueza_53590.php